Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ciência. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de janeiro de 2013

Ciências com fronteiras: a exclusão das Humanidades pelo MEC

A esquerda: o território da Ciência. A direita, as humanidades.

por Alyson Freire

Como um veículo idealizado por cientistas sociais, e, mais importante, feito a partir dos conhecimentos aprendidos nas Ciências Sociais, a Carta Potiguar não poderia deixar de se manifestar a propósito da suspensão da liminar que determinava a inclusão dos cursos da área de Ciências Humanas no programa Ciência Sem Fronteiras do Ministério da Educação (MEC). A decisão do Tribunal Federal da 5ª Região e o entendimento do MEC sobre a natureza doPrograma devem ser não apenas lamentadas e repudiadas, mas, como convém a postura das Humanidades, analisadas e discutidas. Muito embora, bastasse para verificar o déficit em Humanidades no Brasil confrontar a realidade social do país e as percepções enviesadas e estreitas sobre esta, e, assim, constatar, com certa melancolia, os enormes desafios e incompreensões que existem acerca das questões públicas.

A indignação gerada não pode, porém, embotar a reflexividade exigida para produzir, de uma só vez, um entendimento claro do que está em disputa no CsF e, sobretudo, uma crítica aos pressupostos tácitos que o presidem. Afinal de contas, as Ciências Humanas notabilizam-se precisamente por constituírem um tipo de trabalho intelectual cujo cerne consiste em sua capacidade ímpar de elaborar autorreflexão crítica, a partir da qual a sociedade pode dispor das ferramentas para pensar a si mesma como problema e fenômeno humano, aberto e contingente, e, desse modo, entender por meio de que processos sociais e históricos as coisas se tornaram de uma forma e não de outra.

A posição do MEC e a interpretação da Justiça não são simplesmente neutras e técnicas. São seletivas e prescritivas na medida em que expressam, por um lado, interesses sociais, políticos e econômicos, e, por outro, concepções e valores acerca das classificações das ciências e o papel destas no interior de um projeto determinado de sociedade e desenvolvimento.

A disputa a propósito de quem está ou não autorizado a participar do Ciências sem Fronteiras ou que áreas devem ser priorizadas no financiamento de bolsas, intercâmbios e estágios no exterior são reveladoras a respeito da visão de desenvolvimento que o Governo do PT e outros setores abraçam e cultivam. Priorizar as Ciências Naturais e Exatas significa privilegiar uma determinada concepção de desenvolvimento, que é certamente a concepção de certos grupos de interesse. O que está jogo em toda essa polêmica resume-se a questão de definir os parâmetros pelos quais a sociedade deve ser organizada e estruturada para atingir os tão almejados fins do desenvolvimento. Quer dizer, que caminhos o país e a vida das pessoas devem trilhar para alcançar um estágio elevado de bem-estar humano, segurança, conforto e liberdade.

Mas que ideia de desenvolvimento é esta adotada no Ciências Sem Fronteiras? Ora, uma ideia redutora e estreita de “desenvolvimento” que o identifica prioritariamente com crescimento econômico e progresso tecnológico puro e simples. Nesse sentido, desenvolvimento ou sociedade desenvolvida é sinônimo da elevação do PIB, da capacidade produtiva e criativa de indústrias e empresas, aumento da renda per capita e da disponibilidade de recursos humanos hiperqualificados do ponto de vista técnico, etc.. Sem satisfazer esses indicadores e critérios uma sociedade não pode considerar-se desenvolvida, tal qual entende esta concepção tecnicista de progresso.

É no interior dessa visão de desenvolvimento, que a Ciência e suas divisões adquirem um lugar e um papel determinados. Dentro desse paradigma, as Ciências Naturais e Exatas são consideradas as mais aptas para fomentar as condições de desenvolvimento. Elas são indutoras de progresso porque seus resultados e inventos podem ser diretamente aplicados e apropriados pelo Estado e pelas empresas, segundo, obviamente, os interesses estratégicos de dominação política, militar, social e econômica. Por isso, a elas reservam-se as melhores oportunidades de recursos e investimentos.

O maior investimento na formação e qualificação de recursos humanos no campo das ditas “ciências duras” ganha prioridade sobre todos os demais por conta do comprometimento do Governo do PT e das instituições de apoio e fomento com uma determinada visão de progresso, assim como pela força dos interesses estratégicos que o Governo, seguindo o modelo técnico-desenvolvimentista e sua política de coalizão, assume para manter sua governabilidade – esse comprometimento pode ser observada no conjunto de outras disputas em que o Governo está envolvido, como por exemplo a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

As Ciências Humanas são, desse modo, escamoteadas porque seu saber e formação não se coadunam tão intimamente com esta concepção de desenvolvimento e com os interesses dos atores hegemônicos (Estado e Mercado) neste processo. Elas seriam “ciências moles”, imprecisas e teóricas, e o progresso necessita de “ciências duras”, fálicas e masculinas, as únicas que, como diz o qualificativo, são capazes de serem suficientemente viris e ativas para fecundar o desenvolvimento numa sociedade. Como se pode deduzir, a analogia com o machismo e androcentrismo na ideia de “ciências duras e moles” não é nada gratuita e acidental – o que reforça o argumento de a ciência existe num contexto de valores, representações e repertórios culturais.

A dificuldade e os preconceitos que as Ciências Humanas sofrem para obter o devido reconhecimento de seu estatuto e valor científico é bem mais o resultado de avaliações políticas e culturais cristalizadas e compartilhadas em instituições de poder dominantes (Estado e Mercado) do que o produto de avaliações científicas e epistemológicas sérias. O valor e as classificações das ciências ganham o seu sentido particular e hierarquizante em razão das representações sociais que se tem acerca da potencialidade delas no interior de concepções culturais específicas sobre progresso, desenvolvimento e bem-estar humano, assim como pelo papel que elas cumprem numa divisão de trabalho mais ampla sob a finalidade de atingir os objetivos produtivistas e quantitativos do crescimento econômico – PIB, renda per capita, etc..

Restringir o programa CsF aos estudantes oriundos da área tecnológica e biomédica é uma decisão política, no sentido de que o Governo, o mercado e as instituições de fomento enxergam nessas áreas os subsídios técnicos e humanos capazes e necessários de alavancar o desenvolvimento econômico de uma sociedade a partir da criação de tecnologia e da formação de quadros hiperqualificados para o mercado e suas necessidades.

O problema, portanto, não reside na questão de medir qual ciência é superior ou mais relevante do que a outra, o problema está na concepção de desenvolvimento abraçada e partilhada pelo MEC, e flagrantemente expressa noCiência Sem Fronteiras. A exclusão das Ciências Humanas do CsF é resultado de um modo tecnocrático e desenvolvimentista de conceber o progresso de uma sociedade. Nesta concepção de desenvolvimento, o sucesso de uma sociedade é medido pela elevação das riquezas que um país produz mais do que a forma e o grau com que ele a distribui; mais pela quantidade e exploração de recursos que ela capaz de realizar do que pela qualidade dos serviços públicos básicos que oferece; mais pela industrialização do que pelo impacto que ela causa nas condições ambientais e de existência das pessoas; mais pelo progresso tecnológico e quadros qualificados que possui do que pelo grau de participação política e social das pessoas na vida pà ºblica.

O que temos de criticar veementemente é esta visão que privilegia unilateralmente indicadores quantitativos e economicistas em detrimento de outros indicadores qualitativos e sociais ligados ao que o economista Amartya Sen chamou de expansão das “liberdades substantivas” e das capacitações para o agir autônomo das pessoas – o que envolve, segundo Sen, desde as liberdades políticas e econômicas básicas ao desenvolvimento de condições para evitar subnutrição e a mortalidade precoce e capacidades de promoção da autonomia e participação ativa das pessoas na vida política da sociedade (educação, liberdade de expressão, etc.).

Se pensarmos como economista indiano e ganhador do Nobel de economia, defendendo que o desenvolvimento é essencialmente um processo de expansão das liberdades reais de que as pessoas desfrutam, então as Ciências Humanas possuem um papel central e pertinente como “indutoras” das condições de desenvolvimento. Os obstáculos na expansão das liberdades reais e na efetivação das capacidades humanas são resultados, em larga medida, de fenômenos humanos, isto é, de processos, instituições e estruturas sociais que modelam o destino das pessoas, suas chances de vida e oportunidades.

Ora, se não podemos falar em sociedade desenvolvida se nela vigoram, de maneira persistente e seletiva, dominações, desigualdades e restrições que impactam enormemente o exercício dos direitos e o desenvolvimento das capacidades pessoais, então, a contribuição das Ciências Humanas é indispensável e inestimável para reverter tal quadro. O entendimento, com clareza e profundidade, de fenômenos humanos, como a reprodução da pobreza, da violência, da ineficiência institucional, os conflitos entre grupos, a exploração e injustiça econômica, os dramas interpessoais, a desigualdade e marginalização social, a privação de direitos em razão de estigmas e preconceitos, entre tantos outros, somente é possível mediante um consistente conhecimento e pesquisas pertencentes ao campo das Ciências Humanas. Esses conhecimentos podem ser convertidos em políticas públicas e reformas políticas. No entanto, a contribuição das Ciências Humanas não se esgota em oferecer informações úteis que servirão de matéria para políticas sociais.

As Ciências Humanas proporcionam um exercício intelectual formidável de desvelamento e questionamento das suposições tácitas e ponto de vistas morais em que se fundamentam determinadas visões de mundo – como a noção de desenvolvimento aqui criticada. Revelar as opacidades subjetivas e causais do comportamento e pensamento humanos, situando-os histórica e socioculturalmente, é o seu principal mérito. O esclarecimento que as Ciências Humanas proporcionam é um esclarecimento não tanto da ordem da previsão e do controle dos fenômenos mas da reflexividade dos sujeitos sobre si mesmos, suas vidas, crenças e ações – o que pode servir tanto numa escala individual quanto, também, numa escala coletiva para governos comprometidos com reformas e movimentos sociais engajados na luta por transformações sociais.

