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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Como se matam os poetas



Pablo Neruda



por Mauro Santayana, em seu blog
A justiça chilena determinou a exumação dos restos mortais do cidadão chileno Neftaly Ricardo Reyes, o poeta Pablo Neruda. Suspeita-se que Neruda tenha sido envenenado pelos esbirros de Pinochet, dias depois da morte de Allende, no golpe de 11 de setembro de 1973 – há quase 40 anos. Neruda, que se preparava para asilar-se no México – em uma concessão dos golpistas, sob pressão internacional – foi internado em uma clínica, com uma crise prostática. Ali, segundo denúncia de seu motorista, recebeu a falsa medicação que o matou.

Os poetas – e poucos que redigem poemas conseguem ser realmente poetas – pertencem a outra espécie de seres humanos. Encontram-se na vanguarda das emoções e dos sentimentos. Isso leva a maioria deles a desfazer-se dos escolhos das circunstâncias e exilar-se em geografia e tempo alheios, mas sem perder a bússola da realidade, sem perder sua paisagem e sem perder o seu povo.

O Chile teve dois prêmios Nobel de Literatura. O primeiro foi outorgado, em 1945, a Lucila de Maria del Perpétuo Socorro Godoy Alcayaga, que usou o nome de Gabriela Mistral. Pablo e Gabriela foram amigos. Quando Gabriela fez 15 anos, em 1904, Neruda nasceu. Gabriela, com seu nome literário, homenageou dois grandes poetas de seu tempo, o italiano Gabriele d’Annunzio e o francês da Provença, Fréderic Mistral.

Pablo Neruda, com seu pseudônimo, prestou homenagem ao grande poeta tcheco do século 19, Jan Neruda – que denomina a mais bela das ruas de Praga e uma das mais bonitas do mundo, a que saí de Mala Strana e sobe ao castelo de Hradcany. Os quatro, ícones e discípulos, tiveram a marcá-los o sentimento nacionalista.

Matar poetas tem sido o grande prazer dos fascistas contemporâneos e dos tiranos de todos os tempos. O assassinato de Federico Garcia Lorca é conhecido. O autor de Romancero Gitano, traído, por medo, pelo amigo que o escondera, foi fuzilado nos primeiros dias da insurreição de Franco, por ordem do general Queipo de Llano. Neruda – que foi um dos melhores amigos do povo brasileiro – pretendia, do exílio, lutar contra Pinochet. É o que parece ter ocorrido contra Pablo Neruda. Matar de forma dissimulada é uma prática também dos serviços norte-americanos, como a CIA reconhece.

Há várias formas de matar os poetas. O fascismo, sendo o avesso do humanismo, é o assassinato permanente da poesia – e dos poetas. O franquismo, além de fuzilar Lorca, matou de tifo e tuberculose, na prisão, Miguel Hernández, aos 31 anos; e alguns outros, como Antonio Machado, de tristeza, solidão e angústia, no exílio, como Antonio Machado.

Mesmo que não houvesse sido envenenado, Neruda morreu com o golpe. Morreu com os escolhidos no Estádio Nacional de Santiago, e chacinados por ordem do usurpador. Morreu com sua gente.


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"100 mil poetas para a mudança"




Em Botswana, um país africano cada vez mais conhecido pela qualidade de sua poesia, relato de uma noite em que a palavra recitada convida a mudar o mundo

Por Flora Pereira e Natan de Aquino, do Projeto Afreaka

Simultaneamente em 95 países, alguém se destacou em meio à multidão e todo o resto parou para admirar: uma poesia estava para ser declamada. ‘100 Mil Poetas para a Mudança’ é o nome do evento que no dia 29 de Setembro reuniu artistas dos cinco continentes em nome da mesma causa: mudar o mundo através da palavra recitada. E em Botswana, um país que começa a ser cada vez mais conhecido pela qualidade de sua poesia e de seus poetas, o assunto foi levado a sério. Na capital nacional e internacional do estilo, Maun, 20 dos melhores artistas do país se juntaram para ministrar uma noite memorável.

Na cidade, que é conhecida por ser o ponto de entrada e saída para a principal atração turística do país, o Delta Okavango, um mundo, que nada tem a ver com animais e safaris, acontece no jardim de um dos hotéis locais. Beirando um riacho, dez longas mesas cobertas de branco e vermelho estão posicionadas de frente para o palco e para dois telões que exibem fotos das recitações dos últimos eventos. Ao lado, um banner: “Esta noite é a sua noite e você vai mudar o mundo através da poesia”.

