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quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Primavera Árabe morreu?



Por Robert Fisk


É o fim da revolução egípcia? Devemos ver em seguida: a marginalização dos rebeles originais da praça Tahrir, aos quais se buscou satisfazer com alguns julgamentos enquanto os militares se aferravam no poder que Mubarak lhes conferiu e formavam uma fachada de governo civil com os obedientes ministros do ex-ditador.

E a Irmandade Muçulmana – que não se envolveu nas ações da Praça Tahrir, assim como Ahmed Shafik – passou ao centro do cenário após anos de clandestinidade e tortura nas mãos do governo. Os homens de Mubarak e a Irmandade nunca estiveram representados em Tahrir. “Tudo o que queremos é que Mubarak se vá”, costumavam gritar os jovens egípcios. E ele foi. Fácil de resolver para o “Estado profundo”. Quase todos os principais funcionários da “Stasi” egípcia foram absolvidos. Os assassinos da polícia seguem em operação. Eles estão felizes com o mais recente capítulo da tragédia egípcia.

O paralelismo com a Argélia em 1991 é de todo relevante. Uma eleição democrática vencida pelos islamistas, suspensão do segundo turno eleitoral, leis de emergência que conferiram poderes especiais ao exército; tortura, detenções de legisladores eleitos, selvagem guerra de guerrilhas: com algumas variações, só as duas últimas coisas ainda não começaram no Egito. Mas a história da Argélia foi menos absurda: o poder havia realizado um golpe de Estado e todos os opositores eram “terroristas”. Este processo também começou no Cairo. O exército recebeu faculdades para deter pessoas. A intenção é que as exerça.

No Egito é ridículo realizar uma eleição presidencial quando a base do poder parlamentar de um dos candidatos, Mohamed Morsi (da Irmandade), foi dissolvida pelos partidários de seu oponente, Shafik, antes da contenda final.

Há alguns dias, Alaa al-Aswany, esse estupendo novelista-ativista-dentista egípcio, previu um plano que já está formulado: massacrar os revolucionário. Mas esse plano não funcionaria, disse, porque o retorno de Shafik, protegido pelos militares, significaria o fim da revolução. No entanto, era isso. Agora, Shafik pode tomar o poder – se Mordi perder – sem um parlamento que o controle.

Dias de desespero, portanto. Mas é preciso lembrar de uma coisa: os juízes nomeados por Mubarak não se levantaram propriamente na manhã de quinta-feira e decidiram dissolver o parlamento. Isso foi decidido há muito mais tempo. Do mesmo modo que a retenção do poder nas mãos dos militares.

Haverá planos prontos para o fim de semana; talvez até já se saibam os resultados da eleição. Não me atrevo a pensar o que isso significa para o Egito. Pode ser que a primavera árabe tenha morrido (o despertar árabe um pouco menos). Mas o establishment da segurança em Washington estará satisfeito. Do mesmo modo que o presidente Bashar Assad, da Síria.


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Lula, Haddad e Maluf



Considerações intempestivas sobre uma foto contestável
Por Natal Antonini

Vivemos numa democracia.
Numa democracia se governa para todos.
Para se ter um governo democrático de sucesso se deve fazer alianças.
O PP já faz parte da base do governo federal desde o inicio do governo Lula.
O PP resolveu apoiar o PT também em SP, o Maluf é um quadro do PP.

O Maluf é um ladrão FDP.
Os paulistas (que são muito burros) acham que o Maluf foi um ótimo prefeito.
O Maluf se elegeu deputado por SP com uma ótima votação.
SP está, desde o inicio dos governos tucanos, crescendo abaixo do que cresce o Brasil.
Os paulistas (que são muito burros, meeeeeesmo) continuam votando nos Tucanos.

Os Tucanos são aqueles políticos neo-liberais nada “tolinhos”, que quase venderam todo o Brasil.
Nos quais a maioria da juventude burguesa e mimada — com carros pagos pelos pais e camisas lavadas pelas mães – vota.
Essa mesma juventude que ocupava praticamente todas as vagas públicas das universidades brasileiras antes da existência das cotas.

O PT faz o melhor governo que o Brasil já teve.
O Lula quer estender para SP as políticas adotadas pelo PT.
O PT pratica a realpolitik desde que resolveu jogar em pé de igualdade com a direita.
Realpolitik (do alemão real “realístico”, e Politik, “política”) refere-se à política baseada em considerações práticas.

