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sábado, 19 de novembro de 2011

A centésima postagem!




Anotações do Senhor C;:


- Desde o começo, esta atividade foi tomando forma e, devagar, bem devagarinho, foi se tornando um hábito. E assim, sem que eu mesmo percebesse os dias foram se preenchendo com uma nova rotina que começa e se espalha por todos os horários livres do dia. Percorrer os sítios de notícias, as fontes confiáveis e selecionar os temas que julgo de interesse para, sem que o notasse, prestar um serviço aos leitores. Os critérios de escolha são aleatórios, mas nada randomizados. São os temas com que me implico, as idéias que comungo, as opiniões que julgo interessantes. Mas os textos têm em comum a perspectiva crítica, de serem reflexivos, de apontarem opiniões e argumentos. Sem neutralidade, mas sem apologia cega. 
Enfim, sem que percebesse, neste mês, pouco mais de transcorrida sua metade, atingi a marca de 100 postagens. Por isso, quis que esta tivesse um tom mais pessoal. Uma forma de 'falar' com os visitantes e leitores. Espero que a crescente taxa de visitas possa estimular alguns de vocês a fazer devolutivas, postar comentários e críticas. E ajudarem da deixar o Lírio sempre Verde, como os lírios que crescem na Serra da Borborema.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.



VERSÍCULOS IMPERTINENTES


Quem contempla a imensidão da cidade defronte?

Quem consegue sorrir diante da indigna situação?

Quem ousa pronunciar o nome daqueles que forjaram e fraudaram e sequer foram importunados?

Quem se importa com isso, afinal?

Quem acorda todo santo dia e vai por a máquina do dinheiro para funcionar?

Quem aciona os mecanismos da injustiça social?

Quem se recosta na poltrona confortável do santo domingo sem qualquer remorso pelas falcatruas paridas durante toda a semana?

Que m repara que há cada vez mais mendigos na rua?

Quem caminha solitário nas noites soturnas em que amantes se matam de tanto amor?

Quem trafega pela contramão?

Quem enfrenta os leões e as hienas que parecem ter fugido do zoológico mas não passam de transeuntes habituais?

Quem pede perdão pelos insones?

Quem ajoelha e reza sem se perguntar qual é o santo do dia?


Perguntas!!

Apenas perguntas vadias a vagar pela noite sob o plenilúnio.

Mas que não esperam respostas.



quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

" É preciso viver o hoje, tal qual se nos apresenta. Sem desesperos, algaravias, desencantos, impaciência, angústias. Confiar no hoje é, antes de tudo, estar pronto para o amanhã. Serenamente. E que virá independentemente de qualquer ação nossa. O futuro é o amanhã do hoje, mas dele não se despega como uma casca que se arranca de um fruto. E logo se tornará presente quer o aceitemos como tal ou não. Mas não se conclua, por isso, que propomos uma atitude fatalista ou impotente diante da inexorabilidade dos dias. Ao contrário. Diante da intangibilidade do futuro, parece aconselhável e adequado pensar o hoje como momento de um percurso de transformação, assim como o passar das horas no relógio parece acompanhar a transformação do dia em noite, e o sol no poente dá lugar a chegada da noite e sua lua, e mesmo essa já tem como certo que logo será seguida de novo pelo sol que se levanta inaugurando outro dia. É inútil querer deter o passar das horas e, decerto, seria tachado de insano ou tolo aquele que se entregasse à tamanha ilusão. Aceitar, pois, a possibilidade do que não pode ser mudado, e entregar-se ao deleite do fluxo da vida é se imiscuir no seu seio e se tornar passageiro do transporte de seu tempo, ao mesmo tempo guia e agente da viagem. É uma atitude de recusa à recusar-se. Duro, mas necessário exercício de praticar o desapego.


Fragmento provavelmente escrito nos portais do tempo, quando o Senhor C. viu maravilhado a transformação do ontem em hoje.

sábado, 30 de julho de 2011

Para os partisans da integralidade!