A organização Poetavango – Falando pela Poesia é quem está hospedando o festival e junto com a sociedade de Gaborone Poetry for Thought formam a principal corrente de poesia do país. Entre apresentações de seus membros e de outros convidados especiais, a noite vai tomando forma sob o comando interativo de Legoledile “Dredd X’, o apresentador da festa e também o fundador da Poetavango. Para ele o evento simboliza a criação de uma única unidade e de uma força conjunta para a promoção da palavra falada e para mudanças positivas no mundo. Afinal é esse o tema da noite e é sobre isso que todos os poetas seguem declamando.

Cada um traz o seu desejo para o palco, entre os mais aclamados está o intenso Goodwill, que combina em sua poesia citações das contradições do mundo e o refrão: “Why Us? Are we the lucky generation or are we the last generation? (Por que nós? Seremos a geração da sorte ou seremos a última das gerações?). Mais tarde sobe ao palco Leshie Lovesong, uma das mais esperadas pela plateia. Mesclando música e poemas em um ritmo envolvente, o público, que por nenhum momento da noite deixou de interagir delira com seu desempenho.

No intervalo, os espectadores são convidados a subir no palco e arriscarem uma performance. Entre os voluntários, uma ‘barbie girl’, que levanta e declama uma poesia para lá de ritmada defendendo o seu polêmico estilo de vida, onde tudo vale por uma Mercedes. Entre risadas e frases de inconformidade, a ousadia é um sucesso. Hoje, o que importa é a poesia. E ela o soube fazer.

Depois do intervalo, um dos destaques é a miúda Kefilwe Mathlo, que também é representante da segunda força poética do país “Poetry for Thought”. Ela recita duas poesias, a primeira sobre o problema territorial indígena do povo San e a segunda sobre violência sexual. Ambas tocam profundamente a plateia e assim que ela sai do palco muitos dos convidados fazem questão de cumprimentá-la. “A poesia é onde eu posso dizer o que está na minha mente, é onde eu posso dividir sentimentos, é onde eu começo incutir mudança e onde eu posso dar esperança. Você sabe, eu nunca na minha vida achei que iria longe, mas através da poesia eu aprendi muito. É um jeito de atravessar as minhas portas fechadas”, ilustrou a poetisa.

A noite vai caindo, o frio que vem do rio vai ficando cada vez mais intenso e os panos que antes cobriam as mesas agora são cobertores. Mesmo assim, o primeiro a ir embora só o faz depois da última poesia. A paixão pela palavra falada parece ter aquecido o sangue dos Tswanas, que aos poucos se despedem do evento. Os artistas têm todos sorrisos discretos nos rostos, a noite foi sucesso e eles sabem disso. Afinal, além da celebração ao poema declamado e às mudanças que estes podem incitar no mundo, a passagem também significou uma importe guinada para região do Okavango Delta, que deixa a certeza de não ser feita apenas de paisagens bonitas, mas de lugares, pessoas e eventos vibrantes no mundo da arte e da cultura.


Maun: Capital da Poesia from site AFREAKA on Vimeo.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Como Pablo Neruda morreu, se continua tão vivo?




Neruda morreu de indignação e tristeza. Quem quer que tenha injetado veneno em seu corpo não fez mais que reforçar o veneno que Augusto Pinochet Ugarte já havia injetado em sua alma. As investigações do juiz poderão dar com os culpados e mandá-los para a cadeia. Pouco importa. Eles já vivem no inferno que criaram, e sua maior pena é estar submersos no desprezo eterno de todos os que sabem a maior das verdades: Neruda continua vivo, continua renascendo em cada vida que sua poesia apadrinha. O artigo é de Eric Nepomuceno.

Eric Nepomuceno

O taxista chileno Manuel del Carmen Araya Osório tem 65 anos, vida modesta, e trabalha na cidadezinha de San Antonio, a uns cem quilômetros de Santiago do Chile. Mora com a mãe de 80 anos. Era pouco mais que adolescente quando entrou para o Partido Comunista. E, em novembro de 1972, aos 26 anos de idade, foi designado pelos companheiros para servir de secretário pessoal de uma das maiores figuras do partido, Pablo Neruda. Morou na casa do poeta na Isla Negra, era quem comprava os jornais, servia o café-da-manhã, vagabundeava com ele pelos mercados, dirigia o Citroën lustroso em passeios que nasciam sem rumo e sem destino.