Portanto, por mais enervante que seja a exclusão das Ciências Humanas do CsF, em vez do ressentimento, a crítica deve alimentar-se do comprometimento público que as Ciências Humanas possuem com o avanço e fortalecimento da emancipação humana em todos os seus sentidos. Este comprometimento obedece uma convicção intelectual e ética iniludível acerca do papel do conhecimento das Humanidades em geral e das CH em particular para esclarecer, de um lado, os mecanismos e estruturas sociais responsáveis que dificultam alcançar uma situação de maior emancipação, liberdade e dignidade compartilhadas e, de outro, revelar os pressupostos tácitos que governam as tentativas políticas de superação e solução desses mesmos mecanismos e estruturas.

De uma maneira decisiva, podemos afirmar que as Ciências Humanas contribuem com o desenvolvimento de uma sociedade na medida em que elas podem fornecer, a um só tempo, um conhecimento aplicável e reflexivo sobre os fenômenos e questões que esta sociedade busca resolver e, também, acerca das implicações dos valores, compreensões e aspirações em nome dos quais esta sociedade ou grupos dela pensam e agem. O investimento em conhecimentos orientados para a explicação dos fatos humanos e para o esclarecimento dos valores que as pessoas e grupos assumem e praticam em suas percepções e aspirações é um fator indispensável para qualquer sociedade que se pretenda desenvolvida num sentido mais pleno da palavra. Engenharias e tecnologias ajudam a construir e fazer crescer um país, mas não produzem por si mesmas compreensões capazes de impulsionar um processo de autoentendimento sobre o país, seus dilemas e ambições.

A exclusão reiterada das Ciências Humanas no programa Ciências sem Fronteiras abre mais um flanco para reflexão e crítica a propósito dos rumos que o Governo tem adotado como diretrizes do projeto nacional de desenvolvimento. Apostar numa concepção de desenvolvimento que abre mão de “pensar e entender o Brasil” para além das categorias econômicas mais redutoras e autoreferenciadas é bem mais do que um equívoco ultrapassado, é antes e fundamentalmente um equívoco bastante perigoso e ameaçador.


Alyson Freire é professor de Sociologia. Mestrando no Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais - UFRN. Editor e integrante do Conselho Editorial da Carta Potiguar. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

LUTO: A rede mundial de computadores perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores!



Criador do RSS, Reddit e Creative Commons suicida-se aos 26 anos, sob os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos EUA

por Magaly Pazello*

Este foi um final de semana muito triste, perdemos Selarón no Rio de Janeiro e, em Nova York, aos 26 anos, Aaron Swartz se suicidou.

A internet perdeu um de seus mais brilhantes sonhadores, ativista, prodígio da computação, escritor. Essa perda trágica repercute intensamente pela internet, como uma onda de dor, espanto e indignação. Mais e mais sites publicam relatos, declarações, notícias.

Esse rapaz, os quais os sites de notícia não se cansam de sublinhar que sofria de depressão, sofreu os efeitos da máquina de moer do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Acusado de “roubar” milhões de artigos científicos ele enfrentava um processo judicial que poderia resultar em 35 anos de prisão caso fosse considerado culpado. No centro desse processo se instalou uma séria controvérsia que deixa uma marca indelével sobre o direito de todas as pessoas ao acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Aaron Swartz, aos 13 anos foi o ganhador do ArsDigita Prize, uma competição para jovens criadores de websites não-comerciais que fossem úteis, colaborativos e voltados para atividades educacionais. O prêmio incluiu uma visita ao famoso Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mais tarde seria protagonista dos eventos que o levaram ao suicídio.

Aos 14 anos, Aaron integrou a equipe de criadores do RSS 1.0, um recurso bacana de leitura de sites através de atualizações em tempo real, os famosos feeds. Eu adoro!

Aos 15 anos, integrou a equipe que desenhou as licenças Creative Commons.

Na sequência, fundou uma start-up, que depois se fundiu à rede social Reddit, onde ele desenvolveu a plataforma que a levaria ao sucesso. E cujo desenho também resultou na base de sites Open Library, ou seja, bibliotecas abertas, e no Archive.org, uma espécie de máquina do tempo da internet. E esta seria sua vida e sua bandeira a partir de então: o acesso ao conhecimento e à informação, sua disponibilização online gratuita através de plataformas abertas, o desenvolvimento técnico dessas plataformas. Especialmente o acesso ao conhecimento e à informação públicas e geradas a partir de recursos públicos. Suas atividades profissionais nunca visaram à obtenção de lucro e promoção pessoal. Sua genialidade está presente em dezenas de projetos semelhantes.

Crítico de filmes e pesquisador, seu blog tinha um enorme público. Entre 2010 e 2011, foi bolsista do Centro de Ética Edmond J. Safra na Harvard University, onde pesquisava sobre corrupção institucional. Fundou e era líder do DemandProgress.org, uma plataforma inteligente de ciberativismo.

Aaron foi uma das vozes fortes contra o SOPA-Stop Online Piracy Act, um projeto de lei contra a pirataria online proposto pelo poderoso setor de propriedade intelectual e direitos de autor, a indústria fonográfica e de cinema. Mas o projeto de lei, de fato, iria endurecer as leis a tal ponto que sequer mencionar um texto num blog seria considerado um ato ilegal, estrangulando o direito à liberdade de expressão.

Aaron, junto com Shireen Barday, “baixou” e analisou por volta de 440 mil artigos acadêmicos da área de Direito para determinar o tipo de financiamento que os autores receberam. Os resultados, publicados noStanford Law Review, levaram a trilhar os caminhos dos fundos públicos para pesquisa. Por causa de sua capacidade de processar grandes quantidades de dados era requisitado para colaborar com vários outros pesquisadores. Disto resultou o projeto theinfo.org, que chamou a atenção do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

O theinfo.org tornou livre e aberto o acesso a uma imensa base de dados públicos somente disponível gratuitamente através de máquinas instaladas em 17 bibliotecas em todo o país, o que obrigava as pessoas interessadas a se deslocar até os pontos de acesso ou, então, pagar 10 centavos por peça. Foram aproximadamente 20 milhões de páginas da Corte Federal, algo de tirar o fôlego. Ele deixou muita gente brava com essa façanha, a tal ponto que começou a ser investigado pelo FBI, contudo sem consequências.

Mas a história foi bem diferente com o MIT. Ainda no Laboratório de Ética de Harvard, em 2011, Aaron se utilizou do acesso aberto do MIT para coletar por volta de 4,8 milhões de artigos científicos, incluindo arquivos da base JSTOR muito conhecida no mundo acadêmico. O caso veio a público, creio, quando ele foi preso em julho de 2011.

A controvérsia sobre se seria roubo ou não foi substituída pelo debate sobre se era correto a cobrança por artigos científicos cujas pesquisas são financiadas com dinheiro público. Sobre a mercantilização e privatização do conhecimento científico, direitos de autor e os custos para tornar esses materiais disponíveis. Uma campanha de apoio a Aaron e o manifesto Guerrilla Open Access, escrito por ele em 2008, ganhou outra vez visibilidade (uma tradução pode ser encontrada aqui).

Segundo a ONG Electronic Frontier Foundation, embora os métodos de Aaron fossem provocativos, os seus objetivos eram justos. Ele lutava para libertar a literatura científica de um sistema de publicação que tornava inacessível essa produção para a maior parte das pessoas que realmente pagaram por isso, quer dizer, todas as pessoas que pagam impostos. Essa luta deveria ser apoiada por todos.

As coisas começaram a tomar outros rumos com o declínio do debate. Após a devolução das cópias digitais dos artigos, a JSTOR decidiu não apresentar queixa contra Aaron. Mas a façanha desta vez resultou num processo por crime cibernético por parte do governo dos Estados Unidos munido pelo MIT. Em seu desabafo ao saber do suicídio, Lawrence Lessig escreveu:

Logo no início, para seu grande mérito, JSTOR compreendeu que era “apropriado” desistir: eles declinaram de dar prosseguimento à sua própria ação contra Aaron e pediram ao governo para fazer o mesmo. O MIT, para sua grande vergonha, não foi limpo, e então o promotor teve a desculpa que ele precisava para continuar sua guerra contra o “criminoso” que nós amamos e conhecemos como Aaron.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos interpretou a ação de Aaron como crime de roubo e a demanda foi levada ao grande júri que decidiu que ele deveria ir a julgamento. Então, a máquina de fazer moer do governo começou a funcionar.

Primeiramente, Aaron foi acusado de quatro crimes todos relativos à violação de sistema informático. Mas depois o Departamento de Justiça, numa atitude de “exemplaridade”, acrescentou mais nove acusações, todas contidas na Lei de Abuso e Fraude Informática, e atos de conspiração.

Além disto, familiares e amigos, como Lawrence Lessig, relatam situações de intimidação por parte do Departamento de Justiça. Alex Stamos, especialista em crimes cibernéticos, além de inúmeras outras vozes, desmontam item por item o exagero forçado na perseguição a Aaron, a verdade sobre o “crime”.

O efeito cascata dessas acusações resultaram na possibilidade real de Aaron Swartz ser condenadoa 35 anos de prisão e multa de 1 milhão de dólares!!!

Lawrence Lessig diz:

Aqui, é onde nós precisamos de um melhor sentido de justiça e de vergonha. O que é ultrajante nesta história não é apenas [o que aconteceu com] Aaron. É também o absurdo do comportamento do promotor. Bem desde o início, o governo trabalhou tão duro quanto pode para caracterizar o que Aaron fez da forma mais extrema e absurda. A “propriedade” que Aaron “roubou”, nós fomos informados, valia “milhão de dólares” — com a dica, e então a sugestão, que o seu objetivo de obter lucro com o seu crime. Mas qualquer um que diga que se pode ganhar dinheiro com um estoque de ARTIGOS ACADÊMICOS é idiota ou mentiroso. Estava claro o que disto não se tratava, mas o nosso governo continuou a pressionar como se tivesse agarrado terroristas do 11/09 com a boca na botija.

Não consigo imaginar o que passou com esse rapaz de personalidade introvertida, apresentando um quadro de depressão, à medida que a data do julgamento se aproximava. Sua solidão, seu medo diante deste quadro kafkiano. Sua morte me pareceu daqui de longe uma forma de exílio. Como o exílio do protagonista das tragédias gregas. A morte é a condenação ao exílio da República que não permite a existência dos poetas.