Notas de leitura do Senhor C.:

Um livro excelente é como um bálsamo, um tônico, um estimulante vital! Livros são como mensageiros. E mais especiais são, justamente, por nos levarem ao exercício de pensar, tanto quanto ao movimento de ler, pois pensamos enquanto lemos. É praticamente impossível haver uma coisa sem a outra, mesmo que seja naqueles momentos em que a leitura segue mecanicamente as linhas e as páginas, e nosso pensamento vagueia distraído. Ainda assim, estão lá o pensar e o ler! E a despeito de que pareçam distantes ou dissociados, caminham juntos pelas mesmas trilhas - de tramas complexas e infinitas - do caminho do conhecimento!



Muito além de um poema - X

da correspondência pessoal do Senhor C.:

- Outro dia, chegou-me novamente às mãos uns versinhos curtos do jovem poeta que me escreve cartas! Resolvi compartilha-lo com os visitantes deste blog.



Aporia


Cabe à janela

Aberta ao mundo, 

conter a paisagem?



sexta-feira, 15 de julho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.



Cordel em prosa para um amigo que sofria

A sensação lhe chegou como de costume! Parecia velha hóspede a se instalar em seu peito e dilacerar seu coração. E ali estava ele de novo possuído por ela. Como das outras vezes parecia completamente perdido sobre o que fazer. Nessas horas mais parecia o eterno menino que apregoava existir dentro de si. Mas do que exatamente uma atitude, era seu lema de ação. Quase sempre mantinha acesa a chama da fantasia e da esperança vã que habita os corações e mentes dos que são jovens e imaturos. Era uma espécie de devir a que se entregava com ímpeto e denodo. Tudo nele parecia fluir como uma pena de pássaro flui espetacularmente solta ao vento. Entregue a circunvoluções em ritmo e direção num desenfreado ir e vir.

Desesperadamente durante os últimos meses dividira-se entre o desejo e a obrigação. Submetera-se a ambos num jogo quase sórdido de tão determinado. Passava os dias dividindo a semana em duas metades desiguais. Na primeira ansiava pelo raiar do sol de toda segunda-feira; ocasião em que partia rumo ao desejo mais ardente. Na segunda, madrugava aos sábados para uma curta temporada que incluía o domingo; dias em meio aos quais cumpria as obrigações com firmeza e impaciência.

E de repente, viu seu duplo mundo ruir como um castelo de cartas. Agora, sozinho na noite deserta e fria, reflete sobre o que fazer mas só encontra um silêncio em resposta às questões que explodem de seu peito em direção a cabeça. E agora, se pergunta. Como rapidamente e sem dor preencher o vazio que lhe deixou a decisão comunicada. Foi dela a iniciativa. Mas, a despeito de concordar com os motivos que a levaram a romper um relacionamento como aquele - justo aquele que mais o convidava a ser o seu mais íntimo, o mais ardente, o mais impulsivo, o mais desavisado, o maus apaixonante; justamente este era agora tratado como problema a ser resolvido, ou melhor, medicado. E era justamente aí que lhe apareciam os maiores nós da resistência. Uma relação com aquela, um amor como o seu não podia ser considerado uma espécie de droga ou vício, para a qual se propunha uma ação medicalizadora, do tipo prevenção contra danos maiores e futuros.

E agora, estava ali, sozinho, sem ânimo, triste, feito a própria interrrogação em pessoa. Olhava tudo, andava para lá e acolá. Até tentara arrumar um pouco as coisas que largara ao longo dos dias e noites, mas constatou que não passou de esforço em vão. Inábil tentativa de ocupar o vazio. Ocupe a sua mente, se animava. Não deixe nenhum espaço-tempo vazio, para não se entregar ao ócio destrutivo. Não adiantava. Algum mecanismo dentro de si encontrava-se rompido. Alguma coisa dentro de si ruía em silenciosa desconexão. E era essa a sensação que mais julgava superada. Nunca mais a havia encontrado.
Em meio ao torvelinho dos pensamentos que o assaltavam - misto de saudade, recusa, teimosia e doce resignação - perseguia-lhe também a dificuldade de encontrar-se assaltado por uma emoção que julgava mais própria de outras idades que não a sua; que julgava perdida e desencontrada no tempo, portanto. Mas era exatamente, ela, sua velha conhecida que se alojara feito dona do seu coração. E como velha conhecida, parecia conhecer cada cantinho em seus mínimos e máximos detalhes. Difícil afastar habitante tão indesejado!



