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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Música para saudar acontecimentos: Ceumar



Comentário do Senhor C.:

- Saudades!

O ressentimento e suas políticas



Edmilson Lopes Júnior
De Natal (RN)

Policiais observam loja de calçados incendiada durante a noite em Brixton High Street (Foto: Getty Images)


Quando as ruas de alguns bairros londrinos e de outras cidades inglesas foram tomadas por manifestações descontroladas de jovens e adolescentes, analistas apressados, não apenas na imprensa inglesa, tentaram ler os acontecimentos como uma espécie de versão britânica da revolta juvenil que abalou as estruturas autocráticas em diversos países árabes. A idealização durou pouco. As imagens de grupos saqueando lojas de produtos eletrônicos e roupas de grifes anunciavam mais um inverno fascista do que uma "primavera democrática".

Mas a idealização positiva da desordem, mesmo se em sinal invertido, continuou a ocorrer. Os que estavam tocando fogos em automóveis e lojas na Inglaterra, se não eram companheiros de batalha dos jovens árabes ou dos "indignados" espanhóis, eram a expressão do descontentamento com o desmonte das políticas sociais que estaria sendo levado adiante pelo governo conservador do Primeiro-Ministro David Cameron. Reagiam, mesmo que por meios equivocados, contra as investidas neoliberais. Até mesmo Nouriel Roubine, um analista econômico geralmente lúcido, caminhou por essa senda. Em recente artigo, cuja tradução encontra-se no Blog Viomundo, afirmou olimpicamente: "Manifestações populares, do Oriente Médio a Israel e ao Reino Unido - e logo também, sem dúvida, em outras economias avançadas e mercados emergentes - são todas provocadas pelas mesmas questões e tensões: desigualdade crescente, pobreza, desemprego e desesperança." É o tipo de construção que consola o espirito, mas diz pouco sobre a realidade. Ou, pior ainda, porque é meia-verdade (quem há de se contrapor que há um pouco disso tudo em cada uma dessas "manifestações"?) ajuda a encobrir o mais importante: a formulação de perguntas substanciais sobre os motores (e as singularidades) dos eventos.

Na Inglaterra, os conservadores saíram atirando com as armas fornecidas pelo seu ideário de sempre: a desordem seria o resultado de uma crise de autoridade, especialmente da família. E essa também é uma resposta enviesada, que contém alguma verdade, mas é profundamente limitada.

Há uma dimensão de fundo nos eventos ingleses que quase ninguém está tocando: o quanto há de ressentimento por trás das ações dos arruaceiros. Ressentimento que, à primeira vista, parece ter um viés étnico. Afinal, muitas das lojas atacadas pertenciam a indianos e paquistaneses. E alguns dos blocos residenciais incendiados eram moradias de imigrantes. Mas a dimensão étnica desse ressentimento também é uma cortina de fumaça. O ressentimento é contra o sucesso, contra o que dá certo. Obviamente, o êxito econômico daqueles que ontem viviam na miséria é uma realidade insuportável para os filhos da classe média decadente dos países do primeiro mundo, mas há algo mais: um ódio surdo contra os que lutam contra as adversidades e redefinem positivamente os seus destinos.

Esse ressentimento, algumas vezes, transborda para a vida política. A sua face mais vistosa é de direita: o nacionalismo do norte europeu. Outras vezes, especialmente na parte sul do hemisfério, alimenta um populismo autoritário, que busca se legitimar como "anti-imperialista" e de esquerda. Esse ressentimento é alimentado pelo medo do sucesso do outro. E esse outro pode ser tanto o imigrante asiático na Inglaterra quanto o magrebino na França. Mas também pode ser o êxito, em que pese os reveses econômicos presentes, de uma sociedade abertamente multicultural e com sólidas instituições e cultura democráticas como a norte-americana. Pode ser também o Estado de Israel. No ódio a Israel de muitos, mesmo quando transvestido de apoio à causa palestina, há o ressentimento contra algo que, quase que remando contra a lógica, deu certo: uma pátria, com instituições democráticas profundas, para os judeus. Como não se aceita esse sucesso, nega-se a legitimidade de Israel em se defender dos ataques terroristas contra o seu território e a sua população.

