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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O nome disso é escárnio

Com mais R$ 50,00 se aluga um black bloc


"O sultanato de jaleco branco trata a saúde como um mercado de camelos; alia-se ao conservadorismo retrógrado e tem na embaixada dos EUA um corredor de fuga."


Saul Leblon


Algo outrora inescapável do epíteto de um escárnio contra o povo brasileiro está em curso nos dias que correm.

O ruído que provoca -- tanto das fileiras do governo, quanto nas de segmentos que se avocam à esquerda dele-- é incompreensivelmente desproporcional a sua gravidade.

Que as sininhos não badalem e, igualmente, seus carrilhões silenciem, é ilustrativo do fosso existente entre o inflamável alarido anti- Copa bimbalhada nas ruas e a real preocupação com o futuro do país e a sorte da população.

A Associação Médica Brasileira, em sintonia com a embaixada dos EUA e aliada à coalizão demotucana, tendo respaldo e torcida da mídia, opera abertamente para destruir um programa de saúde pública emergencial voltado às regiões e contingentes mais vulneráveis do país.

Não há resguardo das intenções, nem pudor na propaganda da ação.

A entidade que se proclama representante da corporação médica brasileira acolhe e viabiliza deserções de profissionais cubanos fisgados pelo redil conservador em diferentes regiões e municípios.

O Estado brasileiro investirá este ano R$ 1,9 bi em recursos públicos nesse programa operação, para agregar 43 milhões de atendimentos/ano ao SUS a partir de abril, quando o Mais Médicos atingirá seu efetivo pleno, com mais de 13 mil profissionais em ação, sendo seis mil cubanos.

A embaixada dos EUA no Brasil --em sintonia com a Associação Médica e lideranças dos partidos conservadores--opera abertamente para que não seja assim.

O tripé orienta e encaminha pedidos de vistos especiais, a toque de caixa, para que o maior número de desistentes possa rumar a Miami, onde os espera a estrutura da ‘Solidariedade Sem Fronteiras’.

A ONG de fachada humanitária tem como principal negócio –financiado por recursos orçamentários que a bancada cubana assegura no Congresso-- promover e operar deserções em convênios de saúde firmados entre Havana e 66 países nesse momento.

São mais de 43 mil médicos cubanos em ação na América Latina, Ásia e África. Devem atingir atingir um recorde de 50 mil em dois meses, quando o convênio brasileiro estiver plenamente implantado.

Um aspecto da remuneração desses profissionais deliberadamente pouco divulgado é que nem todos os convênios internacionais de Havana são pagos.

Na verdade, dos 66 países assistidos nesse momento apenas 26 se enquadram no que se poderia chamar de prestação de serviços pagos.

Outros 40 países recebem contingentes médicos gratuitamente.

O mesmo ocorre com missões de educação ou esporte.

A ‘exportação’ de serviços rende a Havana, segundo a chancelaria cubana, cerca de US$ 6 bi/ano (três vezes mais que a segunda fonte de divisas do país, representada pelo turismo).

A exportação de serviços pagos - principalmente na área de saúde – financia as missões solidárias destinadas a países de extrema precariedade econômica e material ou focadas em situações de calamidade devastadora.

É assim desde 1960, quando Cuba enviou sua primeira missão de solidariedade ao Chile, vítima de um terremoto.

Eis é a principal razão para a diferença entre o salário efetivamente recebido pelo profissional de uma missão e aquilo que o governo cubano arrecada pelo serviço prestado.

Uma parte do saldo financia as missões gratuitas que, repita-se, são a maioria.

Outra sustenta a Escola Latino-americana de Medicina, que possuía em 2013 cerca de 14 mil alunos estrangeiros, gratuitamente cursando ou com subsídio quase integral.

Com pouco mais de 11 milhões de habitantes, Cuba investe pesado em pesquisa na área de saúde e formação de médicos: são quase 83 mil (1/138 habitantes).

O investimento tem duplo objetivo: zelar pela população que tem a menor taxa de mortalidade infantil do mundo, e gerar receita numa economia asfixiada há 50 anos pelo embargo comercial norte-americano.

Também isso se financia através das missões remuneradas.

A ideia de que a doutora Ramona Rodriguez possa ter desembarcado no Brasil desinformada dessas particularidades acerca de seu salario, subestima a conhecida determinação de Havana, de ressaltar interna e externamente aquela que é a marca inegável de sua ação internacional: a solidariedade.

A mesma alegação de ignorância tampouco se pode conceder –neste aspecto-- ao colunismo isento, que cuida de festejar as deserções - por ora pontuais - como se fossem o preâmbulo de uma diáspora libertária, em marcha épica rumo a Miami.

A participação da embaixada norte-americana no jogo de aliciamento e hipocrisia é ainda mais grave.

Trata-se de uma tentativa de sabotagem de um programa soberano de saúde pública emergencial, cujo desmonte poderá agregar novas vítimas e mais sofrimento num universo de milhões de brasileiros desassistidos.

Se a intrusão é desconcertante, não se pode dizer que surpreenda.

Quando o governo Lula decidiu quebrar a patente de anti-virais , em 2007, a embaixada norte-americana operou para sabotar a medida.

Agiu em contato direto com as múltis do setor farmacêutico, o Departamento de Estado do governo Bush e ‘amigos’ locais -- não se sabe se os mesmos que hoje cerram fileiras com o duplo interesse de implodir o ‘Mais Médicos’ e sangrar Havana.

Telegramas secretos da época, obtidos pela organização Knowledge Ecology International (KEI), revelam ameaças de represália enviadas então a Brasília:

“(...) uma licença compulsória pode fazer com que fabricantes de produtos farmacêuticos evitem introduzir novos remédios no mercado e seria mais difícil para o Brasil atrair os investimentos que tanto necessita", relatava um deles sobre o teor de reuniões com autoridades e políticos locais.

Lula oficializaria em maio de 2007 o licenciamento compulsório do anti-retroviral Efavirenz, usado por 75 mil pacientes de Aids atendidos pelo SUS. Um genérico importado da Índia passou a ser usado ao preço de US$ 0,45, contra US$ 1,59 cobrado pela multinacional norte-americanas. Uma economia de US$ 30 milhões até 2012.

Volte-se um pouco mais no tempo, até as vésperas do golpe de 64, e lá estarão, de novo, os mesmos protagonistas, com idênticos propósitos.

O embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, fileiras udenistas e lacerdistas, múltis do setor farmacêutico e sabujos da mídia, a ganir a pauta da estação.

Eram tempos de inflação galopante e dinheiro curto: a saúde corria risco.

O então ministro da Saúde, Souto Maior, lutava para obter uma redução de 50% sobre os preços de 70 medicamentos mais usados pela população.

Laboratórios das multinacionais abriram guerra contra o tabelamento.

Às favas a saúde: primeiro, os interesses das corporações.

Lembra algo do comportamento atual da embaixada que se orienta pelos mesmos valores e da Associação Médica Brasileira que tanto quanto os abraça?

No famoso comício da Central do Brasil, sexta-feira, 13 de março de 1964, João Goulart decretou a expropriação de terras para fins de reforma agrária, encampou refinarias e anunciou a criação de estudos para fabricação estatal de medicamentos no país.