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Fragmentos dos diários políticos do Senhor C.

Reflexões irrefletidas:

- Para onde caminha a ecologista de primeira hora, a senhora Marina Silva, agora ex-integrante do Partido Verde?

- Em que paralelas se traçam os infinitos encontros de trajetórias políticas como as dos que se reúnem em torno da condição de ex?
- Como explicar convergências eleitorais e políticas entre um ex-presidente da união nacional dos estudantes (UNE) e o ex-secretário de planejamento das forças conservadoras e negocistas que governaram (governam?) a maior cidade do país?
- O que faz próxima deles, uma militante das causas ambientalistas, que saiu da floresta pelas mãos da defesa da Amazônia e dos santuários ecológicos, porém vestida com os mantos da cruzada evangélica e missionária da religião?

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

Alguns leitores têm ficado curiosos - quem é Silvino Olavo?. Outro dia, um visitante destas mal traçadas páginas me recomendou as seguintes notas informativas.

"Vejam o que se disse sobre Silvino Olavo.


Não poucos foram os escritores que comentaram as obras de Silvino Olavo, poeta esperancense (1891-1969). Desde o seu amigo e colega de redação Samuel Duarte, até ilustres paraibanos como José Lins do Rego.
As suas obras, longe de serem polêmicas, causavam sempre um affair pelo tom poético e cultural que girava em torno de seu autor.
Na “Revista de Língua Portuguesa”, há a seguinte anotação:
“O autor de Sombra Iluminada, Silvino Olavo, embora mais variado na inspiração de suas poesias, não tem também nenhuma nota vibrante e forte. É igualmente um melancólico. Todo o seu livro se faz de meios tons de uma suavidade encantadora” (p. 124).
E numa outra passagem lemos:
“Em versos, pelo menos, Silvino Olavo não manifesta outro sentimento” (p. 124).
E ainda sobre “Sombra Iluminada”, encontramos:
“Quem sabe se esse estímulo que sente Silvino Olavo, não lhe vem de certo instincto divinatório?” (Os de hoje: figuras do movimento modernista brasileiro, p. 254).
E no livro de Joacil Pereira:
“muitos dos iniciantes desse tempo áureo da nossa publicística, vários deles inteligências primorosas, dentre tantos, Silvino Olavo da Costa que feneceu de súbito após girar, como meteoro, o espaço percorrido com Cisnes e Sombra Iluminada;” (p. 127).
Enquanto Eduardo Martins ressalta as dificuldades de se publicar um livro:
“Francisco Souto falou-me na possibilidade de pedir um crédito especial para editar as obras de Silvino Olavo. Tudo dependerá dos recursos disponíveis...” (p. 58).
Dulce Mascarenhas comenta:
“A Silvino Olavo, Chiacchio chama de 'contemplativo sentimental', louvando-lhe os versos” (p. 68).
E Pedro Calmom (1902-1985), escreve em suas memórias:
“Silvino Olavo, cujos versos, n'A Época, o elevavam aos cimos do Parnaso...” (p. 105).
E mais adiante ele acrescenta:
“poetas, como Silvino Olavo e Rego Monteiro, abriram para o firmamento, e nós para a erudição. Ganhávamos no meio acadêmico o respeito que a precocidade impunha” (p. 117). Por fim, escreve “Quanto a turma... Nela adquiri, com o livro de contos publicados em 1923 por Monteiro Lobato, o conceito de escritor precoce. Alguns colegas quiseram me por orador da formatura. A maioria indicava Silvino Olavo, que além de poeta inspirado tinha a vantagem de não ser aluno transferido. Surgiu aí a conciliação: Silvino o orador” (p. 132).
Estas são as impressões que diversos autores extraíram do poeta e intelectual Silvino Olavo; apresentando-nos como um homem culto e de uma mente brilhante".
Rau Ferreira