No sábado, ainda sob o impacto do acontecimento, sua família fez um comunicado público, culpando as autoridades judiciais e o MIT. O documento afirma que essa morte não é apenas uma tragédia pessoal, mas sim um produto de um sistema de justiça criminal repleto de intimidações, o qual iria punir uma pessoa por um alegado crime que não fez vítimas.

Essa última parte é a chave de todo o enredo, pois para a aplicabilidade da lei com a qual Aaron seria julgado era necessário uma série de aspectos todos ausentes dos atos cometidos.

Um memorial online está sendo construído em homenagem a Aaron.

O funeral será realizado nessa terça-feira, 15 de janeiro, em Illinois.

Como tributo a comunidade ciberativista criou uma página com o objetivo de ser um grande e espontâneo repositório de produção acadêmica colocada a disposição de todas as pessoas de forma gratuita e aberta.

Todas as pessoas estão convidadas a disponibilizar seus trabalhos em qualquer idioma. No twitter acompanhe pela hashtag #pdftribute.

O JSTOR publicou suas condolências imediatamente e o MIT anunciou que vai investigar sua responsabilidade na morte de Aaron, mas para mim este anúncio beira o cinismo.

E o que nós aqui no Brasil temos com isso?

Bom, a internet foi concebida como uma plataforma sem fronteiras físicas e territoriais. E quando ocorre um evento, triste ou alegre, seja onde for, que está relacionado ao âmago do funcionamento desse incrível sistema isso nos interessa.

O aperfeiçoamento técnico da internet e seu sistema regulatório é, também, de grande interesse de todos, sobretudo quando este aperfeiçoamento está relacionado com o acesso ao conhecimento e à informação, ao livre exercício dos direitos civis e das liberdades individuais.

Em relação à produção científica vale lembrar que o governo brasileiro tem tido uma participação importante na formação de uma cultura de acesso aberto e gratuito. Embora de maneira, por vezes, contraditória.

Mas deixando as idiossincrasias de lado… a área de saúde é um belo exemplo de acesso compartilhado ao conhecimento com a instalação, no Brasil, da BIREME, em 1967, cujo objetivo é contribuir com o desenvolvimento da saúde fortalecendo e ampliando o fluxo de informação em ciências da Saúde. Dela, em 2002, surgiu o projeto Scielo, uma biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros que se expande pela América Latina.

No início dos anos 2000, em consonância com a o debate global, é lançado o Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre à Informação Científica com vários setores e órgãos do governo brasileiro entre os apoiadores da inicitiava (leia aqui e aqui).

Contudo, a sucessão de eventos desde a cópia dos milhares de artigos científicos até o processo judicial e o incremento da pena — resultando na absurda possibilidade de Aaron ser condenado a 35 anos de prisão mais multa — serve de alerta para a necessidade de nós mesmos repensarmos e revisarmos estrategicamente as recentes leis aprovadas no nosso Congresso Nacional sobre cibercrime, além da debilidade política e conceitual a que chegou o Marco Civil.

Nós não estamos distantes de absurdos como o caso de Aaron! Em terras tupiniquins outros absurdos já acontecem por causa do uso excessivo das leis de difamação e persistência das leis de desacato.

*Magaly Pazello é pesquisadora do Emerge — Centro de Pesquisa e Produção em Comunicação e Emergência da Universidade Federal Fluminense (UFF), sendo responsável pela área de pesquisa de governança na internet. É ciberativista e feminista.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Como o Google nos domina

"Anúncios no gmail mostram quanto o Google sabe sobre você"
Por James Gleick

O negócio do Google não é pesquisa, mas publicidade. Mais de 96 por cento de seus 29 bilhões de dólares em receita no ano passado vieram diretamente de publicidade, e a maior parte do resto veio de serviços relacionados a publicidade. O Google recebe mais com publicidade do que todos os jornais do país [Estados Unidos] juntos. Vale a pena entender como isso funciona. Levy relata o desenvolvimento dessa máquina de publicidade: uma “fantástica conquista na construção de uma máquina de fazer dinheiro através de truques virtuais (8), a partir da Internet.” Em The Googlization of Everything (and Why Should Worry), livro que pode ser lido como uma referência sóbria e admonitória, Siva Vaidhyanathan, um estudioso da mídia na Universidade da Virginia, coloca a questão da seguinte maneira: “Nós não somos clientes do Google: nós somos o seu produto. Nós, nossas fantasias, fetiches, predileções e preferências, somos o que o Google vende para os anunciantes.”

A evolução desta incomparável máquina de fazer dinheiro produziu uma rápida sequência de inovações brilhantes:

1. No início de 2000, o Google vendeu “premium sponsored links”: anúncios de texto simples associados a certos termos de pesquisa. Uma fornecedora de bolas de golfe poderia ter seu anúncio mostrado a todos que buscassem por “golfe” ou, melhor ainda, “bolas de golfe.” Outros mecanismos de busca na internet já faziam isso. Seguindo a tradição, eles cobravam de acordo com o número de pessoas que viam cada anúncio. Os anúncios eram vendidos para grandes clientes, um a um.

2. Mais tarde, naquele ano, engenheiros desenvolveram um sistema de auto-atendimento, chamado AdWords. O ponta-pé inicial foi: “Você tem em 5 minutos e um cartão de crédito? Obtenha seu anúncio no Google hoje”, e de repente milhares de pequenas empresas estavam comprando seus primeiros anúncios na internet.

3. A partir de uma outra iniciativa, que teve curta duração, chamada GoTo (até 2003 Google era sua proprietária) vieram duas novas ideias. Uma delas foi a cobrar por clique, ao invés de visualização. Pessoas que clicam em um anúncio de bolas de golfe são mais propensas a comprá-las do que aqueles que simplesmente vêem um anúncio no site do Google. A outra idéia era deixar os anunciantes darem lances uns contra os outros por palavras-chave – como “bola de golfe” – em rápidos leilões online. Leilões de pay-per-click [‘pague-por-clique’] abriram uma torneira de dinheiro. Um clique significava um anúncio bem sucedido, e alguns anunciantes estão dispostos a pagar mais por isso do que um vendedor humano poderia imaginar. Advogados especializados em compensações buscando clientes fariam lances tão altos quanto 50 dólares por um único clique na palavra-chave “mesotelioma”, uma forma rara de câncer causada pelo amianto.

4. O Google – monitorando sistematicamente o comportamento de seus usuários – tinha conhecimento instantâneo de quais anúncios eram bem sucedidos, e quais não. Era possível usar o click-through rate [‘proporção de cliques’] como uma medida de qualidade dos anúncios. E para determinar quem seriam os vencedores dos leilões, começou-se a considerar não apenas o dinheiro oferecido, mas o apelo do anúncio: um anúncio mais eficaz, recebendo muitos cliques, iria receber uma vantagem na disputa.
Agora, o Google tinha um sistema de ciclos lucrativos em ação, um feedback positivo por incentivar anunciantes a fazer anúncios publicitários mais eficazes (oferecendo dados para ajudá-los nessa tarefa), e por aumentar a satisfação dos usuários em clicar em anúncios, por evitar ruídos e spam. “O sistema reforçou a insistência do Google de que a publicidade não deveria ser uma transação entre um publicitário e um anunciante, mas uma relação de três vias que também incluía o usuário”, escreve Levy. No entanto, dificilmente esta é uma relação de igualdade. Vaidhyanathan vê aí uma relação de exploração: “A Googlização de tudo abrange a coleta, cópia, adição, e classificação de informações e contribuições feitas por cada um de nós.”
Em 2003, o AdWords Select estava servindo centenas de milhares de anunciantes e fazendo tanto dinheiro que o Google estava deliberadamente escondendo seu sucesso da imprensa e dos concorrentes. Mas este foi apenas o trampolim para o que estava por vir.

5. Até o momento, os anúncios eram exibidos em páginas de busca do Google, com tamanho discreto, com limites claros, no topo ou no lado direito das páginas. Agora, a empresa ampliou sua plataforma. O objetivo era desenvolver uma forma de inteligência artificial que poderia analisar pedaços de texto – websites, blogs, e-mail, livros – e combiná-los com palavras-chave. Com dois bilhões de páginas-web já indexadas, e com o seu sistema de rastreamento do comportamento de usuários, o Google tinha, na palma da mão, todas as informações necessárias para resolver este problema. Dado um site (ou um blog, ou um e-mail), ele poderia prever que anúncios seriam eficazes.

Esta era a “publicidade voltada ao conteúdo”, para usar o jargão. O Google chamou seu programa de AdSense. Para qualquer um que esperasse “rentabilizar” o seu conteúdo, ele era o Santo Graal. As maiores publicações digitais, tais como The New York Times, rapidamente aderiram ao AdSense, deixando o Google lidar com parcelas crescentes de seus contratos de publicidade. E assim o fizeram as menores publicações, aos milhões – fazendo crescer a “cauda longa” (9) de possíveis anunciantes até blogueiros individuais. Todos eles aderiram porque os anúncios eram extremamente produtivos e mensuráveis. “O Google conquistou o mundo da publicidade com nada mais do que matemática aplicada”, escreveu Chris Anderson, editor da Wired. “Ele não fingiu saber coisa alguma a respeito da cultura e das convenções da publicidade – apenas assumiu que dados melhores, com melhores ferramentas analíticas, iriam prevalecer. E o Google estava certo.” Jornais e outras mídias tradicionais têm reclamado de tempos em tempos sobre a apropriação do seu conteúdo, mas é através da absorção de publicidade mundial que o Google tornou-se seu concorrente mais destrutivo.

Como todas as formas de inteligência artificial, a publicidade voltada ao conteúdo produz erros e acertos. Levy cita um erro clássico: a sangrenta história publicada no site do New York Post – sobre um corpo que foi desmembrado e colocado em um saco de lixo – que foi acompanhada por um anúncio do Google sobre sacos de plástico. No entanto, agora qualquer um pode adicionar algumas linhas de código ao seu site, exibir automaticamente os anúncios do Google e começar a descontar cheques mensais, ainda que pequenos. Vastas extensões da Web que até agora estavam livres de publicidade tornaram-se parceiros do Google. Hoje, os anúncios do Google não estão apenas em sua página de busca, mas toda a Web e, além disso, em grandes volumes de e-mail e, potencialmente, em todos os livros do mundo.