O conjunto era fiel aos preceitos do ‘sanitarismo-desenvolvimentista,’ abraçado então pelas fileiras progressistas da medicina brasileira.

Médicos como Samuel Pessoa, Mário Magalhães, Gentile de Melo e Josué de Castro –autor do clássico ‘Geografia da Fome ‘ e primeiro secretário- geral da FAO, que faleceu no exílio , cassado pela ditadura e impedido de retornar ao Brasil mesmo para morrer – eram alguns de seus expoentes.

Profissionais que hoje seriam olhados com suspeita, enxergavam a luta pela saúde como indissociável da luta pela desenvolvimento econômico e humano do país.

Em setembro de 1963, Jango, com apoio deles, restringiu a remessa de lucros da indústria farmacêutica. Mister Lincoln Gordon foi à luta: a USAID retaliou no lombo da pobreza cortando a ajuda no combate à malária – que se destacava como uma das principais doenças tropicais na época.

A ofensiva gringa apenas fortalecia as convicções dos sanitaristas-desenvolvimentistas.

Embora heterogêneos nas filiações ideológicas, seus representantes entendiam que doença e pobreza caminhavam juntas. Como tal deveriam ser enfrentadas em ações soberanas, abrangentes e desassombradas, que rompessem a fragmentária estrutura de uma sociedade retalhado por interesses que não eram os de seu povo.

Compare-se isso com o sultanato de jaleco branco.
Esse que hoje trata a saúde como um entreposto de camelos; alia-se ao conservadorismo mais retrógrado e tem na embaixada dos EUA um corredor de fuga em prontidão obsequiosa.

Bajulado pela mídia, o conjunto quer implodir o ‘Mais Médicos’ e sangrar Havana.

O nome disso é escárnio. E Brasília deveria dizê-lo claramente ao embaixador gringo, ao chamá-lo a prestar esclarecimentos sobre ingerência e sabotagem em assuntos internos.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Para aqueles que não vêm diferenças entre governos e tratam apagão como se fosse genérico!

O “planejamento energético” de FHC: “Você apagou a luz e iluminou o Brasil”.
7 de fevereiro de 2014 | 13:54 Autor: Fernando Brito




A gente às vezes tem de voltar atrás e ir buscar no passado situações que a galera de 20, 25 anos não tem nem como recordar, porque era bem criança.

Mas a frase aí de cima não é piada: foi dita pelo senhor Fernando Henrique Cardoso, em 19 de fevereiro de 2002, há 11 anos atrás, para marcar o fim de nove meses de racionamento de energia elétrica.

O país havia privatizado – praticamente doado – as suas empresas de energia elétrica a partir de 1997 e o resultado foi um corte completo nos investimentos em transmissão e geração de energia.

Com a crise, FHC saiu correndo atrás do prejuízo e ofereceu mundos e fundos a quem viesse montar termoelétricas no Brasil. Mundos e fundos que, claro, eram os do povo brasileiro.

A Petrobrás foi obrigada a fazer contratos ruinosos, se obrigando a comprar energia gerada pelas térmicas pelos olhos da cara, tão caro que, adiante, a empresa acabou comprando as próprias térmicas, para, pelo menos, ter prejuízo “consigo mesma”.

Agora julgue se a situação é parecida, apesar da mais severa estiagem vivida – ao menos aqui no Rio de Janeiro – desde 1967.

Quando a Presidenta Dilma Rousseff duvida publicamente de que tenha sido algum “raio” que causou a interrupção desta semana, ela está, na verdade, mandando um recado para as operadoras – que agora são privadas – de energia elétrica.

- Não armem “caos” para conseguir mais dinheiro do Governo.

É claro que a situação energética, longe de ser a oitava maravilha do mundo depois de um ano de seca, como foi 2013, e de um início de 2014 de calor infernal e recordes diários de consumo.

Mas tem caroço debaixo desse angu, porque as elétricas nãos estão nada contentes com a política de mocidade tarifária que o Governo adotou, tanto que já estão arranjando “especialistas” para condenar o modelo.

Tem gente doida por um “apagranas”.

Vá aos balanços e veja se elas estão tendo prejuízos.

O sucesso do leilão, hoje, do linhão que vai trazer a energia de Belo Monte – que estamos tentando há anos e anos construir, sob a mais pesada oposição dos que reclamam da escassez de energia – prova que as tarifas não são baixas e que poderiam até ainda cair.

Ou você acha que os chineses da Smart Grid, que opera o consórcio vencedor com a Eletrobras veio para cá para fazer caridade?

Assim que vierem as chuvas atrasadas, a enxurrada leva essas armações que usam a seca real para ver se os bolsos enchem mais ainda.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

E se o bolsa família se chamasse Supplemental Nutrition Assistance Program?


snap

Paul Krugman e o “Bolsa-Família” americano. Livres para 

passar fome


Pouca gente sabe, mas os EUA também têm o seu “Bolsa Família”.


Lá, é o SNAP - Supplemental Nutrition Assistance Program - que ajuda 40 milhões de americanos de baixa renda a se alimentarem, no mesmo esquema de cartão magnético do nosso aqui, com a diferença que o benefício não pode ser sacado, mas utilizado eletronicamente nas lojas cadastradas, o que é fácil frente ao uso de computadores generalizados em todo o comércio do país. Ele, aliás, substitui os antigos “food stamps”, tíquetes de alimentação que existem há décadas nos EUA.

Lá, como cá, o conservadorismo ataca o SNAP, dizendo que ele “ensina a não trabalhar”, acomodando as pessoas.

Contra isso, e para analisar os benefìcios do “Bolsa Família” gringo, o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de 2008, escreveu o artigo abaixo, publicado no The New York Times de ontem e republicado aqui pelo site da Folha.

É triste ver que a mediocridade é universal e que, não importa a língua, a elite sempre se parece em crueldade.
Livres para passar Fome

Paul Krugman

Múltiplos estudos econômicos cuidadosamente conduzidos demonstraram que a desaceleração econômica explica a porção principal da alta no programa de assistência alimentar. E embora as notícias econômicas venham sendo em geral ruins, uma das poucas boas notícias é a de que o programa ao menos atenuou as dificuldades, impedindo que milhões de norte-americanos caíssem à pobreza.

E esse tampouco é o único benefício do programa. Há provas esmagadoras de que os cortes de gastos aprofundam a crise, em uma economia em desaceleração, mas os gastos do governo vêm caindo. O SNAP, porém, é um programa que foi expandido, e dessa forma ajudou indiretamente a salvar centenas de milhares de empregos.

Mas, dizem os suspeitos habituais, a recessão terminou em 2009. Por que a recuperação não reduziu o número de beneficiários do SNAP? A resposta é que, embora a recessão tenha de fato acabado oficialmente em 2009, o que tivemos desde então é uma recuperação de e para um pequeno número de pessoas, no topo da pirâmide de distribuição nacional de renda, e nenhum dos ganhos se estendeu aos menos afortunados. Considerada a inflação, a renda do 1% mais rico da população norte-americana subiu em 31% de 2009 a 2012, enquanto a renda real dos 40% mais pobres caiu em 6%. Por que o uso da assistência alimentar se reduziria, assim?