Fontes:
- Jornal “A União”, janeiro de 1928. Acervo da Biblioteca Municipal “Dr. Silvino Olavo”;
- FERREIRA, Rau. Silvino Olavo. Esperança/PB. Epgraf: 2010;
- GURJÃO, Eliete de Queiróz, Morte e vida das oligarquias. Editora Universitária, Universidade Federal da Paraiba, 1994;
- VITOR, Nestor. Os de hoje: figuras do movimento modernista brasileiro. Editora Cultura Moderna, 1938, p. 254;
- PEREIRA, Joacil. José Américo de Almeida: a saga de uma vida. Editora Instituto Nacional do Livro, 1987, p. 127;
- MARTINS, Eduardo. A União: jornal e história da Paraíba, sua evolução gráfica e editorial. 2ª Edição, Editora s.n., 1977, p. 58.
História Esperancense - http://historiaesperancense.blogspot.com Conteúdo protegido pela Lei de Direitos autorais (Lei nº 9.910/98)

terça-feira, 5 de julho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

Em busca da Felicidade


" - Gostaria de poder, um dia, discutir o que faz a felicidade dos homens. Decerto, são muitos os prismas pelos quais se pode ver a questão se os homens são, e podem ser, felizes. Mas, qualquer que seja o escolhido, por qualquer um se pode ver que a felicidade é uma filha dileta das circunstâncias. Alguém que tenha fome, ficará feliz em se alimentar. Quem quer que tenha sede, ficará feliz em beber, e assim por diante. Mas, logo a fome e a sede voltarão novamente, trazendo consigo a angústia de termos que obter o alimento e o líquido saciadores, o que significa dissipar a felicidade anterior. Portanto, a felicidade não consiste em satisfazer as necessidades mais óbvias, somente.
Alguém poderá se dizer feliz por possuir bens, dinheiro e riquezas de toda ordem. Mas estes também são perecíveis, e trazem consigo a angústia de preservá-los e guardá-los a salvo dos outros; motivos e preocupações suficientes para nos fazer infelizes.
A felicidade parece estar nos amigos. Mas o homem é um ser capaz de bons e maus propósitos. Assim, bons amigos podem se tornar inimigos, ou adversários. E, portanto, também a felicidade é prisioneira deste imponderável. 
É na liberdade que reside a felicidade! Se pode ser livre pela ausência de padecimentos físicos, de necessidades básicas, de posses materiais, Mas quem é livre realmente, se não se pode fugir dos próprios pensamentos e desejos? A única coisa de que um ser livre, tal como o entendemos livre, não pode fugir é de seus próprios pensamentos e desejos.
Então, é impossível ao homem ser feliz? Talvez, não! Talvez a felicidade esteja num pouco de tudo isso. Alimentos para o corpo faminto; água para a sede; amigos para o compartilhamento; posse de algo com certo desdém e desprendimento. Felicidade reside no nosso próprio eu - coagido pelas circunstâncias do desejo, da necessidade - e na sua atitude para com a vida, para com os outros, para consigo mesmo. Apenas isto!


Provavelmente escrito quando o Senhor C. peregrinava em busca do Santo Graal, acompanhando os cavaleiros medievais nas suas tolas Cruzadas.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

da correspondência pessoal do Senhor C.:

- Hoje, novamente, o correio chegou trazendo na bagagem mais uma poesia do meu jovem poeta. Vamos a ela:


NOTAS DA IMENSIDÃO DO TEMPO


Vês?!

Nem mesmo a velha senhora

conseguiu resistir

A gagueira, a surdez e a cegueira lhe vieram como solução

Um toque de charme

que a minha passagem lhe deixou no corpo como brinde!


Vês?!

A população toda está envelhecendo

mas tem agora amigos como nunca

pode passar as tardes a bailar

sem ver o ocaso do dia no horizonte distante.


Vês?!

E além de velhos, também lhes falta o ar

com que sofreguidão a vida lhes faz arfar

Vozes entrecortadas e rouquenhas que tentam

inutilmente, deter o fluxo de minha imensidão!