Menos de duas semanas depois do golpe de 11 de setembro de 1973, quando Neruda estava no hospital em Santiago, Araya foi preso. Aconteceu no dia 23. Apanhou bastante, levou um tiro atrás do joelho que quase o deixou inválido, foi levado para o Estádio Nacional, que havia sido transformado em campo de concentração, tortura e execuções. E na prisão, dias depois, ficou sabendo que naquele mesmo 23 de setembro Neruda havia morrido em seu quarto de hospital. A última imagem que guardou do poeta foi o corpo grandalhão e desengonçado numa cama de doente. Estava com febre, estava avermelhado, estava inchado. Estava morrendo.

O laudo médico assegura que a causa da morte foi o câncer de próstata que acossava Neruda. Sua viúva, Matilde Urrutia, disse, um ano depois, que “a verdade única é que o duro impacto da notícia fez com que dias mais tarde seu coração parasse. O câncer estava muito controlado, não prevíamos aquele desenlace tão repentino. Não chegou nem a deixar um testamento, pois achava que a morte estava longe”. A tal notícia foi o golpe de Estado que assassinou a democracia chilena e no qual morreu seu velho amigo e companheiro, Salvador Allende. Entre o golpe e a morte de Neruda se passaram exatos 12 dias. Circularam rumores dizendo que ele estava a ponto de ser levado para o México, que ia embora levando o Chile na alma e a palavra de denúncia na boca, pronta para ser proferida. Ninguém confirmou nada. O Chile estava mergulhado em pavor.

Tudo isso é história sabida. Ao longo dos últimos meses, também tornou-se conhecida a versão de Manuel Araya, que afirma e reafirma que com Neruda aconteceu a mesma coisa que com Eduardo Frei Montalva, que governou o Chile entre 1964 e 1970: foi assassinado. Frei foi morto em 1982, no mesmo hospital Santa Marta, vítima de uma injeção letal dada por alguém. O assassinato de Frei está confirmado. A morte de Neruda está sendo investigada pela Justiça.

Estranho país, o Chile. Por esses dias houve quem louvasse e homenageasse verdugos que exerceram seu sadismo ao amparo de Pinochet. Por esses dias há estudantes protestando nas ruas. Por esses dias se reforça a determinação da Justiça em saber a verdade: saber como foi a morte de seu poeta maior.

O Partido Comunista chileno admite, hoje, que na época do golpe fez circular notícias exagerando a gravidade do estado de saúde de Neruda: “Era para protegê-lo”. Achavam que assim conseguiriam aplacar um pouco o ódio bestial dos militares contra o poeta. Gonzalo Martínez Corbalá, embaixador do México no Chile naquela época, e que foi encarregado de tirar Neruda do país, confirma esse exagero. Diz que esteve com ele na véspera da sua morte, cuidando justamente dos detalhes de sua viagem. E que ele estava falando de modo absolutamente normal, embora debilitado pela doença e pela mais profunda das tristezas com o que havia acontecido no Chile.

Há alguns dias o juiz que encabeça as investigações sobre a morte de Neruda – o mesmo que concluiu, amparado por peritos, que Salvador Allende realmente se matou – conversou com uma jornalista chamada Rocio Montes Rojas, do jornal ‘El País’, de Madri. O nome do juiz é Mario Carroza, responsável pelas investigações mais relevantes sobre os tempos de horror de Pinochet.

– Existe a possibilidade de que jamais se saiba como foi que Neruda morreu? – perguntou a jornalista.

– Existe – respondeu o juiz.

Qual o quê. Todo mundo sabe: Neruda morreu de indignação e tristeza. Da mesma forma que todo mundo sabe que Neruda continua vivo entre os chilenos que recitam seus versos de vida e amor à vida, entre gerações que se sucedem com o suave marejar de suas palavras contundentes e perenes.

Quem quer que tenha injetado veneno em seu corpo não fez mais que reforçar o veneno que Augusto Pinochet Ugarte já havia injetado em sua alma, em sua incansável capacidade de vida e alegria.

As investigações do juiz poderão dar com os culpados e mandá-los para a cadeia. Pouco importa. Eles já vivem no inferno que criaram, e sua maior pena é estar submersos no desprezo eterno de todos os que sabem a maior das verdades: Neruda continua vivo, continua renascendo em cada vida que sua poesia apadrinha.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.



