Pesquisar este blog

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Hora de rever as privatizações



Se outros efeitos não causar à vida nacional o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., suas acusações reclamam o reexame profundo do processo de privatizações e suas razões. 
A presidente da República poderia fazer seu o lema de Tancredo: um governante só consegue fazer o que fizer junto com o seu povo.

por Mauro Santayana, na Carta Maior


Se outros efeitos não causar à vida nacional o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., suas acusações reclamam o reexame profundo do processo de privatizações e suas razões. Ao decidir por aquele caminho, o governo Collor estava sendo coerente com sua essencial natureza, que era a de restabelecer o poder econômico e político das oligarquias nordestinas e, com elas, dominar o país. A estratégia era a de buscar aliança internacional, aceitando os novos postulados de um projetado governo mundial, estabelecido pela Comissão Trilateral e pelo Clube de Bielderbeg. Foi assim que Collor formou a sua equipe econômica, e escolheu o Sr. Eduardo Modiano para presidir ao BNDES - e, ali, cuidar das privatizações.

Primeiro, houve a necessidade de se estabelecer o Plano Nacional de Desestatização. Tendo em vista a reação da sociedade e as denúncias de corrupção contra o grupo do presidente, não foi possível fazê-lo da noite para o dia, e o tempo passou. O impeachment de Collor e a ascensão de Itamar representaram certo freio no processo, não obstante a pressão dos interessados.

Com a chegada de Fernando Henrique ao Ministério da Fazenda, as pressões se acentuaram, mas Itamar foi cozinhando as coisas em banho-maria. Fernando Henrique se entregou à causa do neoliberalismo e da globalização com entusiasmo. Ele repudiou a sua fé antiga no Estado, e saudou o domínio dos centros financeiros mundiais – com suas conseqüências, como as da exclusão do mundo econômico dos chamados “incapazes” – como um Novo Renascimento.

Ora, o Brasil era dos poucos países do mundo que podiam dizer não ao Consenso de Washington. Com todas as suas dificuldades, entre elas a de rolar a dívida externa, poderíamos, se fosse o caso, fechar as fronteiras e partir para uma economia autônoma, com a ampliação do mercado interno. Se assim agíssemos, é seguro que serviríamos de exemplo de resistência para numerosos países do Terceiro Mundo, entre eles os nossos vizinhos do continente.

Alguns dos mais importantes pensadores contemporâneos- entre eles Federico Mayor Zaragoza, em artigo publicado em El País há dias, e Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia - constataram que o desmantelamento do Estado, a partir dos governos de Margareth Thatcher, na Grã Bretanha, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos, foi a maior estupidez política e econômica do fim do século 20.

Além de concentrar o poder financeiro em duas ou três grandes instituições, entre elas, o Goldman Sachs, que é hoje o senhor da Europa, provocou o desemprego em massa; a erosão do sistema educacional, com o surgimento de escolas privadas que só servem para vender diplomas; a contaminação dos sistemas judiciários mundiais, a partir da Suprema Corte dos Estados Unidos – que, entre outras decisões, convalidou a fraude eleitoral da Flórida, dando a vitória a Bush, nas eleições de 2000 -; a acelerada degradação do meio-ambiente e, agora, desmonta a Comunidade Européia.

No Brasil, como podemos nos lembrar, não só os pobres sofreram com a miséria e o desemprego: a classe média se empobreceu a ponto de engenheiros serem compelidos a vender sanduíches e limonadas nas praias.

É o momento para que a sociedade brasileira se articule e exija do governo a reversão do processo de privatizações. As corporações multinacionais já dominam grande parte da economia brasileira e é necessário que retomemos as atividades estratégicas, a fim de preservar a soberania nacional.

É também urgente sustar a incontrolada remessa de lucros, obrigando as multinacionais a investi-los aqui e taxar a parte enviada às matrizes; aprovar legislação que obrigue as empresas a limpa e transparente escrituração contábil; regulamentar estritamente a atividade bancária e proibir as operações com paraísos fiscais. É imprescindível retomar o conceito de empresa nacional da Constituição de 1988 – sem o que o BNDES continuará a financiar as multinacionais com condições favorecidas.

A CPI que provavelmente será constituída, a pedido dos deputados Protógenes Queiroz e Brizola Neto, naturalmente não se perderá nos detalhes menores – e irá a fundo na análise das privatizações, a partir de 1990, para que se esclareça a constrangedora vassalagem de alguns brasileiros, diante das ordens emanadas de Washington.
Mas para tanto é imprescindível a participação dos intelectuais, dos sindicatos de trabalhadores e de todas as entidades estudantis, da UNE, aos diretórios colegiais. Sem a mobilização da sociedade, por mais se esforcem os defensores do interesse nacional, continuaremos submetidos aos contratos do passado. A presidente da República poderia fazer seu o lema de Tancredo: um governante só consegue fazer o que fizer junto com o seu povo.


Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte
.

No fundo do La Casserole


O Tijolaço continua fazendo 'furos' na blindagem da mídia.