Provavelmente escrito no tempo em que os Correios entregavam correspondências no prazo e com baixa taxa de extravios, e cobravam preços compatíveis com a idéia de um serviço essencial. Agora, assumiram ares empresariais, preços de mercado, e padrão de qualidade abaixo da crítica.






domingo, 19 de junho de 2011

Fragmento de cordel em prosa para um amigo que sofria:


"E agora, estava ali, sozinho, sem ânimo, triste, feito a própria interrrogação em pessoa. Olhava tudo, andava para lá e acolá. Até tentara arrumar um pouco as coisas que largara ao longo dos dias e noites, mas constatou que não passou de esforço em vão. Inábil tentativa de ocupar o vazio. Ocupe a sua mente, se animava. Não deixe nenhum espaço-tempo vazio, para não se entregar ao ócio destrutivo. Não adiantava. Algum mecanismo dentro de si encontrava-se rompido. Alguma coisa dentro de si ruía em silenciosa desconexão. E era essa a sensação que mais julgava superada. Nunca mais a havia encontrado.


Em meio ao torvelinho dos pensamentos que o assaltavam - misto de saudade, recusa, teimosia e doce resignação - perseguia-lhe também a dificuldade de encontrar-se assaltado por uma emoção que julgava mais própria de outras idades que não a sua; que julgava perdida e desencontrada no tempo, portanto. Mas era exatamente, ela, sua velha conhecida que se alojara feito dona do seu coração. E como velha conhecida, parecia conhecer cada cantinho em seus mínimos e máximos detalhes. Difícil afastar habitante tão indesejado!"



(da Correspondência pessoal do Senhor C.)











sábado, 18 de junho de 2011

Fragmento de cordel em prosa para um amigo que sofria:



da Correspondência pessoal do Senhor C.


"E de repente, viu seu duplo mundo ruir como um castelo de cartas. Agora, sozinho na noite deserta e fria, reflete sobre o que fazer mas só encontra um silêncio em resposta às questões que explodem de seu peito em direção a cabeça. E agora, se pergunta. Como rapidamente e sem dor preencher o vazio que lhe deixou a decisão comunicada. Foi dela a iniciativa. Mas, a despeito de concordar com os motivos que a levaram a romper um relacionamento como aquele - justo aquele que mais o convidava a ser o seu mais íntimo, o mais ardente, o mais impulsivo, o mais desavisado, o maus apaixonante; justamente este era agora tratado como problema a ser resolvido, ou melhor, medicado. E era justamente aí que lhe apareciam os maiores nós da resistência. Uma relação com aquela, um amor como o seu não podia ser considerado uma espécie de droga ou vício, para a qual se propunha uma ação medicalizadora, do tipo prevenção contra danos maiores e futuros".


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Muito além de um poema VIII

QUEDA


Há um cume que só se atinge na queda
Queda num cume: confusa emoção!
Nada há nele, nem nela, a que se agarrar
Paredes tão lisas; imagens de imersão

Àqueles que atingem o cume da queda
Verão  luzes e sombras informes?
Beleza confusa, reflexo e paixão
Perderão o receio de velejar ao infinito?


terça-feira, 7 de junho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.



"As vezes, não consigo compreender como as pessoas estão sempre se deixando atordoar pelo cultivo de sentimentos egocentristas, que as leva a desenvolver um certo desprezo pelo coletivo e pelo respeito a seus semelhantes. Da observação das atitudes de muitos seres humanos, no cotidiano e em torno dele, percebo que o Homem mergulha, cada vez mais, na profundidade de um egoísmo que, muitas vezes, chega a parecer inerente à própria condição humana. Entretanto, não esmoreço em confiar que, ao contrário do egoísmo, é do cultivo de outros valores humanos como a humildade, o respeito ao próximo, a confiança e o amor ao outro, que poderá a humanidade emergir do caos em que parece cada vez mais se enfiar.