Mas será que o SNAP deve ser considerado uma boa ideia, em termos gerais? Ou, como diz o deputado Paul Ryan, presidente do comitê orçamentário da Câmara, ele serve como exemplo de transformação da rede se segurança social em “rede de varanda que convence pessoas capazes de trabalhar a levarem vidas de dependência e complacência”.

Uma resposta é, bem, não é lá uma rede muito confortável: no ano passado, os benefícios médios da assistência alimentar eram de US$ 4,45 ao dia. E, quanto às pessoas “capazes de trabalhar”, quase dois terços dos beneficiários do SNAP são idosos, crianças ou deficientes, e a maioria dos demais são adultos com filhos.

Mas mesmo desconsiderando tudo isso, seria de imaginar que garantir nutrição adequada para as crianças, que é grande parte do que o SNAP faz, torna menos, e não mais, provável que essas crianças sejam pobres e necessitem de assistência pública ao crescer. E é isso que as provas demonstram. As economistas Hilary Hoynes e Diane Whitmore Schanzenbach estudaram o impacto dos programas de assistência alimentar nos anos 60 e 70, quando eles foram gradualmente adotados em todo o país, e constataram que, em média, as crianças que recebiam assistência desde cedo se tornavam adultos mais produtivos e mais saudáveis do que as crianças que não a recebiam – e que também era menos provável que recorressem a ajuda do governo no futuro.

O SNAP, para resumir, é um exemplo de política pública em sua melhor forma. Não só ajuda os necessitados como os ajuda a se ajudarem. E vem fazendo ótimo trabalho durante a crise econômica, mitigando o sofrimento e protegendo empregos em um momento no qual muitas das autoridades parecem determinadas a fazer o oposto. Assim, é revelador que os conservadores tenham escolhido este programa como alvo de ira especial.

Até mesmo alguns dos sabichões conservadores consideram que a guerra contra a assistência alimentar, especialmente combinada ao voto que aumentou o subsídio agrícola, prejudicará o Partido Republicano, porque faz com que os republicanos pareçam mesquinhos e determinados a promover uma guerra de classes. E é isso exatamente que eles são.

Por: Fernando Brito, do Tijolaço


O Dr. Coxinha tinha razão. Não faltam médicos em Trindade. Só falta o CRM

coxmedic

24 de setembro de 2013 | 09:39

Vocês lembram do Dr. Rogério Perillo, aquele que se faz passar de “vítima” dos cubanos,anunciando ter sido demitido de seu emprego em Trindade, Goiás, para dar lugar a um agente de Fidel?

Pois chegaram os “cubanos” que iam tomar o lugar dele.

Chamam-se Welma Domingues, Adriano Raiter, Técio Rodrigues, Raquel Crespo e Ueslei Rodrigues.

Dos cinco “cubanos”, quatro nasceram no Brasil e uma, Raquel, é espanhola, nascida em Madrid.

Os cinco “cubanos” do Dr. Coxinha se conhecem desde os tempos em que eram estudantes na “fraca” Universidad Complutense de Madrid, uma universidade pública espanhola com “apenas” 504 anos de fundação.

Como eles são uns “despreparados”, também têm uma pós-graduação na Universidade de Coimbra.

Porque eles vieram?

A trajetória do grupo é semelhante: depois de formados na Espanha, foram trabalhar em Portugal. Eles contam que estavam empregados, com salários maiores do que os R$ 10 mil líquidos, mais a ajuda de custo mensal de R$ 2 mil, que receberão do Mais Médicos. Todos têm filhos pequenos e dizem que quiseram voltar ao Brasil para ficar perto da família. A crise econômica em Portugal e Espanha também pesou:

— A crise ajudou a pensarmos no futuro dos nossos filhos — disse o médico gaúcho Luís Adriano Raiter, de 39 anos.

Casado com uma médica nascida em Tocantins e também formada na Espanha, na cidade de Cádiz, Luís Adriano tem dois filhos, de 3 e 5 anos. A mulher dele é outra que virá para Trindade na próxima leva de profissionais do Mais Médicos.

Que coisa, Dr. Coxinha, a “invasão cubana” não acabou! Virão mais destes “comunistas de Fidel”!

Mas os “cubanos” de Trindade têm um problema.

O CRM não lhes deu o registro necessário para que possam trabalhar.

Para fazer aquilo que o Dr. Coxinha acha difícil, e eles não.

Para cuidar de pessoas que eles acham que são a razão de ser da medicina, e o Dr. Coxinha, não.

Porque os “cinco cubanos” de Trindade podem depender de um papel para exercer a medicina. Mas não dependem de papel nenhum para serem médicos de verdade.

O Dr. Coxinha tem razão no cartaz com que posou de “vítima”.

Não faltam médicos em Trindade.

Agora, não.


Por: Fernando Brito, do Tijolaço.

sábado, 31 de agosto de 2013

DESMONTANDO A “PEGADINHA” DA FOLHA (Ou seria melhor dizer o 'terrorismo' da Folha?)

O Fernando Brito já escreveu alguma coisa sobre a nova farsa da Folha, cuja manchete hoje é nada mais que um ataque político rasteiro à iniciativa do governo federal de ampliar o número de médicos por habitante no país. Mas O Cafezinho também fez pesquisas sobre o tema e levantou informações interessantes.

Em primeiro lugar, o ministro da Saúde avisou há tempos que o prefeito que demitir médico estará violando o acordo com o governo federal, visto que o objetivo do programa é ampliar o número de médicos no país. E a prefeitura acabará perdendo dinheiro porque o governo cancelará o convênio com a prefeitura que fizer isso. Agora, um programa dessa magnitude, num país com 5.500 municípios, necessariamente implicará em fatos dessa natureza. Se não há médico brasileiro querendo ir ao interior, é natural que haja médicos brasileiros no interior querendo sair, ou trabalhando de má vontade, sem cumprir expediente.

Entretanto, o problema me parece ainda mais grave que isso. Fui pesquisar, individualmente, todos os exemplos citados pela Folha, de prefeitos que estão, supostamente, demitindo médicos para substituí-los pelos profissionais enviados pelo Ministério da Saúde. E descobri que a Folha conseguiu escolher a dedo.

Vamos lá.

1) Coari.

O primeiro caso citado é o da cidade de Coari, no interior profundo do Amazonas. A reportagem da Folha diz o seguinte:
Um exemplo é Coari, no Amazonas, a 421 km de barco de Manaus, onde a prefeitura paga R$ 25 mil para médicos recém-formados e R$ 35 mil para os especialistas.

“Somos obrigados a pagar esse valor ou ninguém aceita. Vamos tirar alguns dos nossos médicos e colocar os profissionais que chegarão do Mais Médicos”, diz o secretário da Saúde, Ricardo Faria.

A prefeitura diz que vai demitir um médico de seu quadro para trocá-lo por outro que chegará já na primeira fase do programa federal.


Pois bem, fui pesquisar o prefeito de Coari, Adail Pinheiro, e quase me arrependi de tê-lo feito. O homem é o principal acusado da Operação Vorax, concluída pela Polícia Federal há alguns anos.