Pesquisa e publicidade tornam-se assim os dois gumes de uma espada afiada. O motor de busca perfeito, como Sergey e Larry imaginam, lê sua mente e produz a resposta que você quer. O motor de publicidade perfeito faz o mesmo: mostra os anúncios que você deseja. Qualquer coisa além disso desperdiça sua atenção, o dinheiro do anunciante e a largura de banda da internet mundial. Sonha-se com uma publicidade virtuosa, unindo compradores e vendedores para o benefício de todos. Mas a publicidade virtuosa neste sentido é uma contradição em termos. O anunciante está pagando por uma fatia da nossa atenção, que é limitada: nossas mentes poderiam estar em outro lugar. Se os nossos interesses estivessem perfeitamente alinhados aos dos anunciantes, não seria necessário pagar. Não existe uma utopia da informação. Os usuários do Google são partes de uma transação complexa, e se há uma lição a ser tirada de todos esses livros é que nem sempre somos partes conscientes.

Os anúncios ao lado do seu e-mail (se você usa o serviço de e-mail gratuito do Google) podem servir como lembretes, às vezes surpreendentes, do quanto esta empresa sabe coisas que dizem respeito à sua vida privada. Mesmo sem o seu e-mail, seu histórico de pesquisa por si só já revela muita coisa, como diz Levy, “seus problemas de saúde, seus interesses comerciais, seus hobbies, e seus sonhos.” Sua resposta à publicidade revela ainda mais, e com seus programas de publicidade, o Google passou a rastrear o comportamento de usuários individuais de um site da Internet para outro. 

Eles observam cada um dos nossos cliques (onde possam) e medem quanto tempo levamos para tomar nossas decisões, em milisegundos. Se não fosse assim, os resultados não seriam tão assustadoramente eficazes. Eles não têm rival na profundidade e amplitude de sua mineração de dados. Eles fazem modelos estatísticos para tudo o que sabem, conectando pequenas e grandes escalas, desde o resultado de consultas e cliques, até informações relativas a moda, à estação, ao clima e a doenças.

É para seu próprio bem – esta é a crença que Google nutre. Se queremos os melhores resultados possíveis para nossas buscas, e se queremos anúncios adequados às nossas necessidades e desejos, temos que deixá-lo entrar em nossas almas.

Tradução de Pedro Germano Leal
* Este texto foi publicado originalmente como uma análise das seguintes publicações:
In the Plex: How Google Thinks, Works, and Shapes Our Lives
por Steven Levy
Simon and Schuster, 424 p.
I’m Feeling Lucky: The Confessions of Google Employee Number 59
por Douglas Edwards
Houghton Mifflin Harcourt, 416 p.
The Googlization of Everything (and Why We Should Worry)
por Siva Vaidhyanathan
University of California Press, 265 p.
Search & Destroy: Why You Can’t Trust Google Inc.
por Scott Cleland, com Ira Brodsky
Telescope, 329 p.
Notas da tradução:
(8) No original, “virtual smoke and mirrors”.
(9) No original, “long tail”. É uma configuração estatística na qual maior parte da população concentra-se na cauda de uma distribuição de probabilidade.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A dimensão política da doença, segundo Canguilhem


  

Saúde e doença

Depois de anos no ostracismo, a obra de um dos mais originais filósofos do século 20 começa a ser publicada de maneira integral. Para além do circuito restrito de especialistas em filosofia da biologia e da medicina, poucos conhecem Georges Canguilhem (1904-95).

Mas a publicação de suas "Obras Completas" tem a força de revelar um pensador original capaz de renovar problemas clássicos da filosofia, como a relação entre natureza e liberdade, bem como questionar ideias clínicas e médicas que pareciam independentes de toda e qualquer filosofia.

Numa era como a nossa, noções como saúde, doença e sofrimento psíquico têm também uma dimensão política. Não apenas porque servem para justificar modelos de intervenção social, mas porque expõem o que entendemos por uma vida bem-sucedida, com seus valores.

Não sofremos só por termos algum tipo de deficit ou excesso em relação a variáveis fisiológicas. Sofremos por não conseguirmos realizar valores e normas sociais que compreendemos como necessárias para nossa autorrealização.

Nesse sentido, o pensamento de Canguilhem é profícuo por fornecer uma visão renovada sobre o que significa saúde e doença. Normalmente, acreditamos que um organismo doente é mal adaptado, incapaz de se relacionar com seu meio. Ou seja, a saúde aparece como um modo de adaptação às determinações normativas do ambiente.

Versões de tal noção foram exaustivamente usadas por várias escolas de psicologia.

Canguilhem fornece uma ideia nova. Na verdade, um organismo doente é aquele completamente adaptado a seu meio. Por isso, ele não suporta nenhuma modificação, ele a vivencia necessariamente como catástrofe.

Na defesa de sua rigidez e fixidez, erguem-se fronteiras e limites que não podem, em momento algum, ser transpostos.

Já uma vida saudável é aquela não completamente adaptada, por isso, mais flexível e capaz de relacionar-se às mudanças. Ela é capaz de acolher o que ainda desconhece, produzindo novas normas e valores que, mostrando-se mais produtivas do que as anteriores, indicarão caminhos inesperados para o desenvolvimento.

Durante toda a sua obra, Canguilhem mostrou como tais ideias dizem muito a respeito de como compreendemos a razão, a racionalidade e seus limites. Ele nos abriu portas para uma reflexão diagnóstica sobre a vida social e seus desafios.

Por isso, nada mais justo do que voltar a lê-lo e descobrir como o seu pensamento influenciou alguns dos maiores pensadores do século 20, como Foucault, Lacan, Deleuze, entre outros.

Artigo do professor Vladimir Safatle, da Filosofia da USP. Publicado na Folha.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Teoria Geral da Relatividade, 95 anos






As deduções de Einstein ajudaram a abalar as ideias sobre o mundo que herdamos da modernidade. E oferecem pistas para repensar, hoje, tempo, ciência, sociedade e utopia


Em 20 de março de 1916, Albert Einstein publicou sua Teoria Geral da Relatividade. As ideias gerais nela contidas haviam sido apresentadas em novembro do ano anterior, na Academia Prussiana de Ciências, e ocupavam o físico desde 1907. Eram uma tentativa de colocar em diálogo sua Teoria Restrita da Relatividade (apresentada em 1905) e a física de Galileu e Newton, um dos fundamentos da ciência moderna. Mas abalavam as certezas anteriores (e ainda hoje predominantes, no senso comum) sobre tempo, espaço e movimento.

A imensa série de desdobramentos científicos e filosóficos da teoria de Einstein não cabe, evidentemente nestas linhas. Mas seu sentido geral é radicalizar a noção de que não há pontos de referência universais – nem, portanto, verdades únicas. Séculos antes, Galileu havia demonstrado que um mesmo fenômeno físico é visto de distintas maneiras, dependendo do ponto onde está o observador. Einstein acrescentou, a esta incerteza, muitas outras – relacionadas especialmente ao tempo. Também este, mostrou ele, dilata-se e se contrai. Não há um relógio universal, uma régua geral para todos os acontecimentos. Dois eventos que um observador vê como simultâneos podem não o ser para outro.

O interessante é que esta quebra de paradigmas científicos seria seguida, décadas mais tarde, por mudanças que sacudiram as noções sociais de tempo e a percepção sobre ostatus da ciência. Ao menos dois textos, disponíveis naBiblioteca Diplô, contribuem diretamente para este debate.

Em “O futuro do tempo”, Jérôme Deuvieau discute como a pós-modernidade dissolveu as réguas temporais mais importantes desde o Renascimento (as do trabalho) sem que nada tenha, ainda, ocupado seu lugar. Na Idade Média, considera ele, o tempo religioso dava sentido à vida. Mais tarde, este papel passou a ser exercido pelo labor, que cumpriu as três funções básicas antes preenchidas pela fé e seu serviço: a) Produzir vínculo social; b) Estabelecer laços entre atividade e "salvação"; c) Orientar o futuro, dando-lhe um sentido, agora secular.

Mas a deslegitimação do trabalho começa no século 19 e acelera-se no seguinte – por múltiplos fatores. Em países como a França, o tempo diretamente dedicado às atividades laborais cai de 70% da vida em vigília (em 1850) para 7% a 8%, hoje. As máquinas (o capital) encarregam-se de um conjunto crescente de atividades antes executadas por seres humanos. E as próprias aspirações dos indivíduos, na virada para o século 21, deslocam-se da acumulação de bens materiais para a "redescoberta de si".

O aspecto negativo destas transformações está, também ele, relacionado ao tempo e sua métrica. Os projetos anteriores de um "futuro melhor" por meio do trabalho coletivo perdem sentido – tanto os que apostavam nas supostas virtudes da disciplina capitalista quanto os que esperavam a coletivização da indústria. À falta de um futuro, busca-se desesperadamente o imediato: "o ser humano de hoje enxerga-se com direitos sobre o de amanhã, ameaçando o bem-estar, equilíbrio e às vezes a vida deste último".

A saída, imagina Deauvieau, está numa visão do futuro que substitua a velha ideia linear de tempo e "progresso" por outra, baseada na responsabilidade. Construir uma nova utopia é possível. Mas implica assumir posturas que já não se apoiam principalmente em nosso lugar na produção de riquezas – mas em nossa solidariedade com as gerações futuras, precaução com o planeta, preservação e multiplicação dos bens comuns.

A mudança de paradigma provocada pela Teoria da Relatividade suscita ainda outra linha de reflexão pouco convencional. Em "Outra ciência é possível", Jean-Marc Lévy-Leblond questiona uma das certezas que acompanham o Ocidente desde o Renascimento: o suposto caráter "neutro", "objetivo" e, portanto, "universal" do saber científico. É algo que resistiu, pensa ele, como um porto seguro no século 20. "Em um mundo no qual sistemas sociais, valores espirituais, formas estéticas vivem incessantes abalos, seria tranquilizador que a ciência oferecesse pelo menos um ponto fixo de referência, dentro do relativismo ambiente"...