VERSÍCULOS IMPERTINENTES


Quem contempla a imensidão da cidade defronte?

Quem consegue sorrir diante da indigna situação?

Quem ousa pronunciar o nome daqueles que forjaram e fraudaram e sequer foram importunados?

Quem se importa com isso, afinal?

Quem acorda todo santo dia e vai por a máquina do dinheiro para funcionar?

Quem aciona os mecanismos da injustiça social?

Quem se recosta na poltrona confortável do santo domingo sem qualquer remorso pelas falcatruas paridas durante toda a semana?

Que m repara que há cada vez mais mendigos na rua?

Quem caminha solitário nas noites soturnas em que amantes se matam de tanto amor?

Quem trafega pela contramão?

Quem enfrenta os leões e as hienas que parecem ter fugido do zoológico mas não passam de transeuntes habituais?

Quem pede perdão pelos insones?

Quem ajoelha e reza sem se perguntar qual é o santo do dia?


Perguntas!!

Apenas perguntas vadias a vagar pela noite sob o plenilúnio.

Mas que não esperam respostas.



sábado, 30 de julho de 2011

Muito além de um poema - X

da correspondência pessoal do Senhor C.:

- Outro dia, chegou-me novamente às mãos uns versinhos curtos do jovem poeta que me escreve cartas! Resolvi compartilha-lo com os visitantes deste blog.



Aporia


Cabe à janela

Aberta ao mundo, 

conter a paisagem?



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

Alguns leitores têm ficado curiosos - quem é Silvino Olavo?. Outro dia, um visitante destas mal traçadas páginas me recomendou as seguintes notas informativas.

"Vejam o que se disse sobre Silvino Olavo.


Não poucos foram os escritores que comentaram as obras de Silvino Olavo, poeta esperancense (1891-1969). Desde o seu amigo e colega de redação Samuel Duarte, até ilustres paraibanos como José Lins do Rego.
As suas obras, longe de serem polêmicas, causavam sempre um affair pelo tom poético e cultural que girava em torno de seu autor.
Na “Revista de Língua Portuguesa”, há a seguinte anotação:
“O autor de Sombra Iluminada, Silvino Olavo, embora mais variado na inspiração de suas poesias, não tem também nenhuma nota vibrante e forte. É igualmente um melancólico. Todo o seu livro se faz de meios tons de uma suavidade encantadora” (p. 124).
E numa outra passagem lemos:
“Em versos, pelo menos, Silvino Olavo não manifesta outro sentimento” (p. 124).
E ainda sobre “Sombra Iluminada”, encontramos:
“Quem sabe se esse estímulo que sente Silvino Olavo, não lhe vem de certo instincto divinatório?” (Os de hoje: figuras do movimento modernista brasileiro, p. 254).
E no livro de Joacil Pereira:
“muitos dos iniciantes desse tempo áureo da nossa publicística, vários deles inteligências primorosas, dentre tantos, Silvino Olavo da Costa que feneceu de súbito após girar, como meteoro, o espaço percorrido com Cisnes e Sombra Iluminada;” (p. 127).
Enquanto Eduardo Martins ressalta as dificuldades de se publicar um livro:
“Francisco Souto falou-me na possibilidade de pedir um crédito especial para editar as obras de Silvino Olavo. Tudo dependerá dos recursos disponíveis...” (p. 58).
Dulce Mascarenhas comenta:
“A Silvino Olavo, Chiacchio chama de 'contemplativo sentimental', louvando-lhe os versos” (p. 68).
E Pedro Calmom (1902-1985), escreve em suas memórias:
“Silvino Olavo, cujos versos, n'A Época, o elevavam aos cimos do Parnaso...” (p. 105).
E mais adiante ele acrescenta:
“poetas, como Silvino Olavo e Rego Monteiro, abriram para o firmamento, e nós para a erudição. Ganhávamos no meio acadêmico o respeito que a precocidade impunha” (p. 117). Por fim, escreve “Quanto a turma... Nela adquiri, com o livro de contos publicados em 1923 por Monteiro Lobato, o conceito de escritor precoce. Alguns colegas quiseram me por orador da formatura. A maioria indicava Silvino Olavo, que além de poeta inspirado tinha a vantagem de não ser aluno transferido. Surgiu aí a conciliação: Silvino o orador” (p. 132).
Estas são as impressões que diversos autores extraíram do poeta e intelectual Silvino Olavo; apresentando-nos como um homem culto e de uma mente brilhante".
Rau Ferreira