Leia esse trecho, extraído de matéria da Agência Brasil de junho de 2008;
Adail Pinheiro é apontado pela PF como o chefe do esquema responsável pelo desvio de, pelo menos, R$ 49 milhões dos cofres públicos. Segundo o delegado, não restam dúvidas sobre a participação dele no esquema de corrupção. Pinheiro foi indiciado pela PF pelos crimes de peculato, corrupção ativa, formação de quadrilha, favorecimento à prostituição, atentado violento ao pudor, sonegação fiscal e fraude em documento público. A organização criminosa é acusada de direcionar licitações, superfaturar obras e simular prestação de serviços para se apropriar de recursos repassados pelo governo federal e pela Petrobras referentes à exploração de petróleo e gás em Coari.

Ou seja, o prefeito entrevistado pela Folha é useiro e vezeiro em desviar recursos do governo federal, coisa que pretendia fazer agora com Mais Médicos.

Mas a coisa é ainda mais barra pesada. Pinheiro também se tornou o principal suspeito de chefiar uma organização voltada à exploração sexual de crianças. Como resultado paralelo da Operação Vorax, descobriu-se em Coari um sinistro esquema de pedofilia, e a Câmara dos Deputados criou uma CPI, presidida pela deputada federal Erika Kokay (PT-DF).


Mais notícias aqui. Dê um google com o nome do prefeito e “exploração sexual de crianças”, para vocês verem o nível do primeiro exemplo trazido pela Folha de prefeitos espertalhões que pretendem demitir médicos da cidade para substituí-los pelos oferecidos pelo Ministério da Saúde.

2) Lábrea.

Trecho da matéria da Folha:
“Plano igual ao de Lábrea (a 851 km de Manaus), que tem seis médicos. “Pago R$ 30 mil para cada um deles. [Substituí-los] diminuiria os gastos da prefeitura”, diz o prefeito Evaldo Gomes (PMDB).”

Outra cidade encravada no sertão amazônico. O prefeito Evaldo Gomes, do PMDB, só está no cargo por uma liminar provisória, depois de ter sido acusado de vários crimes eleitorais.

A denúncia do TSE descreve os seguintes fatos:
a) Denúncia de eleitores indígenas ludibriados por Mesários; b) Problemas técnicos na urna da Seção Eleitoral n° 002; c) Violação do lacre da urna da Seção Eleitoral n° 73 e o deslocamento da urna ao local de votação 4 (quatro) dias antes da data do pleito bem como fornecimento de alimentação a eleitores pelo Presidente da referida Mesa Receptora de votos para captar ilicitamente sufrágio em favor dos investigados; d) Entrega pelo Chefe de Cartório Eleitoral de mais de 300 (trezentos) títulos eleitorais a servidor municipal no mês de agosto/2012 para distribuição; e) Irregular parceria entre o Chefe de Cartório Eleitoral e o Prefeito Municipal; f) Reunião entre o Chefe de Cartório, o Prefeito Municipal e o primeiro investigado no dia 02.10.2012; g) Entrega irregular de 300 (trezentos) títulos eleitorais na região sul de Lábrea; h) Irregularidades consistentes no fato de terceiros votarem em lugar de eleitores.

E muitos outros.

3) Sapeaçu.

O exemplo desta cidade ocupa a maior parte da matéria da Folha. Trecho da matéria:
O prefeito de Sapeaçu, Jonival Lucas (PTB), confirma a demissão de Junice e a chegada de um profissional do Mais Médicos para substituí-la.

Lucas afirma que a médica deixará o cargo por não cumprir a carga horária estabelecida e que o substituto será um profissional brasileiro que já atuou naquela região do interior da Bahia.

“Já estávamos procurando outro para assumir o lugar dela”, diz o prefeito do município, que fala em “uma série de vantagens para o município” com o Mais Médicos.



Esse é um caso interessante, porque envolve a Coofsaúde, uma cooperativa de médicos que atua no interior da Bahia. As prefeituras contratam a Coofsaúde para fornecer médicos aos hospitais municipais. É uma terceirização lamentável do serviço médico, mas tudo bem. Acontece que, procurando na internet, descobri uma série de denúncias contra a Coofsaúde justamente por pagar supersalários a diretores de hospital municipais que fizeram convênio com a cooperativa.

Em Jeremoabo, houve denúncia de que o Hospital Municipal da cidade, apesar dos péssimos serviços oferecidos, e da falta de médicos, pagava quase 100 salários mínimos ao diretor da instituição. Foram publicados os contracheques do diretor.



A imagem está apagada, mas dá para ver que a “taxa da cooperativa” é quase R$ 2.000/ mês. No site da Coofsaúde, informa-se que a instituição surgiu em “agosto de 2005, fruto da união de um grupo de profissionais de saúde , com a finalidade de prestar serviços ,de forma legal e justa, atendendo aos princípios do cooperativismo e assumindo a responsabilidade na gestão de seus contratos junto ao poder público. Atualmente a nossa cooperativa possui mais de 1000 (mil) cooperados, mais de 30 (trinta) contratos com Prefeituras Municipais”

É óbvio que a Coofsaúde é uma parte totalmente interessada no fracasso do programa “Mais Médicos” do governo federal, visto que ele concorre diretamente para reduzir os lucros da instituição.  Fui conferir na cartilha da Coofsaúde e descobri que a entidade não tem “fins lucrativos”, mas tem “sobras”:

O que são sobras? A cooperativa tem lucro?

O que em uma empresa comum é chamado de lucro, nas cooperativas chama-se de sobras. Ao final de cada exercício fiscal é levantado o balanço financeiro da sociedade e, em caso de haver sobras, estas devem ser distribuídas igualitariamente aos sócios.


A cartilha informa ainda que o “cooperado” não tem nenhum direito trabalhista garantido. Não tem décimo-terceiro, FGTS, aviso prévio, férias remuneradas. Nada.

O autônomo cooperado tem direito a férias, 13° salário, aviso prévio e FGTS?

O prestador de serviço que aderir à cooperativa e, por estatuo da mesma, adquirir o status de cooperado, não é caracterizado como empregado, conforme artigo 442 da CLT, adiante reproduzido:

“Qualquer que seja o ramo da atividade da sociedade cooperativa, não existe vínculo empregatício entre ela e seus associados, nem entre estes e os tomadores de serviços daqueles”. Dito isto, fica claro que o cooperado não tem os mesmos direitos de um trabalhador celetista como as férias remuneradas, 13º salário, aviso prévio e FGTS.


Segundo o site Congresso em Foco, Jonival Lucas, agora prefeito de Sapeaçu, “foi um dos deputados denunciados pela CPI dos Sanguessugas. Responde ao processo 13226-30.2007.4.01.3600 na Justiça Federal de Mato Grosso pelos crimes de quadrilha ou bando, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.”

Em entrevista dada há pouco para o site Bahia Recôncavo, Jonival reafirma que Junice foi demitida por negligência, por não cumprir a carga de horário. E reforça que ela não vai ser substituída por nenhum cubano, mas por um brasileiro que já trabalhou na região, do programa Mais Médicos.

Neste caso, a fonte desqualificada nem é tanto o prefeito, e sim a médica entrevistada.

Nas redes sociais, internautas denunciam Junice: ele teria 3 vínculos públicos e 128 horas semanais de trabalho, o que provaria, naturalmente, que ela não está cumprindo efetivamente a carga horária de suas obrigações médicas.