Em um livro intitulado "E se Obama fosse africano?", o grande escritor moçambicano Mia Couto, faz pequeno comentário sobre o genocídio perpetrado pelos hutus contra os tutsis em Ruanda. Afirma o grande romancista que, poucos anos antes do massacre de quase um milhão de pessoas no país africano, nenhum dos dois lados imaginaria que tal acontecimento fosse possível. Mia Couto também recorre à pobreza como causa explicativa eficiente. Quem conhece um pouco a história de Ruanda, sabe que a diferença étnica entre tutsis e hutus, acentuada ao nível de uma identidade oficial pelos colonizadores belgas, alimentou um ressentimento surdo que se transformou em política. A Rádio Mil Colinas, que funcionou como uma espécie de animadora tétrica dos hutus, guiando seus facões contra os tutsis, passou anos alimentando o ódio ao suposto sucesso e poder dos tutsis. Nessa emissora, os tutsis deixaram de ser reconhecidos como humanos, eram "baratas", portanto, sua eliminação seria não apenas desejável, mas também necessária.

Não estamos imunes, em nenhuma parte do mundo, a esse ressentimento e ao seu transbordamento para a política. No Brasil, o regionalismo, essa construção política e cultural do século XX, não raras vezes, alimenta, como efeito indesejado, o ressentimento. Pode ser contra os nordestinos, mas também pode ser contra São Paulo. O sucesso dos migrantes do "Norte", cuja tradução mais eloquente é a eleição de Lula, não é descolado do êxito econômico do estado de São Paulo. E falar de uma suposta vocação discriminatória, especialmente dos paulistanos, é atentar contra a lógica dos fatos. Afinal, que outra metrópole brasileira elegeu uma paraibana como sua prefeita? Ou, ainda, que outro estado da federação consagrou, em uma mesma eleição, um palhaço cearense e um ex-deputado pernambucano como seus representantes parlamentares?

Em certa medida, o ressentimento contra o sucesso alheio é um efeito não esperado da sedimentação do igualitarismo democrático. Uma das suas traduções devastadoras é o ódio contra o que dá certo. Como pode vestir qualquer figurino político e ideológico, devemos mobilizar as armas do pensamento crítico contra as suas insidiosas pregações.


Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Guerra de classes no mundo?

Revista “esquerdista” fala em guerra de classes mundial
por Luiz Carlos Azenha



Primeiro foi o Nouriel Roubini que, em entrevista ao revolucionário Wall Street Journal, disse que Marx estava certo.
Agora, aquela revista esquerdista chamada Forbes publicou um texto muito disseminado nas redes sociais nos Estados Unidos.
Título: Os distúrbios no Reino Unido e a vindoura guerra de classes mundial

No artigo, Joel Kotkin elenca uma série de números:

* 1 milhão de jovens britânicos estão desempregados

* 50% das crianças de Londres vivem na pobreza

* 20% dos adolescentes americanos estão desempregados, taxa que chega a 50% em Washington

* dois quintos dos americanos que tem 18 e 19 anos de idade estão desempregados ou fora da força de trabalho

* 43% dos americanos brancos sem diploma universitário avaliam que a vida está piorando.

Ele escreve:
“O endurecimento das divisões de classe tem se acumulado por uma geração, primeiro no Ocidente mas crescentemente em países de rápido desenvolvimento como a China. A crescente divisão de classes tem suas raízes na globalização, que custou empregos aos colarinhos azuis e agora mesmo aos colarinhos brancos; na tecnologia, que permitiu a empresas e indivíduos mais ricos mudar suas operações com velocidade rápida para qualquer lugar; e na secularização da sociedade, que solapou os valores tradicionais do trabalho e da família que eram básicos do capitalismo de raízes desde suas origens.
Todos estes fatores podem ser vistos nos distúrbios britânicos. Relações raciais e com a polícia tiveram um papel, mas entre os amotinados havia mais que gente das minorias ou gangsters. Como o historiador britânico James Heartfield sugeriu, os amotinados refletiram um rompimento mais amplo do “sistema social britânico”, particularmente o “sistema de trabalho e de recompensa”.

Nas primeiras décadas do século 20, jovens da classe trabalhadora poderiam contar com trabalho na vibrante economia industrial do Reino Unido e, mais tarde, no crescente setor público largamente financiado pelos ganhos [financeiros] da City e ao crédito. Hoje, o setor industrial encolheu e está irreconhecível. A crise financeira solapou o crédito e a capacidade do governo de bancar o estado de bem estar social”.