Não consigo conceber a felicidade individual! Como pode alguém viver tranquilo e feliz sabendo da existência de fome, misériia, e exploração ao seu redor. Precisa a sociedade corrigir seus defeitos,m as acredito que esta tarefa será sobejamente facilitada quando em cada indivíduo germinar um broto de contínua evolução e aprimoramento de personalidade, que advém do cultivo de bons propósitos, urbanidade, sociabilidade, e de valores como justiça, bondade e comportamento reto e eticamente irreprovável.. Desenvolvimento centrado numa base de tolerância e humildade, e perfeita integração com os outros seres humanos, pois que somos todos uma coisa só. No entanto, a grande maioria se põe em paralisia, a interrogar: mas como isto será possível?"





Comentário provavelmente escrito numa manhã ensolarada, enquanto o Senhor C. caminhava resoluto, a enfrentar o açoite do vento gelado e rodopiante que soprava das montanhas geladas do Nepal, em direção às savanas russas.


Muito além de um poema - V

da correspondência pessoal do Senhor C.

- Eis que, num dia frio que veio do frio, me chegou pelo correio o poema que transcrevo abaixo:


RETRATO EM 3 X 4


Três trastes tristes,
Trágico!

O palhaço sorriu
E nós passamos.

Éramos três,

alegria,
felicidade.
êxtase!

Mas somos quatro, agora!

Agora, quatro,
quatro quadrantes,
quadrados quietos!

Quedamos inquietos
(In)constante
Inquietude!

de um jovem poeta.









quinta-feira, 2 de junho de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

Outro dia, recebi de um jovem poeta, a seguinte mensagem:



A LEI DO SILÊNCIO




Nada é possível se permanecemos calados?

Como ficar entregues a pensamentos inomináveis?

É difícil se imaginar assim quietos no meio do som?!

Quem diria?

No meio do som estamos sempre indo embora

Preenchidos e invadidos pela melodia que ocupa tudo

tímpanos, cérebro, nossa alma, nós, em desatino andante

Os automóveis nas ruas atropelam notícias

E nem se importam com o que possa ter sobrado

Mas se pudessem sentir e contar, diriam:

(sabem todos os que preferem o entorpecimento dos sentidos

que as máquinas parecem proporcionar)

- Viva o ronco, viva o ruído,

viva o ensurdecedor barulho de todas as vozes

Que nada dizem e se atravancam ao tentar

o mergulho coletivo no vale profundo

Que sempre começa quando se escolhe calar!


sábado, 28 de maio de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

Notas sobre a vida


"O que é mais importante: permanecer ou mudar? É provável que permanecer na afirmação de alguns pensamentos básicos, procurando com isto mostrar-se coerente, eliminar as contradições, seja ou pareça coisa fácil. 
O difícil é a coragem de mudar, de adaptar-se às novas circunstâncias, mesmo que tenha de negar o que já foi afirmado com veemência.
O homem de luta, principalmente se sua luta é pelo homem, não pode escapar às contradições. 
A realidade é mutável e, muito mais ainda, a realidade que constitui as condições do humano, de sua realização plena e integral. 
Lutar significa, então, viver as oposições e abdicar, para sempre, de toda coerência. Afinal, o que hoje liberta, pode ser o que oprime amanhã. O que agora é justo, poderá ser o injusto. O que agora é forte, amanhã enfraquece; o que é hoje certeza se desfaz em dúvida. O sólido também se desmancha no ar!
Basta, portanto, de absolutização!"

Anotações sobre leituras de Albert Camus


Provavelmente anotado quando o Senhor C. contemplava embevecido o lento maturar da flor do algodoeiro, numa manhã de outono/inverno, a esperar a colheita dos capuchos. No tempo que a infância seguia célere o ritmo da vida e se transformava na agonia do adolescer.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.



E agora, estava ali, sozinho, sem ânimo, triste, feito a própria interrrogação em pessoa. Olhava tudo, andava para lá e acolá. Até tentara arrumar um pouco as coisas que largara ao longo dos dias e noites, mas constatou que não passou de esforço em vão. Inábil tentativa de ocupar o vazio. Ocupe a sua mente, se animava. Não deixe nenhum espaço-tempo vazio, para não se entregar ao ócio destrutivo. Não adiantava. Algum mecanismo dentro de si encontrava-se rompido. Alguma coisa dentro de si ruía em silenciosa desconexão. E era essa a sensação que mais julgava superada. Nunca mais a havia encontrado.