4) Camaragibe.
“Dos quatro profissionais do Programa Mais Médicos a que Camaragibe, na região metropolitana do Recife, terá direito, apenas dois são novos. Os outros já estão na cidade e vão deixar de receber pela prefeitura para ter o salário pago pelo governo federal.”

A Folha informa, por fim, que a prefeitura de Camaragibe, Bahia, também vai substituir médicos próprios por profissionais contratados pelo governo federal. O prefeito da cidade é o Jorge Alexandre, do PSDB. Os servidores municipais tem acusado o prefeito de estar promovendo uma série de cortes de direitos adquiridos há muito tempo, e contratando pessoal sem concurso. O seu sindicato conseguiu que o Ministério Público publicasse uma recomendação ao prefeito para respeitar o plano de carreiras do município.

Me parece, portanto, que a prefeito Jorge Alexandre, é suspeito duas vezes nessa “pegadinha” da Folha. É de um partido adversário do governo federal, interessado portanto em desgastar a iniciativa do Ministério da Saúde. Tem um histórico de querer “economizar” cortando direitos dos funcionários, e agora vemos, também empregos, contrariando a orientação expressa do Ministério da Saúde, pela qual as prefeituras que demitirem médicos para receberem profissionais do programa serão cortadas do convênio.





quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Médicos cubanos e a dependência de empregada: os sentidos da mentalidade classemediana

28
AGO



Na década de 80, quando eu era uma criança, era muito comum as casas e apartamentos da classe média serem dotadas de “dependências de empregada”. Um lugar dentro da casa, mas fora da casa. Geralmente muito pequeno, ao lado da lavanderia, depois da cozinha, com um banheiro mínimo, apartado da casa, na área de serviço. Na ala dos serviçais. Apar(th)ada da família. Você obviamente não se surpreenderá ao saber que grande parte dessas funcionárias eram mulheres. Negras.

Às sete ou oito da noite, depois de lavar toda a louça e deixar tudo pronto para as tarefas do dia seguinte, ela se recolhia, geralmente para assistir uma pequena televisão em sua minúscula “dependência” – sua quase única diversão. As mulheres e famílias tinham por hábito perguntar, à pretendente ao cargo, se ela era “para dormir”, o que significava saber se ela poderia dormir no emprego. Gostavam de ouvir resposta afirmativa. Mas faziam questão de enfatizar que teriam folga para ver a família apenas uma vez por semana – ou a cada quinze dias, nos casos dos mais rigorosos.

Muitas dessas mulheres eram mães. E deixavam seus filhos pequenos com a própria mãe, com a sogra, com outros filhos maiores ou com amigos para poder encarar a jornada. E assim passavam-se dias, meses, anos. Vivendo em um 2 x 1, com uma diversão televisiva. 
Em toda minha vida, conheci apenas uma pessoa responsável pelos serviços domésticos e de organização de uma família, contratada (não familiar), que tinha seu próprio quarto junto aos demais membros de sua família – sim, ela era realmente da família. Um quarto confortável, bonito, como deve ser o quarto de um membro da família. Amada e cuidada com um membro da família, porque era o que ela era, é o que ela é.

Hoje, a coisa é muito diferente. As profissionais domésticas são mais reconhecidas, possuem direitos trabalhistas, valorizam-se por saberem disso e devem ser valorizadas como todo e qualquer profissional.

Fonte: A mulher negra e o feminismo
Muitos não se sentem à vontade com isso. Colocam a culpa do “empobrecimento da classe média”, que antes podia pagar uma empregada doméstica e hoje não pode mais, no governo. Muito claramente se percebe o que podiam pagar antes: um sistema quase escravocrata de trabalho, humilhante e ultrajante, de pouca ou nada valorização profissional. Muito claramente se percebe porque não podem pagar hoje: porque um profissional desse custa caro, tão caro quanto o seu próprio serviço – e quem, mentalidade classemediana, quer ter o seu próprio serviço comparado ao serviço de uma doméstica? Lavar banheiro não é para si. É para os outros. Enxergam um “empobrecimento da classe média” mas não a redistribuição da renda – coisa para o qual ainda estamos engatinhando...

Essas pessoas são totalmente contrárias à PEC (Proposta de Emenda Constitucional) das Domésticas. Um projeto de lei que prevê que funcionários que executam tarefas domésticas sejam remunerados como quaisquer outros: empregada doméstica, babá, motorista, etc. A PEC das Domésticas prevê, a esses funcionários, indenização em caso de ser mandado embora sem justa causa, seguro-desemprego, FGTS, salário mínimo garantido, adicional noturno, proteção ao salário, salário-família, jornada de trabalho de 8 h/dia e 44 h/semana, hora-extra, normas de segurança no trabalho, auxílio creche e pré-escola para filhos e dependentes até 5 anos, entre outros direitos básicos. Coisas que eu quero, você quer, todo mundo quer. Mas que o empregado ou a empregada doméstica não tinha direito de querer. E as pessoas de mentalidade classemediana são contra.

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Quando eu era criança, até mesmo adolescente, não tive amigos negros nas escolas de classe média que frequentei. Fui tê-los como colegas apenas quando meu pai foi mandando embora da multinacional que o empregava e minha família classe média perdeu quase tudo e virou classe média baixa, mais pra baixa que pra média. Passei por um choque de realidade extremamente benéfico para mim (embora tenha sofrido muito na época), e que considero o grande divisor de águas entre o que eu poderia ter sido e o que sou hoje. Da escola de classe média de garotos que se divertiam praticando bullying e garotas que falavam apenas sobre marcas caras de roupas, além de compararem seus tamanhos de seios e casas de praia, fui para uma escola estadual, período noturno. Lá conheci pessoas que viviam a vida como ela é. E tive colegas negros. Gente que trabalhava durante o dia e tentava estudar à noite. 

Estimulada positivamente por essa realidade e pela que eu própria vivia, comecei a trabalhar. Trabalhávamos durante o dia e estudávamos à noite. Tentávamos estudar, porque quase não tínhamos professores e quando os tínhamos, era como se não os tivéssemos, com exceção de dois: um cara muito dedicado, professor de filosofia, e uma professora de português. A maioria dos meus colegas de colégio público não tinham pretensões de ir a uma boa faculdade. Para que eu pudesse concorrer a uma vaga em uma universidade pública, precisei fazer um cursinho pré-vestibular, pago com muita dificuldade por minha mãe. Lá, meus colegas negros também eram a extrema minoria: de uma turma com 40, 3 negros. 

Focada que estava em ser aprovada em uma universidade pública, em função da impossibilidade da minha família de pagar por uma particular e porque era esse o meu objetivo, estudei todos os dias durante um ano das 6 da manhã à meia noite, obcecadamente. Quase sem vida social. Jamais desejarei isso a um filho, com a mentalidade que tenho hoje. Obviamente, para isso, parei de trabalhar e foquei nos estudos. Isso ainda era uma possibilidade na realidade que eu vivia, ainda que minha família estivesse passando por dificuldades. Fui aprovada em todas que prestei. E lá,  no seio da universidade pública, o novo choque: apenas duas colegas negras na minha turma. Sendo uma de Angola.

Onde estavam os negros? 
Pouquíssimos estavam nas universidades públicas como alunos de graduação, quando comparados com a maioria esmagadora branca.