O La Casserole, que recebeu ontem, em hora indigesta, Ricardo Sérgio e altos tucanos

A jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor, é a primeira, nos grandes jornais, a escrever, pondo o nome embaixo, que a imprensa está boicotando não apenas o livro, mas o tema trazido, de novo, à tona, pelo A Privataria Tucana.

O seu artigo, exclusivo para assinantes na página do jornal, foi reproduzido aqui.
Merece aplauso, e não há reparo algum a fazer na sua conclusão que não é apenas o tucanato que se escafede do tema.

Mas merecem destaque algumas informações, sabidas e esquecidas, que ela publica, sem medo de patrulhas.

Por exemplo, que uma única operação da Polícia Federal achou US$ 30 milhões mandados para fora por contas CC-5, um dos portões apontados por Amaury.

Ou que o impasse sobre acusações a Gustavo Franco e a Henrique Meirelles fez empacar a CPI do Banestado, cujos documentos, em parte, por uma destas circunstâncias que se pode atribuir à Providência, vieram às mãos de Amaury Ribeiro, justamente por ter de responder ao processo que lhe moveu Ricardo Sérgio de Oliveira, o homem a quem a Veja chamou de “coletor” das campanhas de José Serra.

E, como noticiar fatos não ofende, publica também que, nestes indigestos dias, reuniram-se ontem num dos mais bem afamados restaurantes franceses da Paulicéia, o La Casserole, o indigitado Ricardo Sérgio, o chefe da Casa Civil do governo FHC, Clóvis Carvalho, e José Carlos Dias, ministro da Justiça efeagáciano e parceiro em muitas causas de Arnaldo Malheiros, advogado de José Serra.

Como disse Paulo Preto, não se abandona um amigo na beira da estrada.

PS. A blogosfera, como diz Fernandes, está realmente dedicando um tempo imenso ao livro do Amaury. Pudera, com todas as nossas limitações – será que alguém imagina que um blogueiro possa pegar o telefone e pedir uma entrevista a estes personagens, como podem fazer os repórteres de jornal ? – estamos tentando apurar e revelar os fatos que a grande imprensa segue mantendo nas sombras.



Um imagem vale mais que mil palavras



Add caption

Na mesma praça, no mesmo banco…USP









O autoritarismo do reitor João Grandino Rodas e a surdez da mídia para as reivindicações estudantis viram piada no vídeo “A USP é Nossa”

A política não precisa ser chata — e a política universitária menos ainda. Para driblar os discursos exaltados e as palavras de ordem, que costumam causar ojeriza em muita gente, um grupo de estudantes da Universidade de São Paulo resolveu lançar mão do humor. Assim, produziram A USP É Nossa, um vídeo curtinho, com menos de quatro minutos, que se baseia no clássico do SBT para criticar o autoritarismo do reitor João Grandino Rodas e a maneira como os meios de comunicação tradicionais manipulam as exigências do Movimento Estudantil.

“Muitas pessoas já lançaram mão de piadas para falar de política, e com bastante êxito. Acreditamos que o humor e o entretenimento podem ser muito eficazes para transmitir uma mensagem, fazer com que as pessoas pensem e saiam da anestesia em que se encontram”, diz Murilo Alvesso, estudante da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e um dos idealizadores do vídeo. Murilo conta que A USP É Nossa é uma iniciativa coletiva dos alunos do curso de Audiovisual. Em greve desde a desocupação da Reitoria pela tropa de choque, o grupo tem discutido estratégias de ação política para fortalecer o movimento grevista e dialogar com a sociedade. Daí surgiu a ideia de reunir alguns atores, um par de câmeras e levar tudo pra uma das muitas áreas verdes da Cidade Universitária, na Zona Oeste de São Paulo. O resultado está disponível no YouTube.

No vídeo, Rodas e um estudante aparecem sentados num banco de praça. Assim como Carlos Alberto de Nóbrega no programa do SBT, o reitor está lendo uma revista — e se irrita quando o estudante diz que quer a PM fora do campus e uma política de segurança estruturada. Rodas ameaça chamar a força policial para dar uma “aula de democracia” no aluno impertinente quando entra em cena a Dona Mídia, paródia da Velha Surda. Daí podemos imaginar a desinformação que será veiculada pelos jornais do dia seguinte, pois a distinguida senhora não consegue escutar direito o que o estudante está dizendo. Aliás, em A USP É Nossa, Rodas e Dona Mídia trocam afagos como grandes amigos.

“Já que não temos o alcance do Datena ou da Globo, queremos contar nossa versão da história utilizando a internet”, diz Murilo, para quem os grandes meios de comunicação foram tendenciosos na cobertura da desocupação da Reitoria, reduzindo as exigências do Movimento Estudantil a uma questão trivial entre a proibição de fumar maconha no campus e a suposta articulação dos manifestantes com traficantes de drogas dos arredores. “Nossas reivindicações foram distorcidas. Por isso é que estamos buscando novas maneiras de transmitir nossas ideias.”