Mas ao longo de seu texto, Leblond reúne elementos quecontestam esta falsa segurança. O que chamamos hoje de "ciência" diz ele, é uma das múltiplas formas possíveis de produção do saber. Seu método, desenvolvido a partir da Grécia e baseado na abstração e na prova, é de fato um avanço em relação, por exemplo, às formulações empíricas dos egípcios. Regride mais tarde, para ressugir no Renascimento (com grande contribuição islâmica), associado à mecanização, ao "domínio da natureza" e à produção de riquezas. Mas pode perfeitamente estar em declínio. O comando mercantil que lhe deu força em outros tempos restringe gravemente, hoje, a "possibilidade de pesquisas especultaivas, sem garantia de sucesso imediato".

Não há ampliação de horizontes sem abandono das antigas referências. Assim como a Teoria da Relatividade nos liberta da segurança ilusória de um "tempo único", deveríamos estar abertos, conclui Leblond, a "outras formas de ciência". Mas não poderemos fazê-lo sem o doloroso reconhecimento de que não temos as chaves do saber...


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Aristotélicas V

O conceito aristotélico de substância





  O termo substância é uma tradução da palavra latina substantia, que significa aquilo que está sob, que fundamenta. Substantia, por sua vez, é uma tradução latina do termo grego ousia que significa ‘o ser’. Substância é um termo de arte filosófico que, diferentemente de muitos outros (como verdade, significado, causa...) não tem equivalente apropriado na linguagem ordinária. Nessa última chamamos geralmente de substância o stoff constitutivo das coisas como o ferro, o carbono, o plástico, o óleo de linhaça... o qual é quimicamente definível em termos de combinações de átomos com propriedades específicas. A palavra ‘coisa’ tem um significado aproximado. Ela se refere geralmente a objetos materiais. Mas a substância não é o mesmo que o objeto material, que tem todas as suas propriedades à mostra. Ela é aquilo que fundamenta, que em algum sentido está sob (sub-stare) a coisa visível.

Qual é a razão original para a introdução do conceito de substância? A resposta é: para a explicação da mudança. Quando as coisas materiais mudam, mudam as suas propriedades. Um pedaço de cera, quando aquecido, deixa de ser sólido e opaco para tornar-se líquido e transparente. Nesse caso, por que dizemos que ele ainda é o mesmo? A resposta é: porque a sua substância permaneceu a mesma. Há dificuldades com essa resposta. Afinal, coisas como a massa e o peso do pedaço de cera também são propriedades, que no caso permaneceram as mesmas. No que se segue quero historiar brevemente a evolução do conceito de substância na filosofia, propondo no final que ele seja explicado em termos de conceitos físicos fundamentais.

 O conceito aristotélico de substância

Aristóteles sugeriu vários conceitos de substância. Eles são supostamente complementares, mas ele não explicou suficientemente as relações entre eles. Podemos classificar os principais dentre esses conceitos como sendo 1) aquilo que não é predicável; 2) aquilo que existe independentemente; 3) aquilo que permanece através da mudança; 4) a união da matéria e da forma essencial.
 A definição de substância como aquilo que não é predicável é a seguinte:

Aquilo que é chamado de substância mais estritamente, primariamente e acima de tudo, é aquilo que nem é dito de um sujeito nem em um sujeito, por exemplo, o homem individual ou o cavalo individual(1).

Aristóteles propõe aqui critérios lingüísticos: a substância é aquilo que não pode ser designado por um predicado como pertencendo a um sujeito ou estando nele, dando como exemplos de substâncias particulares concretos como este homem e aquele cavalo. Apesar de interessante, essa sugestão é ontologicamente insatisfatória, pois não chega a dizer o que a substância é.

Na segunda definição, a substância é concebida por Aristóteles como aquilo que existe independentemente. Enquanto uma propriedade depende da substância para existir, a substância não depende da propriedade para existir. Se as substâncias primárias não existissem seria impossível para qualquer das outras coisas existir(2). Isso vale mesmo para o que ele chama de substâncias segundas, que são predicados distinguindo os tipos de coisa que são substâncias, como ‘...é um homem’, ‘...é um cavalo’. Sendo assim resta a pergunta: o que é aquilo que existe independentemente?

Vejamos agora a concepção de substância como aquilo que permanece através da mudança:

O distintivo da substância é que ela é numericamente uma e a mesma e que é capaz de receber contrários. Em nenhum outro caso podemos ter algo numericamente único, que seja capaz de receber contrários.(3)

Além da dificuldade colocada no início, essa definição trás consigo uma outra, levantada pelo próprio Aristóteles, qual seja: a de que há outras coisas que não são substâncias e que podem sofrer mudanças. Uma crença, por exemplo, pode deixar de ser considerada verdadeira para ser considerada falsa. A resposta de Aristóteles é que a mudança da crença é extrínseca a ela, enquanto a mudança na substância ocorre nela mesma; em outras palavras, só substâncias sofrem mudanças intrínsecas. Mas que dizer de uma superfície que muda a sua forma? Não é essa uma mudança intrínseca? Contudo, ninguém diria que a superfície é substancial.

A quarta e mais sofisticada definição é a que aparece na Metafísica. Nesse texto, após rejeitar a idéia de que a substância seja apenas a matéria (o substrato), posto que isso não daria conta da separabilidade e individualidade da substância, ele conclui que

A forma e o composto de matéria e forma parecem ser mais substância do que a matéria(4).

A substância é, pois, a forma individuadora da matéria(5). Contudo, à parte a dificuldade de que formas são universais, enquanto a substância é um particular, o que seria essa forma substancial? Os melhores candidatos seriam espécies como ‘homem’ e ‘cavalo’, dificilmente distinguíveis do que Aristóteles chamava de substâncias segundas (designata de nomes substantivais), que são categorias predicáveis da substância primeira, da substância em sentido próprio. Além disso, espécies são constituídas de propriedades, as quais são também universais.
A última sugestão de Aristóteles é tão mais refinada quanto controversa.

Fonte: C. F. Costa – PPGFil/UFRN

Bibliografia para consulta:
1 Aristóteles: Categorias, sec. 5.
2 Aristóteles: Categorias, sec. 5.
3 Aristóteles: Categorias, sec. 5.
4 Aristóteles: Metafísica, VII, sec. 3.
5 Howard Robinson: “Substance”, in Stanford Encyclopedia of Philosophy (internet 2004), p. 5.

domingo, 20 de novembro de 2011

Não seja ‘evil’; mas, quem é mesmo malvado?



James Gleick, no New York Review of Books


O lema corporativo Google é ”não seja malvado”. Simples como isso é, requer uma análise.

Ele foi apresentado pela primeira vez em 2001 por um engenheiro, Paul Buchheit, numa sessão de discussão sobre valores corporativos. “As pessoas riram”, lembrou. “Mas eu disse, ‘É pra valer.’” (Naquela época, o boom do mundo da tecnologia tinha seus ‘esqueletos no armário’, e muitos Googlers entenderam “não seja malvado” explicitamente no sentido de “não sejam como a Microsoft “, ou seja, não ser um monopolista implacável e cruel).

Muitas vezes o slogan é citado em uma forma mais contundente: “Não faça o mal.” Mas este seria um princípio mais difícil de cumprir.

Agora eles podem ser zombados por conta slogan, mas os Googlers estavam sendo sinceros. Eles acreditavam que uma empresa deveria se comportar eticamente, como uma pessoa. Eles refletiam e debatiam entusiasticamente sobre seus valores. À primeira vista, “Não seja malvado” era um compromisso melhor do que alguns dos outros concorrentes: “o Google vai se esforçar para honrar todos os compromissos” ou “jogue duro, mas mantenha as travas [da chuteira] para baixo.”

“Não seja malvado” não significa necessariamente “ter transparência”. Nenhum dos livros apresentados aqui pode dizer quantas buscas o Google realiza, a quantidade de eletricidade que consome, a exata capacidade de armazenamento que possui, quantas ruas ele fotografou, quantos e-mails ele armazena; e nem adianta você fazer uma busca no Google por essas informações, porque Google valoriza a própria privacidade.

Também não tem que significar “obedecer todas as leis.” Quando o Google embarcou em seu programa de digitalizar livros com direitos autorais e copiá-los para seus servidores, ele agiu por baixo do pano, enganando editores com os quais estava desenvolvendo relações comerciais. O Google sabia que essas cópias beiravam a ilegalidade. Considerou suas intenções honrosas e a lei ultrapassada. “Eu acho que nós sabíamos que haveria um monte de questões interessantes”, Levy cita uma fala de Page, “e a maneira como as leis são estruturadas não é exatamente sensata”.

Quem, então, julga o que é o malvado? “Malvado é o que Sergey diz que é malvado”, explicou Eric Schmidt, o executivo-chefe, em 2002.

Quanto a Sergey: “Eu sinto que não devo impor minhas crenças sobre o mundo. É uma prática de má tecnologia.” Mas os fundadores parecem confiar bastante em seu próprio senso de justiça. (“‘Bastardos!’ Larry teria exclamado quando um blogger levantou dúvidas sobre a privacidade dos usuários [do Google]“, lembra Edwards.”Bastardos!’ Eles é o que diriam sobre a imprensa, os políticos, ou os usuários confusos que não são capazes de compreender a superioridade óbvia da tecnologia por trás dos produtos do Google.”)

Google fez algum mal na China. Ele colaborou com a censura. Começando em 2004, ele deu um jeito de torcer seus algoritmos e filtrar seus resultados de modo que o Google em chinês omitiria resultados indesejáveis ​​para o governo. No exemplo mais notório, uma busca por “Praça Tiananmen” [Praça da Paz Celestial] iria resultar em guias de turismo, e não em aulas de história. O Google descobriu o que censurar verificando o mecanismo de busca Baidu, aprovado pela China, e, aceitando orientações complementares do governo.

No entanto, também é verdade que o Google procurou resistir ao governo chinês tanto quanto qualquer outra empresa americana. Quando os resultados foram bloqueados, o Google insistiu em alertar seus usuários com um aviso na parte inferior da página de pesquisa. No fim das contas, o Google claramente acreditava (e eu acho que estava certo, apesar do óbvio interesse próprio) que a sua presença beneficiou o povo da China, aumentando o fluxo de informações e deixando clara a violação da transparência. A aventura teve uma reviravolta em janeiro de 2010, depois que um grupo de hackers, talvez com o envolvimento do governo, violou os servidores do Google e teve acesso às contas de e-mail de ativistas de direitos humanos. A companhia fechou o Google.cn e agora serve a China a partir de Hong Kong, com resultados censurados não pelo Google, mas pelos filtros do governo.