Em meio ao torvelinho dos pensamentos que o assaltavam - misto de saudade, recusa, teimosia e doce resignação - perseguia-lhe também a dificuldade de encontrar-se assaltado por uma emoção que julgava mais própria de outras idades que não a sua; que julgava perdida e desencontrada no tempo, portanto. Mas era exatamente, ela, sua velha conhecida que se alojara feito dona do seu coração. E como velha conhecida, parecia conhecer cada cantinho em seus mínimos e máximos detalhes. Difícil afastar habitante tão indesejado!





Provavelmente escrito quando o senhor C. peregrinava nas ruas da Vecchia Signora, indeciso entre degustar una bella massa ou comprar a passagem de volta.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cartas encontradas (1)

da Correspondência pessoal do Senhor C.

"Caro Senhor C.

Gostaria de fazer um balanço ao final de cada ano passado de nossa vida. Um ano é sempre um tempo positivo, no sentido de um período que se soma ao tempo decorrido. Um ano pode ser, também, um tempo de descobertas, um período de construções, tanto quanto podemos conta-lo como vida consumida, energia gasta que não volta nunca mais.


Descobri que junto com este ato de balanço, na verdade uma reflexão necessária, um hiato no movimento sem fim da coisa que se vai, se definha, se consome, é possível se perceber o quanto podemos gostar de nós mesmos, na exata medida em que isso pode ser medido pelo quanto os outros gostam da gente mesmo, e também quantos novos gostadores passaram a fazer parte deste rol. Antes de mais nada, é o que importa mesmo a cada ano que passa: aumentar a lista dos nossos gostantes, seduzir novos amigos e introduzir novos personagens na nossa vida, no nosso script, no nosso desempenho nos palcos. Uma atitude que pode até ser compreendida com olhos nefastos, e ao fim devassos, mas que pede um olhar de natural disposição para o tempo e seu transcurso. Assim, se aliamos simplicidade e autenticidade nos nosos atos, esta positividade certamente detém o fluxo incessante do tempo que se vai e arrasta nossa juventude transformando-a em velhice, a que alguns insistem em dar o nome de maturidade.


Este tipo de pensamento é o que adorna minha atitude de viver a vida. Simplicidade, autenticidade, jovialidade são as atitudes com que me coloco frente à vida, frente ao tempo. Com elas sou feliz, sou forte. Enquanto tal, não aceito a vida com a resignação dos conformados, dos fracos, dos indecisos; aqueles a quem é dado viver como se conduzidos por fios invisíveis de um condutor oculto acima do palco. Antes a enfrento como se cada dia fosse sempre o primeiro e o último de uma vida plena de existência, resistência e persistência."



Fragmentos dos diários perdidos do Senhor C.

E de repente, viu seu duplo mundo ruir como um castelo de cartas. Agora, sozinho na noite deserta e fria, reflete sobre o que fazer mas só encontra um silêncio em resposta às questões que explodem de seu peito em direção a cabeça. E agora, se pergunta. Como rapidamente e sem dor preencher o vazio que lhe deixou a decisão comunicada. Foi dela a iniciativa. Mas, a despeito de concordar com os motivos que a levaram a romper um relacionamento como aquele - justo aquele que mais o convidava a ser o seu mais íntimo, o mais ardente, o mais impulsivo, o mais desavisado, o maus apaixonante; justamente este era agora tratado como problema a ser resolvido, ou melhor, medicado. E era justamente aí que lhe apareciam os maiores nós da resistência. Uma relação com aquela, um amor como o seu não podia ser considerado uma espécie de droga ou vício, para a qual se propunha uma ação medicalizadora, do tipo prevenção contra danos maiores e futuros.

Provavelmente escrito na curta permanência do autor nos cantões suíços, enquanto durava a paz perpétua do Senhor Kant.