Fiz mestrado em uma grande universidade. 
Sem negros no laboratório de pesquisa onde trabalhei. 
Três, no total, entre os três grupos de pesquisa dos quais fiz parte por lá. Três entre cerca de 30 alunos.

Fiz doutorado em uma universidade federal. Uma colega negra em um laboratório onde passaram mais de 15 pessoas durante os quatro anos em que estive lá. Poucos em todo o departamento.

Sou professora desde 2002. Lecionei em quatro universidades particulares diferentes de São Paulo e Grande São Paulo. Dei aula durante dois anos na Universidade Federal de Santa Catarina, para cursos como enfermagem, medicina, odontologia, farmácia, biologia, fonoaudiologia, e outros. Dou aula esporadicamente para as primeiras fases de alguns cursos da área da saúde. O número de negros? Aumentando exponencialmente. Resultado da política de cotas raciais no Brasil.

Logo que a cota para negros foi divulgada, vi nisso uma forma de discriminação ao próprio negro. Eu pensava: “Se eu fosse negra, não aceitaria! Eu gostaria de entrar por meu mérito, em igualdade de competição com os brancos! Isso me diminui!”. Mas acontece que se eu fosse negra, por mais mérito que eu tivesse, seria muito provável que eu não estivesse em igualdade de competição. Não por minha incapacidade, mas por uma desigualdade histórica que marcaria minha vida sim. Hoje, sou uma defensora das cotas para negros. Isso deu certo no Brasil e mudou a vida de muitas pessoas. Emociono-me de lembrar da minha aluna que foi oradora na formatura e que não conseguiu falar porque só chorava. Ao fim, disse apenas: “Obrigada pelas cotas...”. Foi dela um prêmio por melhor trabalho de iniciação científica em um congresso de sua área. Não lhe faltava mérito, talvez apenas faltaria oportunidade de acesso.
Mas muitas pessoas não pensam assim. Muitas pessoas são contra as cotas. Não por questões como a que mencionei, de suposta redução do mérito do negro. Mas por questão de preconceito e de discriminação racial (não gosto do termo racial). Claro que isso nem sempre é dito com todas as letras. Mas torna-se claramente identificável pela fragilidade de seus argumentos.

Muita gente de mentalidade classemediana é contra as cotas porque não enxerga qualquer desigualdade entre negros e brancos. Não porque não exista. Mas talvez porque nem enxergue verdadeiramente o negro... Usa-se do argumento de que isso é ruim inclusive para o negro, porque não o ensina a pescar, oferece logo o peixe.

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Gente de mentalidade classemediana também não gosta do Bolsa Família, já reparou? E geralmente usa o mesmo argumento do “Não dê o peixe, ensine a pescar”.

O Bolsa Família é um programa de transferência de renda, uma busca muito distante ainda pela tal redistribuição da renda, algo voltado a combater a pobreza e a extrema pobreza, voltado para mais de 15 milhões de brasileiros que tem renda familiar per capita menor que R$ 70,00/mês. E que não podem morrer de fome enquanto se aprende a pescar... Você acha que entre esses 15 milhões de brasileiros existem muitos, muitos negros? Sim ou com certeza?

Mas gente de mentalidade classemediana é contra o Bolsa Família... Gosta da Bolsa Reuni, da Bolsa CNPq, da Bolsa CAPES, tem tara pela Bolsa Fapesp, sonha com a Bolsa do Ciência Sem Fronteiras... Mas Bolsa Família? Que é isso? Tá de brincadeira? “Isso aí estimula o ócio”. Algo como “Na teta do governo só mamo eu”.

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Então essa semana começaram a chegar os médicos cubanos, você deve estar sabendo. A chegada deles faz parte do Programa Mais Médicos Para o Brasil, que não prevê somente a vinda dos médicos cubanos, mas a abertura de mais vagas de residência em medicina da família, o aumento da bolsa aos estudantes (ah, essa pode!), a abertura de cursos de medicina em áreas brasileiras que precisam disso. Mas só se fala na chegada dos cubanos...

Eles não precisam revalidar seus diplomas porque não ficarão aqui, apenas estão vindo em situação emergencial, para ajudar a oferecer assistência à saúde onde médicos brasileiros não foram – seja por falta de estrutura ou de interesse. E isso oferece uma forma de segurança ao médico brasileiro que está se sentindo incomodado pela vinda delas utilizando o falso argumento de “vão roubas as nossas vagas”, porque justamente por não terem diploma revalidado, só poderão prestar serviços nesta tarefa relacionada à Organização Pan-americana de Saúde. O fato é que, independentemente de não ter estrutura, não faltou interesse a esses médicos estrangeiros. Mas só se fala na chegada dos cubanos...

Falta muito médico no Brasil. Temos hoje no Brasil cerca de 1,8 médico por mil habitantes. Uma defasagem de quase 170 mil novos médicos para chegar a números como o da Alemanha (3,5/mil habitantes). Se você mora em São Paulo, Rio, Florianópolis, Porto Alegre, nem sabe disso, porque nesses lugares o número de médicos por mil habitantes, se não é, já se aproxima do ideal. Mas você está esquecendo de incluir em sua análise quase 80% da população... Pelo menos 13 estados brasileiros têm menos de um médico por mil habitantes... Mas só se fala na chegada dos cubanos...

Recomendo a leitura deste que é, em minha opinião, um dos melhores textos sobre a vinda dos médicos cubanos ao Brasil, de autoria de um dos maiores conhecedores da saúde pública brasileira e que é, também, médico: professor Marco Aurélio da Ros, que foi professor do programa de pós-graduação à qual estou atualmente vinculada e com quem tive a grande oportunidade de aprender algumas coisas. Leia antes de fazer qualquer comentário. Provavelmente sua dúvida também está contemplada neste texto.

E mesmo que a vinda dos médicos cubanos (e de outros países – mas só se fala nos cubanos!!) vá representar alívio para brasileiros pobres de mais de 700 municípios que não têm médicos suficientes, muita gente de mentalidade classemediana é contra. Mesmo que eles não representem concorrência profissional por não terem o diploma revalidado (a despeito da medicina cubana ser considerada a melhor das Américas, palavras do grande Marcão). Mesmo que eles não estejam se dirigindo aos grandes centros urbanos brasileiros, onde se concentram os médicos – e onde não sobram vagas.

O que é então que está incomodando?

O que há de diferente nos médicos cubanos que os fazem alvo da mentalidade classemediana e não os demais médicos, vindos de outros países?

Não vai me dizer que você acha que é uma coincidência o fato de toda essa violência, ira, ódio estar sendo destinada a um grupo composto, em grande parte, por negros?!

Não vai me dizer que você acha que é coincidência o fato de toda essa violência, ira, ódio estar sendo originada de gente que tem mentalidade classemediana?

Em um país que viveu mais de 300 anos sob regime de escravidão (com negros livres há apenas pouco mais de 120 anos), cuja classe média possuía até bem pouco tempo dependências para suas empregadas, muitas delas negras, cuja presença de alunos negros e indígenas nos cursos de graduação era escassa até que surgissem as ações afirmativas, onde famílias de gente branca de classe média (ainda que miscigenada) se comprazem em fazer piadas utilizando palavras como “negrinhos”, “de cor”, “escurinhos”, livremente, em um almoço de família, e riem juntos disso, você quer realmente que se acredite que não se trata de discriminação e preconceito contra o cubano?