Assim o Google é malvado? A questão está aí pra quem quiser ver; e ela incomoda, mesmo se alegremente confiamos nos serviços desta empresa – que agora oferece, além dos resultados de busca, mapas, traduções, imagens de rua, calendários, vídeos, dados financeiros, e indicações de bens e serviços. A crítica mais contundente contra o Google está disponível no livro Search & Destroy, escrito por Scott Cleland, um auto-intitulado “crítico do Google”. Ele é agressivo – o livro poderia muito bem ter sido intitulado Google: Intimidação ou Ameaça? “Há evidências de que o Google não é só cãezinhos meigos e arco-íris”, ele escreve.

O mascote corporativo do Google é a réplica de um esqueleto de Tyrannosaurus Rex, em exposição do lado de fora da sede da empresa. Com sua mandíbula e dentes poderosos, o tiranossauro era um predador terrível. E dê uma olhada na poltrona que fica no escritório do presidente do Google, Eric Schmidt – retirada de um bombardeiro B-52. O B-52 era um bombardeiro de longo alcance projetado para lançar armas nucleares.

Levy é mais comedido: “Google professou um senso de pureza moral… mas parecia incapaz de perceber as conseqüências de sua própria tecnologia nos direitos de privacidade e de propriedade.” Pesadas todas as evidências, os fundadores do Google adotaram uma visão ética incomum, para uma empresa também incomum. Eles acreditam que a informação – “universalmente acessível” – é uma virtude em si mesma. Eles criaram e lideraram equipes de técnicos responsáveis ​​por uma década de ouro de verdadeira inovação. Eles são visionários em uma época em que a esta palavra se vulgarizou. Talvez, agora eles estejam pouco dispostos a submeterem-se aos padrões éticos de outras pessoas, mas isso pode ser apenas uma questão de personalidade. É bom lembrar que uma corporação moderna é uma criatura amoral por definição, subserviente a seus acionista, e não ao interesse público.

A Federal Trade Commission [Comissão Federal de Comércio] expediu uma série de intimações em junho, como parte de uma investigação antitruste contra os sistemas de busca e publicidade do Google; a Comissão Europeia começou uma investigação semelhante no ano passado. Os governos estão reagindo, em parte, às queixas organizadas de concorrentes do Google, incluindo Microsoft, que afirmam, entre outras coisas, que a empresa manipula seus resultados de busca para favorecer seus amigos e punir seus inimigos. A empresa sempre negou isso. Certamente os reguladores estão preocupados com esse “domínio” – o Google parece estar em toda parte, parece saber tudo, e age contra noções de privacidade já bem arraigadas.

A ascensão das redes sociais equilibra novamente esta equação. Os usuários do Facebook escolhem revelar – e até alardear – aspectos de suas vidas privadas, para pelo menos parte do mundo público. Quais os aspectos, e que parte? No Facebook, as opções de usuário são notoriamente obscuras e sujeitas a mudanças, mas a maioria dos usuários compartilha suas informações com “amigos” (palavra que, usada neste contexto, parece ter sido seqüestrada e empalhada). No Twitter, cada enunciado pode ser visto por todo mundo, exceto no caso das chamadas “mensagem direta”, que o ex-deputado Anthony Weiner tentou e não conseguiu utilizar. Além disso, a Biblioteca do Congresso Americano está arquivando todos os tweets do mundo, talvez para serem eternizados: um fato que deve entrar na preocupar os adolescentes, ou senão, os membros do Congresso.

Agora, o Google está implementando sua segunda experiência em plataformas de rede-social, o Google+. A primeira tentativa ocorreu 18 meses atrás com o Google Buzz – um tropeço incomum para a empresa. Por padrão, ele revelou listas de contatos com os quais os usuários vinham trocado mensagens instantâneas ou e-mails. Os defensores da privacidade soaram um alarme e a Federal Trade Commission iniciou uma investigação, chegando rapidamente a uma solução em que o Google concordou em se submeter com regularidade a auditorias de privacidade pelos próximos 20 anos. O Google+ dá aos usuários um controle mais preciso sobre o que é compartilhado com quem. Ainda assim, de um jeito ou de outro, tudo é compartilhado com a empresa. Todas as redes sociais têm acesso a nossa informação e pretendem usá-la. Elas são nossas amigas?

Uma coisa é clara: nós temos que decidir o que queremos do Google (como se pudéssemos determinar nosso consciente coletivo). E mesmo depois disso, ainda poderemos não conseguir o que desejamos.

O Google sempre diz que os usuários podem desabilitar muitas de suas formas de coleta de dados, o que é verdade – até certo ponto – para usuários que sabem usar bem o computador; além disso, a empresa fala de privacidade como se fosse uma moeda de troca [um trade-off], mas Vaidhyanathan rejeita esta ideia:

Privacidade não é algo que pode ser contado, dividido, ou “negociado”. Não é uma substância ou conjunto de dados. É apenas uma palavra que usamos desajeitadamente para expressar uma grande variedade de valores e práticas que influenciam o modo como administramos nossa reputação em diferentes contextos. Não existe uma fórmula para avaliar “privacidade”: eu não posso dar ao Google três pontos da minha privacidade em troca de um serviço de 10 por cento melhor.

Isso me parece correto se levarmos em conta ainda que “privacidade” envolve não apenas administrar a nossa reputação, mas proteger a nossa vida privada – que podemos não querer compartilhar. Em todo caso, continuamos a fazer precisamente o tipo de negociação que Vaidhyanathan diz ser impossível [usando a privacidade como moeda de troca]. Queremos ser tratados como indivíduos ou como os neurônios no cérebro do mundo? Obtemos melhores resultados de pesquisa e vemos anúncios publicitários mais adequados quando deixamos que o Google saiba quem nós somos. E ainda economizamos alguns toques no teclado.

* Este texto foi publicado originalmente como uma análise das seguintes publicações:

In the Plex: How Google Thinks, Works, and Shapes Our Lives por Steven Levy
Simon and Schuster, 424 p.

I’m Feeling Lucky: The Confessions of Google Employee Number 59 por Douglas Edwards
Houghton Mifflin Harcourt, 416 p.

The Googlization of Everything (and Why We Should Worry) por Siva Vaidhyanathan
University of California Press, 265 p.

Search & Destroy: Why You Can’t Trust Google Inc. por Scott Cleland, com Ira Brodsky
Telescope, 329 p.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ciência & Sociedade: o debate sobre velocidade do conhecimento

E quando a ciência não tiver respostas  prontas?
Durante simpósio Brasíl-Índia sobre divulgação científica, professor da USP sugere debate do curioso manifesto “Slow Science”

Por Daniela Frabasile

Passou despercebido nos jornais diários, mas merece atenção um evento realizada na USP, na semana passada: o Simpósio Brasil-Índia sobre Divulgação Científica (vejaprograma). Expressão dos novos laços que começam a unir os países do Sul diretamente, sem intermediação da Europa e Estados Unidos, ele pretendeu “discutir, construir e consolidar uma rede acadêmica nos campos da ciência, tecnologia e cultura, para a compreensão geral da sociedade).

Na extensa grade de atividades, destacaram-se falas como a de Marcos Barbosa de Oliveira, professor da Faculdade de Educação, que discorreu sobre a responsabilidade social da ciência – e destacou, entre outros pontos, a aparição do movimento Slow Science. Seu manifesto fundador pode ser encontrado aqui.

Nos últimos anos, alertou Barbosa, avançou, por um lado a mercantilização da ciência. As pesquisas com aplicações rentáveis encontram farto financiamento, enquanto outras – indispensáveis para fins sociais ou para a própria expansão do conhecimento – são desaceleradas por falta de recursos. Pouco importam, nessa lógica, os impactos dos trabalhos na sociedade, saúde pública ou ambiente.

Até há pouco, considerava-se natural esta primazia do mercado. Mas a crise financeira deixou claro que a lógica mercantil não é eficiente sequer organizar a economia. Se nem na organização do capital o mercado é o mais eficiente, é preciso refletir sobre se a ciência deveria ser regulada por esse mesmo mecanismo.

Para Marcos Barbosa de Oliveira, houve, ao longo da história da ciência, altos e baixos na preocupação com a responsabilidade social. O professor acredita que hoje passamos por uma revitalização da responsabilidade social na ciência, nas pesquisas, nas teses e nos trabalhos.

Outro obstáculo a ser vencido, segundo Barbosa, é a expansão da proteção à propriedade intelectual. Também está ligada ao acúmulo de capital: ao patenteardescobertas, grandes corporações querem ter acesso exclusivo a certos conhecimentos, e explorá-los comercialmente. Mas, para para o professor, é uma tenência contrária à tradição de tornar a ciência disponível a todos – e permitir que muitos participem de seu desenvolvimento.

Vale ler (em inglês) o manifesto do Slow Science. Breve e elegante, ele não se refere diretamente à mercantilização da ciência. Mas fustiga a acomodação, a crença num conhecimento mágico que resolva, como ensinamento divino, problemas que cabe às sociedades, coletivamente, enfrentar. Num de seus trechos, ele frisa: “Precisamos de tempo para pensar. Precisamos de tempo para processar. Precisamos de tempo para nos desentenderemos uns aos outros, especialmente ao estimular o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não podemos dizer-lhe incessantemente o que nossa ciência significa; para quê ela será útil: porque simplesmente não sabemos. A Ciência precisa de tempo”.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Notas de leituras do Senhor C.

A crítica de Merleau-Ponty às teorias reflexológicas do comportamento.