Fontes:
- Jornal “A União”, janeiro de 1928. Acervo da Biblioteca Municipal “Dr. Silvino Olavo”;
- FERREIRA, Rau. Silvino Olavo. Esperança/PB. Epgraf: 2010;
- GURJÃO, Eliete de Queiróz, Morte e vida das oligarquias. Editora Universitária, Universidade Federal da Paraiba, 1994;
- VITOR, Nestor. Os de hoje: figuras do movimento modernista brasileiro. Editora Cultura Moderna, 1938, p. 254;
- PEREIRA, Joacil. José Américo de Almeida: a saga de uma vida. Editora Instituto Nacional do Livro, 1987, p. 127;
- MARTINS, Eduardo. A União: jornal e história da Paraíba, sua evolução gráfica e editorial. 2ª Edição, Editora s.n., 1977, p. 58.
História Esperancense - http://historiaesperancense.blogspot.com Conteúdo protegido pela Lei de Direitos autorais (Lei nº 9.910/98)

Muito além de um poema IX


POSTAL


Tenham-te inveja as rosas do jardim

para que os homens, 

invejando a mim,

reputem-me feliz entre os mortais


E possa, então, o amor que me incendeia

talvez o incêndio

da retina alheia

crescer dentro de mim cada vez mais.


Silvino Olavo

terça-feira, 21 de junho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

da correspondência pessoal do Senhor C.:

- Hoje, novamente, o correio chegou trazendo na bagagem mais uma poesia do meu jovem poeta. Vamos a ela:


NOTAS DA IMENSIDÃO DO TEMPO


Vês?!

Nem mesmo a velha senhora

conseguiu resistir

A gagueira, a surdez e a cegueira lhe vieram como solução

Um toque de charme

que a minha passagem lhe deixou no corpo como brinde!


Vês?!

A população toda está envelhecendo

mas tem agora amigos como nunca

pode passar as tardes a bailar

sem ver o ocaso do dia no horizonte distante.


Vês?!

E além de velhos, também lhes falta o ar

com que sofreguidão a vida lhes faz arfar

Vozes entrecortadas e rouquenhas que tentam

inutilmente, deter o fluxo de minha imensidão!



Provavelmente escrito no tempo em que os Correios entregavam correspondências no prazo e com baixa taxa de extravios, e cobravam preços compatíveis com a idéia de um serviço essencial. Agora, assumiram ares empresariais, preços de mercado, e padrão de qualidade abaixo da crítica.






quinta-feira, 16 de junho de 2011

Muito além de um poema VIII

QUEDA


Há um cume que só se atinge na queda
Queda num cume: confusa emoção!
Nada há nele, nem nela, a que se agarrar
Paredes tão lisas; imagens de imersão

Àqueles que atingem o cume da queda
Verão  luzes e sombras informes?
Beleza confusa, reflexo e paixão
Perderão o receio de velejar ao infinito?


quarta-feira, 15 de junho de 2011

Muito além de um poema - Vladimir Maiakóvski

HINO AO CRÍTICO


Da paixão de um cocheiro e de uma faxineira

Tagarela, nasceu um rebento raquítico

Filho não é bagulho, não se atira na lixeira

A mãe chorou e o batizou: crítico


O pai, recordando sua progenitora

Vivia a contestar os maternais direitos,

Com tais boas maneiras e tal compostura

Defendia o menino do pendor à sarjeta


Assim como o vigia cantava a cozinheira,

A mãe cantava, a lavar calça e calção,

Dela o garoto herdou o cheiro de sujeira

E a arte de penetrar fácil e sem sabão.


Quando cresceu, do tamanho de um bastão,

Sardas na cara como um prato de cogumelos,

Lançaram-no, com um leve golpe no joelho, 

À rua, para tornar-se um cidadão.


Será preciso muito para ele sair da fralda?

Um pedaço de pano, calças e um embornal,

Com o nariz grácil como um vintém por lauda

Ele cheirou o céu afável do jornal.


E em certa propriedade, um certo magnata,

Ouviu uma batida suavíssima na aldrava,

E logo o crítico, da teta das palavras,

Ordenhou as calças, o pão e uma gravata.


Já vestido e calçado, é fácil fazer pouco

Dos jogos rebuscados dos jovens que pesquisam,

E pensar: quanto a estes, ao menos, é preciso

Mordiscar-lhes de leve os tornozelos loucos.