Acorda, Pollyana!

Fonte 
Não é coincidência.
Somos um país de colonizados que pensam como colonizadores.
Somos um país de cidadãos miscigenados, muitos descendentes de africanos que foram aqui escravizados e que continuam a sofrer as consequências da violência e da escravidão. Somos um país de descendentes de indígenas, que tiveram suas terras griladas e viram seus conterrâneos exterminados em massa, e que continuam a ser, até que se extingam completamente, sob os olhos passivos da sociedade. Somos um país de descendentes de imigrantes que vieram lutar pela sobrevivência e deixaram para trás suas famílias e suas terras de origem. Somos um país de gente que já sofreu muito, inclusive nas filas à espera de médicos.
Somos tudo isso.

E somos também uma terra onde vive gente sofrida, no meio do qual saltam pessoas de mentalidade classemediana, bradando “ESCRAVOS! ESCRAVOS! ESCRAVOS!” para profissionais cubanos. Sem se darem conta da pequenez de seu gesto, do caráter xenofóbico de suas ações e de sua própria escravidão.

Fonte: "Médicas 'patricinhas' envergonham o Brasil" - Pragmatismo Político
Uma escravidão voluntária.
A escravidão da mediocridade.

Eles querem os cubanos! Dentro de suas dependências de empregadas.

Desculpem, senhores de branco que se intitulam doutores sem o ser, eles não estão disponíveis. Estarão muito ocupados em atender cidadãos que precisam de assistência à saúde. Lá, onde não há estrutura e onde professores dão aula embaixo de árvores.

Sejam bem vindos, companheiros cubanos! Que vocês possam ajudar quem está precisando, há muito tempo, de atenção médica. E que a prática de vocês possa inspirar o próprio governo brasileiro a valorizar os nossos bons médicos cidadãos. Que não são representados por tantas manifestações de preconceito, ódio e discriminação.

Somos muitas coisas. Mas não somos xenofóbicos.
Uma minoria não nos representa.

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus... 
Ó mar, por que não apagas 
Co'a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão? 
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...

E existe um povo que a bandeira empresta 
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?!... 
Silêncio!... Musa! chora, chora tanto 
Que o pavilhão se lave no seu pranto...

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra, 
E as promessas divinas da esperança...
Tu, que da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança, 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!...



Trechos de “Navio Negreiro”, de Castro Alves, como cantado por 
Caetano Veloso e Maria Bethânia


Ligia Moreiras Sena

Bióloga, mestre em psicobiologia, doutora e com pós-doutorado em farmacologia, área que deixei após me tornar mãe. Estimulada pela maternidade, mudei de área, de foco e de vida, e hoje faço um novo doutorado, agora em Saúde Coletiva. Sou pesquisadora da assistência ao parto no Brasil, da violência obstétrica e da medicalização da infância e do corpo feminino. Sou mãe da Clara e esse é o mais relevante dos meus títulos. Ela me inspira, todos os dias, a olhar a vida e os seres humanos por outro prisma, a lutar pelos direitos das mulheres e a conectar pessoas que buscam criar seus filhos de maneira afetuosa e não violenta.


Comentário do Senhor C.:

- Reproduzo este texto como forma de compartilhar com os amigos e com os leitores deste blog uma mensagem que me emocionou do começo ao fim. Um depoimento quase irretorquível de tão denso, profundo e, mais do que isso, transbordante de afeição pelo que somos, sem máscaras, sem pinturas e sem deslealdades. 

Tudo isso me tocou profundamente, a ponto de querer declarar ter muito orgulho, muita honra e muita alegria por sermos como somos: eu e meus amigos e companheiros, camaradas que compartilham uma mesma visão de mundo: ter uma vida digna e igual em oportunidades e direitos para todos, SEM DISTINÇÃO ALGUMA!

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Brasil não é uma porcaria. Vamos protestar, então?

Paulo Moreira Leite: "Os números do IDH
mostram para onde o país quer andar"
Reproduzo do Cronicas do Mota:

"O jornalista Paulo Moreira Leite, uma das vozes mais lúcidas deste país em que a insanidade prospera, escreveu artigo para o seu blog, intitulado "IDH é mosca na sopa conservadora", no qual aborda a relação entre as recentes manifestações de "protesto", os avanços sociais e econômicos conseguidos pelo país nos últimos anos, o recente Índice de Desenvolvimento Humano divulgado pelo PNUD, e a quem interessa disseminar a ideia de que o Brasil está uma porcaria.
O tema já foi abordado nestas "Crônicas" algumas vezes, mas sem o brilhantismo com que Paulo Moreira Leite o enfoca.
O assunto é um dos mais importantes para quem pretende discutir seriamente os rumos da jovem democracia brasileira e não ficar repetindo slogans ideológicos, muitos deles ancorados num passado sombrio.
Embarcar no discurso dos "formadores" da opinião pública, meia dúzia de mentes cooptadas pela oligarquia que domina os meios empresariais e não se conforma em ter perdido o Palácio do Planalto para os trabalhistas, é referendar o pensamento único que desgraça o Brasil desde sempre.
Os avanços só serão conquistados se as pessoas entenderem que, na maioria das vezes, o que se lê, o que se escuta, o que até mesmo se vê, nos meios de comunicação, não reflete a realidade, mas um simulacro dela, apenas uma pequena parte de um imenso painel formado por interesses, pressões, ideologias e preconceitos - um mundo inteiro que permanece oculto dos pobres mortais.
Bem, chega.
Sem mais, passo agora ao que realmente interessa, que é o artigo de PML."


No início de junho, quando o MPL foi às ruas pedir a anulação do aumento da passagem de ônibus, eu não poderia deixar de aplaudir. Era mais do que razoável.

Uma semana depois, quando a PM paulistana transformou o protesto num banho de sangue, as famílias se juntaram a seus filhos e netos para defender a democracia. Palmas para todos.

O que veio um depois é um processo contrário e confuso, cuja origem e consistência aguardam explicações.

As grandes cidades brasileiras foram ocupadas por multidões que criaram um novo ambiente político. Prefeitos, governadores e a presidência da República foram colocados contra a parede. O mesmo aconteceu com o Congresso. A violência e o vandalismo incluíram ataques ao Itamaraty, à prefeitura de São Paulo. Semanas mais tarde, o governador Sérgio Cabral enfrentou situação semelhante – e mais dura.

Protesta-se contra o que e contra quem?

Aplicando uma sociologia automática, a maioria de nossos analistas justifica os protestos a partir de uma analise apocalíptica.

Como se o Brasil fosse a Espanha em desmanche social, ou os Estados Unidos no pior momento da crise do pós-2008, explicou-se a mobilização, o “monstro”, “a rua”, como o movimento necessário num país em atraso insuportável, num momento histórico de tragédia. Só restava ajoelhar e rezar.

O problema é que a divulgação de dados sociais e econômicos mais recentes mostra que em 20 anos país progrediu de forma notável.

Num país que protesta, os dados merecem uma festa.