1) CRÍTICA AO MECANICISMO DAS TEORIAS DO REFLEXO:
Basicamente, a teoria mecanicista se sustentaria no argumento da relação causa-efeito simples como explicativa para as respostas orgânicas. O corpo se comportaria como o elemento passivo, reagindo a todo estímulo externo como se estes fossem a causa, no sentido empirista de serem um antecedente constante e incondicionado. O corpo seria uma máquina, cujo mecanismo relacional, por excelência, consituir-se-ia numa estrutura padrão de resposta à estímulos externos.
Um dos argumentos da crítica a esta teoria, é dada pela própria superação que a fisiologia moderna alcança na explicação de fenômenos relacionais do organismo humano e que extrapolam o mero mecanicismo presente na explicação estímulo-resposta, dependende de uma localização espacial precisa – o estímulo age num local determinado – e este lugar decide a reação obtida. O autor mencionas vários estudos, levados a cabo por fisiologistas, em que as reações estímulo-resposta fogem a esta explicação, ora apresentando possibilidades de respostas variáveis para um mesmo estímulo – o que é um contrasenso, à luz da teoria – ora apresentando a mesma resposta, mesmo na ausência ou dano físico à estrutura anatômica.

2) CRÍTICA AO ATOMISMO OU O ELEMENTARISMO DAS TEORIAS DO REFLEXO
Esta teoria supõe como necessário que cada receptor esteja ligado por conexões pre-estabelecidas a todos os dispositivos motores cujo exercício pode comandar. A própria observação fisiológica já mostra, contudo, que a mesma resposta motora pode ser desencadeada em diferentes pontos do organismo; além disso, verifica existirem muito mais vias aferentes do que eferentes. Ou seja, fica difícil não interrogar os limites de um elementarismo que supõe existirem vias privadas, isto é, cada resposta seria referida a um conjunto específico de estímulo e estrutura reflexa. Por esta teoria, reações mais complexas observadas somente seriam aceitas por esta teoria como paradoxais ou estranhas, ou simplesmente refutadas como inexplicáveis.
Ademais, explicar o comportamento por esta teoria significaria a necessidade de decomposição das ações complexas em seus elementos simples. Deste modo, um aparente simples ato de “abanar as orelhas” deveria ser decomposto em tantos círculos nervosos de ações simples até a obtenção de suas circunstâncias elementares, nunca observáveis isoladamente, mas apenas supostas. E aí, como água e alcóol adicionados num composto estimulante, não podem ter depreendidos seus efeitos com base na água pura ou no alcóol puro; da mesma forma que ambos combinados não podem exercer nos receptores uma ação diferente da de cada componente quando isolado.
Dessa maneira, não se pode procurar no excitante externo a causa ou explicação para o comportamento, mas no organismo: é nele que devemos procurar o que faz de um estímulo que produz uma ação complexa, algo que é mais que a soma de seus componentes.
Outro argumento – decorrente da observação de uma mesma reação provocada a partir de diferentes sítios anatômicos, não poderiam significar modos variados de funcionamento de um mesmo sistema nervoso ao invés de apenas a vários substratos privados do circulo estímulo-resposta, interrroga ele.

3) CRITICA À TEORIA DAS LOCALIZAÇÕES NERVOSAS
Segundo esta teoria, o organismo é passivo, pois se limita a executar o que lhe é prescrito pelo lugar onde ocorre a excitação e pelos círculos nervosos que nele têm sua origem. Assim, se nosso olhar percorre embevecido o percurso de um ponto luminoso numa sala escura, isso se deve a pura reação mecânica de um círculo nervoso de ação dos músculos da cabeça e pescoço, a partir da reação sensorial das células da retina ao estímulo luminoso externo.
Esta noção mecânica de reação reflexa eliminaria toda noção de intencionalidade, valor ou utilidade, reputando-os como subjetivos. O comportamento parece intencional, mas não passaria de um agir regrado por trajetos nervosos pré-estabelecidos para a obtenção de satisfação. A atividade normal de um organismo, seria, segundo esta teoria, apenas o funcionamento de um sistema montado pela natureza, de modo que não existiriam normas, mas apenas efeitos, isto é, conseqüências reacionais.

4) RELAÇÃO E CONSEQUÊNCIAS DAS TRÊS CRÍTICAS PARA UMA CONCEPÇÃO DO COMPORTAMENTO COMO OBJETO DA INVESTIGAÇÃO PSICOLÓGICA
Segundo o próprio autor enuncia: “se a ordem do reflexo – quer dizer, a adaptação da resposta ao estímulo e a coordenação dos movimentos parciais ao gesto total – é garantida pelas conexões preestabelecidas desde a superfície sensível até os músculos efetores, a concepção clássica coloca em primeiro plano a togografia; o lugar da excitação deve decidir quanto à reação; o estímulo deve agir por suas propriedades que podem modificar os elementos anatômicos considerados um a um; o circuito nervoso deve ser isolado, já que, se não fosse guiado desta maneira, o reflexo não poderia ser adpatado ao estímulo como de fato o é” (p. 10).
Pelo texto, extraímos a vinculação apontada entre as três teorias – mecanicista, atomista e localista - isto é, em seu conjunto as três enunciam uma primazia topográfica e, portanto, estrutural para a compreensão e explicação dos fenômenos da ação humana. No decorrer de suas críticas – em que vai reunindo e perfilando um conjunto de menções a estudos e investigações realizadas – Merleau-Ponty aponta os diversos limites e insuficiências destas teorias reunidas para a efetiva compreensão do comportamento, aduzindo que, embora não se possa fugir ao fato de que há uma 'estrutura' envolvida no comportamento, é necessário incluir outros elementos intervenientes – que as teorias mencionadas simplesmente eliminam ou desconsideram – e que dizem respeito ao meio, às relações homem-meio, e as questões ou valores reputados como subjetivos (portanto, indesejáveis àquelas teorias) que são a intencionalidade, o valor, a utilidade.
Como aponta ao dizer que “antes de toda interpretação sistemática, a descrição dos fatos conhecidos mostra que o destino de toda excitação é determinado por sua relação com o conjunto do estado orgânico e com as excitações simultâneas ou precedentes, e que entre o organismo e seu meio as relações não são de causalidade linear, mas de causalidade circular” (p. 17).
Talvez um dos seus argumentos mais contundentes para a crítica a estas teorias do reflexo seja apontada no fato de que, como diz, o homem, assim como o animal, reaje de mais de uma maneira, reaje de maneira adaptada ao espaço – o que já abre uma linha enorme de insuficiência para a teoria do arco reflexo – e, ainda por cima, reaje ao espaço mesmo na ausência de estímulos, atuais ou antecedentes, que sejam adequados. Esta possibilidade que, por sua vez, remete à existência de um centro superior de comando – existente nos sistemas nervosos das espécies animais superiores como o homem – ainda assim está além da mera solução fisiológica entre 'automatismos' e 'coordenação cerebral' e mesmo a suposição de uma relação de controle-inibição entres eles. É uma função, uma atividade que está além, não está explicada. O que abre espaço para uma investigação psicológica do comportamento humano.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

MERLEAU-PONTY, M. A estrutura do comportamento. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2006. Cap. 1, p. 5-46.



segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Contra o coro dos contentes a Steve Jobs

O Lírio Verde reproduz matéria do Náufrago da Utopia, e se coloca solidário contra a avassaladora elegia a Steve Jobs:

"Steve Jobs morreu, após anos lutando contra um câncer que nem mesmo todos os bilhões que ele acumulou foram capazes de conter. Desde (...) o anúncio de seu falecimento, não se fala em outra coisa. Panegíricos de toda sorte circulam pelos meios massivos e pós-massivos. Adulado em vida por sua genialidade, é alçado ao status de ídolo maior da era digital. É inegável que Jobs foi um grande designer, cujas sacadas levaram sua empresa ao topo do mundo. Mas há outros aspectos a explorar e sobre os quais pensar neste momento de sua morte.
Jobs era o inimigo número um da colaboração, o aspecto político e econômico mais importante da revolução digital. Nesse sentido, não era um revolucionário, mas um contra-revolucionário. O melhor deles.


Com suas traquitanas maravilhosas, trabalhou pelo cercamento do conhecimento livre. Jamais acreditou na partilha. O que ficou particularmente evidente após seu retorno à Apple, em 1997. Acreditava que para fazer grandes inventos era necessário reunir os melhores, em uma sala, e dela sair com o produto perfeito, aquele que mobilizaria o desejo de adultos e crianças em todo o planeta, os quais formam filas para ter um novo Apple a cada lançamento anual.




A questão central, no entanto, é que o design delicioso de seus produtos é apenas a isca para a construção de um mundo controlado de aplicativos e micro-pagamentos que reduz a imensa conversação global de todos para todos em um sala fechada de vendas orientadas.




...A distopia jobiana é a do homem egoísta, circundado de aparelhos perfeitos, em uma troca limpa e 'aparentemente residual', mediada por apenas uma única empresa: a sua. Por isso, devemos nos perguntar: era isso que queríamos? É isso que queremos para o nosso mundo?"

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Chauínianas

Sobre Universidades: carreira, produção científica e 'espírito' acadêmico:


“Para muitos de nós [professores universitários] que não aderimos à mística modernizadora, parece incompreensível a atitude daqueles colegas que se deixam empolgar pela contagem de horas-aula, dos créditos, dos prazos rígidos para conclusão de pesquisas, pela obrigatoriedade de subir todos os degraus da carreira (que são graus burocraticamente definidos), do dever da presença física nos campi (para demonstrar prestação de serviço), pela confiança nos critérios quantitativos para exprimir realidades qualitativas, pela corrida aos postos e aos cargos. Para muitos, a adesão ao “moderno” aparece como abdicação do espírito de cultura. Não é bem verdade.

Aqueles que aderiram ao mito da modernização simplesmente interiorizaram as vigas mestras da ideologia burguesa: do lado objetivo, a aceitação da cultura pelo viés da razão instrumental, como construção de modelos teóricos para aplicações práticas imediatas; do lado subjetivo, a crença na “salvação pelas obras”, isto é, a admissão de que o rendimento, a produtividade, o cumprimento dos prazos e créditos, o respeito ao livro de ponto, a vigilância sobre os “relapsos”, o crescimento do volume de publicações (ainda que sempre sobre o mesmo tema, nunca aprofundado porque apenas reescrito), são provas de honestidade moral e seriedade intelectual.


Para boa parte dos professores, além do benefício dos financiamentos e convênios, a modernização significa que, enfim, a universidade se tornou útil e, portanto, justificável. Realiza a idéia contemporânea da racionalidade (administrativa) e alberga trabalhadores honestos. Em que pese a visão mesquinha da cultura aí implicada, a morte da arte de ensinar e do prazer de pensar, esses professores se sentem enaltecidos pela consciência do dever cumprido, ainda que estúpido. Evidentemente, não entram aqui os casos de pura e simples má-fé – isto é, dos colegas que usam a universidade não tanto para ocultar sua incompetência, mas para vigiar e punir os que ousam pensar.”