Mas se se infiltra na rede jornalística

Algo sobre a grandeza de Púchkin ou Dante,

Parece que apodrece ante a nossa vista

Um enorme lacaio, balofo e bajulante.


Quando, por fim, no jubileu do centenário,

Acordares em meio ao fumo literário,

Verás trilhar na cigarreira-souvenir o 

Seu nome em caixa alta, mais alvo do que um lírio.


Escritores, há muitos. Juntem um milhar

E ergamos em Nice um asilo para os críticos.

Vocês pensam que é mole viver a enxaguar

A nossa roupa branca nos artigos?


Vladimiir Maiakóvski
(Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman)


sábado, 11 de junho de 2011

Muito além de um poema VI

O CISNE NEGRO



Sobre a água impura e ruim do sórdido palude,
Buscando, sempre só, a sombra do arvoredo,
Covarde, a se ocultar, cheio de assombro e medo,
o cisne negro nada, em lúgubre atitude.

Durante o dia veste a negra capa rude,
fantástica e fatal do seu destino trêdo,
e - irmão da noite - a lua, aguarda-a, em seu degredo,
a ver se ela lhe traz conforto à solitude.

Carrega, assim, consigo, essa expressão nefasta
do contraste que existe em toda a natureza,
deste a serenidade ao túrbido ciclone.

Aquele cisne branco, em tudo ele contrasta,
e sem querer, na morte, em seu canto há beleza;
- parece a alma da noite completamente insone.


Silvino Olavo


terça-feira, 7 de junho de 2011

Muito além de um poema - V

da correspondência pessoal do Senhor C.

- Eis que, num dia frio que veio do frio, me chegou pelo correio o poema que transcrevo abaixo:


RETRATO EM 3 X 4


Três trastes tristes,
Trágico!

O palhaço sorriu
E nós passamos.

Éramos três,

alegria,
felicidade.
êxtase!

Mas somos quatro, agora!

Agora, quatro,
quatro quadrantes,
quadrados quietos!

Quedamos inquietos
(In)constante
Inquietude!

de um jovem poeta.









segunda-feira, 6 de junho de 2011

Muito além de um poema - IV




Ao noivo da Quimera


É que agora nos achamos, eu e ela,

E expirada na cripta azulada da Igreja!...

- Como a chama dos círios que ardem na Capela,

Entre as nuvens do sonho e da luz que flameja


Em estado de emblema o sutil tagarela,

Da incógnita fatal que ainda não arqueja!

É bem mais sutil...o bem que ela deseja,

Oh! Não chegou a ser!...na fímbria desta umbela!...


Eu já pedi-lhe, em vão...E a sua sombra,

Cada vez mais o lago é mais sereno!

E mais sem tempestade o templar desta alfombra!


E eu já cheguei ao fim!...Já lhe disse o terreno

No qual tem de ser minha! é quando se desombra,

E se revolta na Lua! E o mundo é bem pequeno!...



Silvino Olavo

domingo, 5 de junho de 2011

Muito além de um poema - III



CISNE BRANCO

O cisne branco nada sobre o lago
Rola tão leve que nos causa mágoa
e a sua sombra, refletindo n'água
rola tão leve com um sonho vago

E, assim, rolando, num prestígio magro,
o espírito parece da Mãe d'água
- ouço-lhe a voz e, intimamente, afago-a
como o que mais mereça meu afago

Ah essa voz que canta, e depois cala
Ah essa voz que a mim, somente, fala,
como a Nereide o búzio suas mágoas

Amo essa voz, porque essa voz suave
é a voz de minha dor, que em forma de ave,
vai rolando e cantando sobre as águas.

Silvino Olavo.



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

Outro dia, recebi de um jovem poeta, a seguinte mensagem:



A LEI DO SILÊNCIO




Nada é possível se permanecemos calados?

Como ficar entregues a pensamentos inomináveis?

É difícil se imaginar assim quietos no meio do som?!

Quem diria?

No meio do som estamos sempre indo embora

Preenchidos e invadidos pela melodia que ocupa tudo

tímpanos, cérebro, nossa alma, nós, em desatino andante

Os automóveis nas ruas atropelam notícias

E nem se importam com o que possa ter sobrado

Mas se pudessem sentir e contar, diriam:

(sabem todos os que preferem o entorpecimento dos sentidos

que as máquinas parecem proporcionar)

- Viva o ronco, viva o ruído,

viva o ensurdecedor barulho de todas as vozes

Que nada dizem e se atravancam ao tentar

o mergulho coletivo no vale profundo

Que sempre começa quando se escolhe calar!


sábado, 28 de maio de 2011

Muito além de um poema - II


LEMBRANÇA


Não há mais bela para os meus olhos

Nem há mais suave para o meu tato,

Seu perfil dança na minha imaginação

como uma folha à inconstância do vento.