O PSTU é 100% coerente.
O PSTU não aceita a realpolitik.
O PSTU nunca vai ganhar uma eleição para colocar em prática parcelas do seu programa.
O sonho da direita é que o PT fosse o PSTU.

O PT não é o PSTU!!!
E a direita tomou…

Buenas… Não farei a rima óbvia.
-=-=-=-
Não nego que a foto abaixo me irrita. Mas a irritação não sobrevive a um pouco de raciocínio. Preferia que Maluf fosse tão idiota quanto um antipetista do gênero Reinaldo de Azevedo e tantos outros, mas ele não é.


de Sintonia Fina com Terror do Nordeste



A coerência de Erundina e a incoerência dos outros







30/06/2004 - 20h06
Erundina e Temer formam aliança para eleição em SP
Por Carmen Munari
SÃO PAULO (Reuters) - PMDB e PSB formalizaram nesta quarta-feira uma coligação para disputar a prefeitura de São Paulo com a desistência de Michel Temer, que ocupará o posto de vice na chapa da socialista Luiza Erundina. Apesar de pertencerem a partidos da base governista, os dois políticos prevêem críticas ao Executivo federal na campanha.
"É um gesto inovador, revolucionário e ousado do PMDB", disse a ex-prefeita, durante entrevista coletiva para anunciar a nova chapa. Erundina reiterou sua autocrítica de considerar um "equívoco" ter governado São Paulo entre 1989 e 1992 com um partido só, então o PT
Temer admitiu que os resultados das últimas pesquisas de opinião influenciaram na formação da chapa, mas que, além disso, a decisão se deveu a um "consenso partidário". O acordo foi costurado por Orestes Quércia, presidente estadual do PMDB.


Comentários do Senhor C.:

- Como se pode ver, a história não beneficia ninguém. Nem os puristas, nem os equivocados, nem os fariseus e, muito menos, os românticos.
Há, supomos com razoável dose de certeza, um conjunto de não-ditos que fazem falta na hora de analisar esta história da aliança PT-PP, a foto com Maluf, e o aceite-recusa da Erundina em continuar na chapa com Haddad. 

Analistas de diversos matizes e enfoques já discorreram sobre os gestos da deputada - de quem continuo eleitor e admirador. Mas algo me diz que há uma mistura de equívocos, quase todos motivados pela falta de pequenas peças - os tais detalhes de bastidores - de que nunca ficaremos sabendo todos. 

No entanto, não há porque não deixar de dar algumas pitadas nesta situação:

a) a História é uma deusa muito vaidosa e mutante, e espera ser olhada pelo para-brisa, não pelo retrovisor;

b) Àqueles que o fazem estão condenados ao risco de virarem estátuas de sal, e meio saudosistas, meio românticos revolucionários, ficarem sonhando com a volta triunfal de um passado que não passou;

c) A deusa História é, um pouco ou muito, algo parecido a um híbrido de Medusa com a Esfinge. Ao mesmo tempo que seduz, também ameaça com enigmas que, uma vez não resolvidos, conduz o desafiado ao castigo de ser por ela devorado.

d) Além disso, a história é um território aberto. Por isso, infelizmente, nela campeiam também inúmeros interesses: dos mais transcendentes aos mais hipócritas e farisaicos. E neste caso, à reação indignada de alguns militantes, convém lembrar os interesses nada explícitos da mídia conservadora em ver o circo da esquerda pegar fogo.

Enfim...Heiner-Maria Rilke - autor do célebre Cartas a um jovem poeta, e que parece ter inspirados políticos sociólogos a escreverem as suas cartas a um jovem político, já deixou dito que um homem é a soma de todas as contradições ditas e feitas em seu nome e a seu respeito.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Rio+20: Salvem as Florestas Temperadas


Stephen Kanitz

Mais uma vez no Rio+20 iremos ouvir o brado da devastação da Amazônia, e ninguém vai sair protestando contra o desmatamento quase total das Florestas Temperadas.

Por que ninguém exige o reflorestamento do Mid-West Americano e da Europa?

Por que os brasileiros gastam 95% do seu tempo contra o desmantamento da Amazônia e nada protestam contra o desmatamento das Florestas Temperadas?