(Marilena Chauí, Escritos sobre universidade, Ed. Unesp – texto original de 1980, p. 63).


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Prêmio Ig Nobel 2011

'Nobel maluco' premia os 7 profetas do Apocalipse
Ig Nobel de Matemática vai para quem previu o fim do mundo sem sucesso

Cerimônia em Harvard também celebrou grupo que criou alarme à base de raiz-forte e estudo sobre besouro assanhado
Folha de S. Paulo
RAFAEL GARCIA
DE WASHINGTON

O maior antiprêmio da ciência, o Ig Nobel, corrigiu uma injustiça histórica contra os numerólogos do Apocalipse ao listar entre os vencedores deste ano profetas que falharam em prever o fim do mundo por oito vezes.

Os vencedores de 2011 do diploma humorístico concedido todo ano a pesquisas que "primeiro fazem rir e depois fazem pensar" foram anunciados ontem em sua tradicional cerimônia na Universidade Harvard (EUA).

Nomes dos líderes espirituais americanos Pat Robertson, Dorothy Martin, Elizabeth Clare e Harold Camping foram citados com os do coreano Lee Jang Rim, do japonês Shoko Asahara e da ugandense Credonia Mwerinde.

Eles erraram a data do Apocalipse em 1954, 1982, 1990, 1992, 1994, 1997, 1999 e 2011. Ganharam na categoria Matemática por "ensinar o mundo a ter cuidado ao elaborar hipóteses e fazer cálculos".

Os profetas estavam entre os poucos vencedores que não compareceram à cerimônia de entrega. Cientistas que ganharam a láurea em em sete das dez categorias levaram a piada na esportiva e foram a Harvard para a festa.

HORA DO XIXI
Um deles foi Mirjam Tuk, da Universidade de Twente (Holanda), ganhadora em Medicina. A pesquisadora assinou um estudo mostrando como a vontade de urinar altera a capacidade de tomada de decisão das pessoas -em alguns casos, para melhor. "Mostramos que um alto grau de controle da bexiga está associado a uma maior habilidade para resistir a tentações imediatas em gerenciamento monetário", diz o estudo.

Mas um dos prêmios aclamados pelo público com maior efusão neste ano, o Ig Nobel da Paz, não foi entregue em mãos. O vencedor foi Arturas Zuokas, prefeito da cidade lituana de Vilnius, que aparece em vídeo no YouTube dirigindo um tanque de guerra e esmagando carros de luxo em vagas proibidas.

O site de vídeos, aliás, fechou pela primeira vez uma parceria com a revista "Annals of Improbable Research", organizadora do Ig Nobel, e transmitiu a cerimônia de premiação ao vivo.

O evento deste ano teve a química como tema central e foi marcado pela apresentação da ópera nerd "O Químico no Café". Rich Roberts, prêmio Nobel (não "Ig") de Medicina em 1993, entoou a canção "Os Elementos", recitando melodicamente toda a Tabela Periódica.

Outros quatro vencedores do Nobel de verdade compareceram à cerimônia para entregar os diplomas.

Também muito aplaudido foi o ganhador do prêmio de Química deste ano. Makoto Imai e seus colegas da Universidade de Ciências Médicas de Shiga mediram a quantidade exata de gotículas de wasabi (a raiz-forte usada para temperar sushi) necessária para acordar uma pessoa.
Imai patenteou seu "alarme de wasabi". Numa emergência como um incêndio, em vez de usar uma sirene, o dispositivo borrifa raiz-forte no ar e provoca irritação no nariz, despertando a todos.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Hegelianas III



No entanto, é justamente pelo fato de ser certeza que padece de plenitude e que se deleita com o todo do objeto que tem diante de si, que é uma certeza pobre e abstrata. Do objeto, a certeza sensível só pode dizer que ele é. Tanto ela, a certeza sensível, que é apenas a consciência na forma do puro Eu, como o objeto, que não ultrapassa o fato de estar tomado como o ser da coisa. Ou seja, este Eu está ali como puro este; o objeto da certeza sensível, como puro isto. Isto ocorre porque Eu, ou o puro este, ali estou diante do objeto sem qualquer movimentação do pensamento; da mesma forma, o isto, o puro objeto da sensação, ali reside sem que esteja como um multiforme em relação com outros, ou conforme uma multidão de características diversas, sem que seja um rico relacionamento em si mesmo.


Comentários do Senhor C.:

- Pobre certeza, sofre de sensibilidade. Embrigada de si mesma, vê-se imersa na plenitude do que contempla e apreende diante de si. O seu tudo, o seu todo, o Ser, é o que lhe basta. Uma imensidão singular perdida de seu contexto, ou melhor, seus contextos.



segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Aristotélicas V

Ainda a noção de substância





"A quarta e mais sofisticada definição é a que aparece na Metafísica. Nesse texto, após rejeitar a idéia de que a substância seja apenas a matéria (o substrato), posto que isso não daria conta da separabilidade e individualidade da substância, ele conclui que






A forma e o composto de matéria e forma parecem ser mais substância do que a matéria(4).






A substância é, pois, a forma individuadora da matéria(5). Contudo, à parte a dificuldade de que formas são universais, enquanto a substância é um particular, o que seria essa forma substancial? Os melhores candidatos seriam espécies como ‘homem’ e ‘cavalo’, dificilmente distinguíveis do que Aristóteles chamava de substâncias segundas (designata de nomes substantivais), que são categorias predicáveis da substância primeira, da substância em sentido próprio. Além disso, espécies são constituídas de propriedades, as quais são também universais. A última sugestão de Aristóteles é tão mais refinada quanto controversa."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Invertendo o fluxo

por Vladimir Safatle

Foi a partir dos anos 1930 que as universidades americanas começaram sua ascensão em direção ao topo do mundo.
Até então, os EUA tinham boas universidades, mas sua influência era limitada.

A vinda maciça de pesquisadores, cientistas e acadêmicos renomados de países europeus foi um elemento decisivo na modificação de tal realidade. Fugindo das condições políticas e econômicas adversas na Europa, tal massa de acadêmicos reconfigurou a vida universitária americana, deixando traços visíveis até hoje.

Se o Brasil tiver senso de oportunidade, algo parecido poderá ocorrer entre nós. Devido à crise econômica e social, não são poucos os acadêmicos europeus ou jovens doutores de talento que gostariam de imigrar para um país onde se pode desenvolver pesquisas sem temer o próximo corte orçamentário.

Professores brasileiros que viajam constantemente para conferências internacionais ouvem, com cada vez mais insistência, o desejo de seus colegas estrangeiros em conhecer melhor as condições de trabalho no Brasil. Eles sabem que o país quer desempenhar um papel mais relevante no cenário global e que, para tanto, precisaremos investir em nossas universidades.
Conhecemos situações em que concursos são abertos em universidades públicas e não são preenchidos por falta de candidatos qualificados. Há de se perguntar se não poderíamos dar um passo realmente efetivo em direção à internacionalização de nossas universidades criando condições para que mesmo estrangeiros prestem concursos.

Para tanto, bastaria, por exemplo, que eles pudessem fazer provas em inglês à condição de assinar um termo de compromisso onde se obrigariam a aprender português e dar aulas em nossa língua depois de um ou dois anos.

As vantagens para nossos alunos seriam inegáveis, pois eles teriam um corpo docente internacional, com pesquisadores de várias tendências capazes de aumentar o nível dos debates entre os próprios professores. Os alunos teriam uma abertura efetiva de horizonte importante para seu processo de formação.

As vantagens para o país seriam também evidentes, já que poderíamos, como fizeram os EUA nos anos 1930, receber grupos de pesquisadores que desenvolveriam suas pesquisas em solo pátrio.

A estabilidade econômica que parece se delinear para o Brasil nos próximos anos pode ser um fator importante para a abertura de uma nova fase em nossa vida acadêmica.

Se o governo estiver disposto a usar recursos do pré-sal para o investimento em educação e pesquisa, o Brasil terá condições de se tornar um lugar atrativo para pesquisadores dispostos a escapar de países em bancarrota e envenenados por delírios xenófobos.


domingo, 17 de julho de 2011

Hegelianas II



Pelo fato do conteúdo empírico se apresentar concretamente á percepção imediata  dos sentidos, se apresenta  como certeza de um rico conhecimento dado, e até como conhecimento de riqueza infinda. Esta ‘sensação” de infinitude advém do fato de que o objeto, ou melhor, a certeza sensível que dele temos, não permite achar limites para ela, quer se examinemos desde ‘fora’, isto é, ainda que percorramos o espaço e tempo onde se expande, quer se penetramos no interior mesmo da plenitude desta sensação por meio de um de seus fragmentos. Em suma, a certeza sensível padece de plenitude, e se deleita com o todo do objeto que tem diante de si.


Comentário do Senhor C.:

- De todas as sensações humanas, a certeza sensível é a mais ilimitada, quer dizer, a que produz uma percepção ilimitada e se deleita na imediatez da apreensão sensível dos objetos que tem diante de si, sem se preocupar de  imediato em 'saber' o que é isso mesmo que tem diante de si. Puro prazer de fruição, eis a percepção in totum da certeza sensível!



sábado, 16 de julho de 2011

Hegelianas

Notas de leitura da Fenomenologia do Espírito





O saber, que é imediatamente o nosso objeto, não pode ser outra coisa que não o saber do imediato, ou seja, o saber se apresenta de forma imediata pelos objetos, e também assim procedemos; desta maneira, o conceito é um mediato, que está imediatamente afastado de nosso conhecer imediato.


Comentário do Senhor C.:

- O conhecimento ou saber, que também pode, de certo modo, ser tomado como referência a ciência, isto é o conhecimento razoável do real é um estado a que se chega depois de um processo de elaboração racional. Os objetos se dão a conhecer de modo imediato, direto. O conhecimento que deles fazemos é produto deste processo de reflexão, que leva das sensações imediatas ou concretas, aos conceitos que são abstratos.