Seus olhos têm a agilidade dos raios solares

e uma alegria de pássaros em revoada...


Quando a lembro penso na lenda do Tuastri...

Foi numa noite azul cheia de encantos mágicos

que pousei os meus lábios nos seus lábios de seda...

...que sabor de amaranto em minha boca!

Que doçura de afagos na alameda.


Silvino Olavo -  Cisnes, Sombra Iluminada



terça-feira, 24 de maio de 2011

Para enfrentar o preconceito dos puristas e conservadores!



“Pronominais”


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada

- Me dá um cigarro


 Oswald de Andrade



domingo, 22 de maio de 2011

Muito além de um poema: Carlos Drummond

EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome 
Que não é meu de batismo ou de cartório 
Um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
Que jamais pus na boca, nessa vida, 
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
Que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produtos 
Que nunca experimentei 
Mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
De alguma coisa não provada 
Por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
Minha gravata e cinto e escova e pente, 
Meu copo, minha xícara, 
Minha toalha de banho e sabonete, 
Meu isso, meu aquilo. 
Desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
São mensagens, 
Letras falantes, 
Gritos visuais, 
Ordens de uso, abuso, reincidências. 
Costume, hábito, permência, 
Indispensabilidade, 
E fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
Escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É duro andar na moda, ainda que a moda 
Seja negar minha identidade, 
Trocá-la por mil, açambarcando 
Todas as marcas registradas, 
Todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
Eu que antes era e me sabia 
Tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
Ser pensante sentinte e solitário 
Com outros seres diversos e conscientes 
De sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio 
Ora vulgar ora bizarro. 
Em língua nacional ou em qualquer língua 
(Qualquer principalmente.) 
E nisto me comparo, tiro glória 
De minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
Para anunciar, para vender 
Em bares festas praias pérgulas piscinas, 
E bem à vista exibo esta etiqueta 
Global no corpo que desiste 
De ser veste e sandália de uma essência 
Tão viva, independente, 
Que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
Meu gosto e capacidade de escolher, 
Minhas idiossincrasias tão pessoais, 
Tão minhas que no rosto se espelhavam 
E cada gesto, cada olhar 
Cada vinco da roupa 
Sou gravado de forma universal, 
Saio da estamparia, não de casa, 
Da vitrine me tiram, recolocam, 
Objeto pulsante mas objeto 
Que se oferece como signo dos outros 
Objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
De ser não eu, mas artigo industrial, 
Peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é Coisa. 
Eu sou a Coisa, coisamente.


Carlos Drummond de Andrade




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O hoje e o jamais (Bertold Brecht)

Estes versos do poeta alemão caem como uma luva para os dias de hoje, apesar de escritos há mais de um século. Quem dera escrever versos como ele!


"A injusstiça passeia pelas ruas com passos seguros
Os dominadores se estabelecem por dez mil anos
Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores
Nos mercados de exploração se diz em voz alta
- Agora acaba de começar!
E entre os oprimidos muitos dizem:
-Não se realizará jamais o que queremos!
O que ainda vive não diga 'jamais'!
O seguro não é seguro, como está não ficará
Quando os dominadores falarem
Falarão também os dominados
Quem se atreve a dizer jamais?
De quem depende a continuação deste domínio? De nós!
De quem depende a destruição? Igualmente de nós!
Os caídos que se levantem
Os que estão perdidos que lutem!
Quem reconhece a situação como pode calar-se?
Os vencidos agora serão os vencedores de amanhã
E o 'hoje' nascerá do jamais!




Comentários do Senhor C.:


Acaso estamos melhores do que quando foram escritas estas palavras? 
A quem queremos enganar? A nós mesmos!
Pois ainda não chegou a hora em que o 'hoje' nascerá
Seu tempo tarda e impaciente os que, impenitentes,
se entregaram ao dulce farniente de se imaginarem chegados.
A luta ainda não é finda, 
E mais duros são os tempos,
Em que o diabo se pregou na cruz e quer se fazer salvador.