Mais adiante:

“A perspectiva de um crescente conflito de classe existe mesmo na China, onde a desigualdade social é uma das piores do mundo. Não causou surpresa uma pesquisa conduzida pela Academia de Ciências Sociais de Zhejiang mostrando que 96% dos entrevistados sentem “ressentimento contra os ricos”. Enquanto o Tea Party e os esquerdistas nos Estados Unidos acusam o capitalismo entre amigos do regime Bush-Obama-Bernanke, os trabalhadores e os chineses de classe média estão diante de uma classe governante hegemônica que consiste de autoridades e capitalistas ricos. Que isso se dá sob um regime supostamente “marxista-leninista” é ao mesmo tempo irônico e obsceno”.

Diante disso, ele prevê que a onda mundial de distúrbios vai se espalhar e chegará aos Estados Unidos.
Com as bolsas de valores derretendo mais uma vez, é sempre bom ficar de olho nos alertas destas publicações esquerdistas como o Wall Street Journal e a Forbes.

PS do Viomundo: Não tenho a mínima paciência com o nheco-nheco político em torno do governo Dilma. Tenho comigo que o futuro político da presidente vai se definir em função da reação brasileira à crise econômica mundial, que pode se aprofundar nos próximos meses. Quanto ao resto, não há nada que o canetaço presidencial não resolva, especialmente no Brasil.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A presidenta margarida!

“Vocês têm em mim uma presidenta Margarida como vocês”




Brasília foi palco, nesta terça-feira (17/8), de um dia que entrará para a história do país: o encontro da primeira presidenta mulher com cerca de 100 mil trabalhadoras rurais, que marcharam à capital federal em busca de justiça social e equidade de gênero. Ao participar da cerimônia de encerramento da Marcha das Margaridas 2011, a presidenta Dilma Rousseff divulgou uma série de conquistas alcançadas pelas trabalhadoras rurais a partir de negociações com o governo federal.

Os ganhos das trabalhadoras envolvem ações na área da saúde, educação, segurança, geração de renda, acesso à terra e crédito rural e erradicação da miséria, entre outras. O resultado das mesas de negociação foi reunido em um caderno resposta, que a presidenta Dilma fez questão de entregar pessoalmente às Margaridas na solenidade de encerramento da Marcha.

“Minhas queridas Margaridas, hoje estou aqui para dizer que a Marcha de vocês me toca e me emociona profundamente, não apenas como presidenta da República, mas como mulher e cidadã (…), e para reconhecer que muitas das demandas de vocês foram acatadas (…). O principal resultado é a continuidade do diálogo e do respeito entre vocês e o governo federal, iniciados pelo presidente Lula. Me comprometo a dar continuidade a esse diálogo respeitoso e companheiro e a ampliar o atendimento às justas reivindicações das trabalhadoras rurais”, disse a presidenta, ao iniciar seu discurso.

Entre as medidas anunciadas, a presidenta destacou a construção de 16 unidades básicas de saúde fluviais e de 10 centros de referência em saúde do trabalho voltados para o campo e floresta até 2012; um plano integrado em saúde para trabalhadores do campo e da floresta; o aumento do limite de venda da agricultura familiar para fornecimento da merenda escolar, de modo a atingir, ainda em 2011, os 30% de compra direta do governo à agricultura familiar previstos na lei; a inserção da Produção Agroecológica Integrada Sustentável (PAIS) no Plano Brasil sem Miséria e aumento da dotação orçamentária do programa; ampliação do crédito rural, com elevação da participação da mulher e linha exclusiva às trabalhadoras; ampliação do acesso à creche e expansão da rede escolar na zona rural, entre outros.

A presidenta também chamou a atenção para um plano de enfrentamento à violência contra a mulher do campo, a implantação de programa de documentação civil na Amazônia, com foco na mulher, a instituição de grupo de trabalho para elaboração, com a participação da sociedade civil, de um programa nacional de agroecologia e o início de um diagnóstico de todos os assentamentos rurais no Brasil, para “definir como encaminhar a questão do acesso à terra daqui por diante”.

“Eu quero intensificar o diálogo do governo com vocês. Tenho certeza de que o debate com os movimentos sociais é fundamental. E tenho certeza de que as críticas e as sugestões são essenciais e muito bem vindas, pois permitem que façamos cada vez melhor, que possamos, juntas, construir o Brasil que queremos: um país sem miséria, um país rico (…) e um país mais justo e menos desigual”, concluiu.