Em 2003, escrevi o artigo abaixo na Veja: Salvem as Florestas Temperadas, e a repercussão foi quase nula.
Não fui convidado para nenhuma das 54 Conferências sobre Ecologia realizadas no Brasil de lá para cá, ninguém achou este tema importante suficiente para se discutir.

Eis o artigo de 2003, que infelizmente continua válido.

No filme A Bruxa de Blair, sucesso de bilheteria do cinema alternativo americano, há uma cena que fez meu sangue de ecologista amador brasileiro e defensor do crescimento sustentável literalmente borbulhar.

Os três estudantes do longa estão totalmente perdidos numa floresta da Nova Inglaterra e a garota começa a entrar em pânico achando que nunca mais sairia daquela selva.

Seu colega então diz algo parecido com:

"Não seja idiota, nós destruímos todas as nossas florestas temperadas. É só andarmos mais meia hora em linha reta que logo sairemos daqui".

Ecologistas do mundo todo vivem fazendo protestos para preservar a floresta tropical brasileira, mas raramente param para refletir sobre essa corajosa crítica contida nesse filme, que fez tanto sucesso.

Se alguém se perder na Floresta Amazônica, poderá ter de andar por noventa dias até achar uma saída, tal o nível de preservação de nossa Amazônia, comparada com as demais florestas.

Então, não seria correto também discutir a reconstituição das florestas temperadas, há muito tempo dizimadas?

Na Europa e nos Estados Unidos, boa parte das florestas foram destruídas.

O "Crescente Fértil" descrito na Bíblia é hoje o Iraque da "Desert Storm".

Em contrapartida, 86% da Floresta Amazônica continua intacta.

No famoso Museu Smithsonian de Washington, vi um painel que orgulhosamente mostrava um pioneiro derrubando uma árvore para criar uma área arável e poder "suprir nossos antepassados com a comida necessária". Texto deles.

Destruíram tantas florestas temperadas para plantar comida que hoje eles têm muito mais agricultores do que o necessário, a maioria economicamente inviável.

Com a produtividade atual da agricultura, bastaria cultivar as planícies naturais que todos os países já possuem.

A destruição das florestas temperadas é uma das razões dos maciços subsídios que a Europa e os Estados Unidos dão à agricultura, razão de nossos protestos junto à OMC.

Quando negociadores do governo brasileiro reclamam desses subsídios, a resposta é que eles são necessários para manter a população no campo.

Caso contrário, os países teriam enormes espaços e terras vazias, com todo mundo vivendo nas cidades.

O erro dessa lógica política está na frase "espaços e terras vazias", uma vez que essas terras não eram "vazias" antes de as florestas temperadas serem dizimadas.

Há muito deveríamos ter colocado na agenda mundial a necessidade da reconstituição das florestas temperadas ao lado da preservação da Floresta Amazônica - o que exigiria dos países desenvolvidos a lenta substituição dos agricultores subsidiados por guardas e bombeiros florestais em constante vigilância.

Pelo menos os agricultores passariam a ser úteis, em vez de receber subsídios para nada plantarem.

Os espaços não ficariam vazios, como temem os políticos desses países. Voltariam ao equilíbrio original.

Isso teria importantes consequências econômicas para o Terceiro Mundo.

Acabaria com os enormes subsídios agrícolas e equilibraria a balança comercial de muito país em desenvolvimento.

Bjorn Lomborg, autor do The Skeptical Environmentalist, escreve na página 117 uma frase de muita coragem política:

"Que base nós (Primeiro Mundo) temos para nos indignarmos com o desmatamento das florestas tropicais, considerando o nosso desmatamento na Europa e Estados Unidos?
É uma hipocrisia aceitar que nós nos beneficiamos imensamente da destruição de enormes áreas de nossas próprias florestas mas não vamos permitir que países em desenvolvimento se beneficiem como nós o fizemos.
Se não quisermos que eles usem seus recursos naturais do jeito que nós usamos os nossos, devemos compensá-los de acordo
".

Obviamente, ele foi massacrado, e por muitos brasileiros.

Da próxima vez que um amigo, um jornalista ou um diplomata estrangeiro lhe indagar sobre o que estamos fazendo com nossa Floresta Amazônica, antes de responder, pergunte-lhe o que ele está fazendo para reconstituir 85% de suas florestas temperadas.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)