Falando de fatos objetivos: o Índice de Desenvolvimento Humano avançou 47,5% e saiu do nível “muito baixo” para se acomodar em patamar considerado “alto”. A desigualdade caiu, a expectativa de vida aumentou. A qualidade de vida tinha nível muito baixo em 85% das cidades. Esse número é de 0,6% em 2010. Pergunte a um estatístico qual a redução ocorrida. Prefiro uma imagem. Se antes ocupava 86 andares de um edifício de 100 pavimentos, o “muito baixo” agora não ocupa um único patamar inteiro. Deu para notar. Então repito: o que era 86 agora é menos do que 1.

O discurso oficial sobre os protestos talvez pudesse ser inteligível se essas melhoras tivessem ocorrido à margem do Estado, como obra do empreendedorismo de cidadãos abnegados num país de autoridades omissas e desonestas.

Errado.

O progresso ocorreu em 20 anos de regime democrático, o mais amplo e duradouro de nossa história, quando autoridades políticas são eleitas pelo povo e não escolhidas nos quartéis.

As mudanças para melhor ocorridas nos últimos anos se tornaram possíveis com a Constituição de 1988, que criou direitos sociais e definiu o combate à desigualdade e a luta por um sistema de bem-estar como um dever do Estado.

Dizia-se que isso era paternalismo, populismo. Olha a piada.

As ideias da turma do impostômetro, aquela que vive da denúncia do Estado, que quer sua redução de qualquer maneira, ficaram longe das melhorias. Foram inúteis, adereços teóricos à margem do movimento real do país.

Passamos as últimas décadas ouvindo que um Estado com recursos é um estímulo ao desperdício, ao desvio, à corrupção – um entrave ao desenvolvimento.

O grande salto ocorreu quando a receita do Estado subiu, passando de 24% do PIB para 36% hoje. Ao contrário do que dizia a ladainha preferida dos nostálgicos da ditadura e seus tecnocratas, para quem o “Estado não gasta muito nem pouco, gasta mal”, a maior parte dos recursos foi bem empregada.

Claro que houve a corrupção, o desvio. Também ocorreram falhas de visão, planejamentos estúpidos.

Mas é bom colocar o debate no eixo real, sem perder a noção de proporção das coisas.

Este progresso, que coincide com os governos de FHC e Luiz Inácio Lula da Silva, não merece ser debatido em termos de Fla-Flu.

Fernando Henrique foi capaz, sim, de garantir a estabilidade da moeda e condições mínimas para o funcionamento do Estado. Ajudou a consolidar o sistema financeiro, necessário para o desenvolvimento.

Mas o IDH não deu o salto – o que era 86 virou menos que 1 – porque se gastou pouco. Isso Roberto Campos já fizera em 64, com auxílio das baionetas militares.

A mudança ocorreu porque o Estado realizou ações em profundidade para favorecer a distribuição de renda, proteger o salário e os direitos dos trabalhadores, o financiamento do crescimento, o investimento no mercado interno. Se for para usar expressões econômicas, se FHC soube economizar, Lula soube dividir. São missões difíceis e desafiadoras.

Mas o debate não é pura economia.

Quando o mundo veio abaixo, em 2008, o governo brasileiro não reagiu com receitas clássicas de cortar despesas, encolher investimentos e jogar a miséria nas costas do povo. Recusou-se a transformar o Brasil numa Grécia. Rejeitou medidas tradicionais que iriam acelerar a recessão. Comparando a reação do governo FHC às crises e a reação de Lula, um estudo da Organização Internacional do Trabalho, OIT, notou a diferença. No governo do PSDB, tomavam-se medidas que favoreciam o ciclo da atividade de econômica. Crescer quando o mundo crescia, cair quando o mundo caia.

No governo Lula, agiu-se no contra-ciclo. Se havia o risco de recessão, investiu-se no crescimento, para impedir que o país fosse abaixo

O último ano do IDH é 2010, final do mandato de Lula, quando o país crescia a 7% e a maioria das políticas sociais do país de hoje amadureceram.

Falando com clareza: os dados do IDH, que retratam um período que se encerra em 2010, registram uma colossal derrota do pensamento antidemocrático brasileiro. Não sobra nada. E é por isso que, mais do que nunca, este pensamento se volta contra a democracia. Nesse terreno, da liberdade, do confronto de ideia, ele tem dificuldade para vencer. E isso é imperdoável.

Querem interromper a história, para tentar que seja reescrita.

E é esta a questão que se coloca agora.

O país vive um ambiente de protesto e mobilizações radicais como há muito não se via.

Até o governo admite que ocorreram omissões importantes e casos graves de incompetência na definição de políticas públicas. Políticas urgentes – como a saúde pública – só foram definidas com atraso.

O mesmo se pode dizer para a educação e outras melhorias urgentes. Mas é bom tomar cuidado com crises artificiais e pensar quem ganha com isso.

É bonito falar em gestos “simbólicos” que em teoria se destinam a “denunciar o capitalismo,” como quebrar vidraças de bancos. Mas é muito mais efetivo, do ponto de vista do povo, reduzir a taxa de juros e ampliar o crédito popular, por exemplo.

Nós sabemos que a violência policial é uma tragédia que atinge tantas famílias brasileiras. Deve ser apurada, investigada e punida.

O caso Amarildo é uma vergonha sem tamanho.

Mas vamos combinar que no Rio de Janeiro, Estado onde se constroem as UPPs, a primeira resposta coerente de autoridades brasileiras ao crime organizado, o ataque indiscriminado à polícia é uma forma de dar braço às milícias, aos bandidos, aos grandes traficantes, certo?

Tudo isso em nome do que mesmo?

Não é difícil saber o que é melhor – ou menos ruim – para o povo.

Com a baderna estimulada, glamourizada, estamos falando em ações que, cedo ou tarde, irão estimular operações repressivas de maior envergadura. E aí, como aconteceu nos protestos contra o aumento dos ônibus, nós sabemos muito bem quem serão atingidos e prejudicados pela falta de liberdade.

Isso porque o clima de baderna ajuda a tumultuar o sistema político.

A eleição de 2014 está aí, quando o eleitor terá a oportunidade de fazer seu julgamento e suas opções. Os protestos mudaram o jogo e podem mudar muito mais.

Há um movimento subterrâneo em curso, porém.

O que se quer é apagar a redução de 86 para menos que 1 e fingir que ela não ocorreu.

O estímulo direto às manifestações mostra até que ponto a turma do Estado mínimo pode caminhar em seu esforço para barrar um processo que contraria interesses materiais e convicções ideológicas. Pode até fingir-se de anarquista.

A presença ambígua de agentes de vários serviços de informação nas mobilizações ameaça ganhar um caráter perigoso, imprevisível, como acontecia às vésperas da grande derrota democrática de 1964, quando marinheiros, cabos, sargentos foram infiltrados para jogar sua energia contra o governo João Goulart.

Alguns eram reacionários bem treinados, prontos para ajudar a serpente da ditadura em seu veneno. Impediam acordos, soluções negociadas e pactos construtivos. Outros eram jovens radicalizados, estimulados ao confronto direto por uma compreensão errada da conjuntura e suas armadilhas, como aconteceu com tantas lideranças respeitáveis ligadas ao movimento operário e popular.

Os números do IDH mostram para onde o país quer andar. Também apontam um caminho. Só não vê quem não quer.