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terça-feira, 24 de julho de 2012

Exame de Ordem: terapêutica medicamentosa ou placebo mercadológico?

Em tempos de exames de ordem, e tentativas experimentais de implantar uma avaliação de egressos por Conselhos Regionais de Medicina como o de São Paulo, o Lírio Verde foi em busca de outras opiniões e acho este texto reproduzido abaixo.
Exame ou reserva de mercado?


by Giovanni Gurgel Aciole

(21/07/2005)


Avizinha-se como preocupação dos futuros médicos uma questão crucial: sua obrigação de prestar após a conclusão do curso de Medicina, um exame de habilitação; como condição para o exercício profissional! 

Há, com este intuito, dois projetos de lei apresentados ao Congresso Nacional, um na Câmara outro no Senado. E de prático, a iniciativa do Conselho Regional de Medicina de São Paulo em realizar em outubro próximo uma espécie de teste de habilitação, aplicando o exame em caráter experimental e voluntário a todos os concluintes do curso de Medicina do estado neste ano.

Alega o defensor da proposta na Câmara, que o notório aumento do número de faculdades de medicina no país veio acompanhada de uma preocupação, qual seja a queda da qualidade dos profissionais egressos desses cursos. Preocupação fundada, pois o exercício da profissão de médico trata diretamente com vidas humanas, uma falha médica pode significar a morte, a invalidez ou o sofrimento permanente do paciente. Um evidente sintoma desta questão, para o deputado, seria o aumento do número de processos sobre erros médicos nos conselhos regionais.

O senador, por seu turno, levanta argumentos em torno da inquietação (admitida, segundo ele, por todos os especialistas da área) de que as sérias deficiências do ensino médico brasileiro estão lançando na vida profissional, ano após ano, um contingente de médicos mal preparados. E vai adiante: trata-se de diagnóstico que remonta a 1991, quando tiveram início as atividades da Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico (CINAEM). Referindo-se aos estudos daquela comissão, informa que um percentual considerável das escolas médicas em funcionamento no País apresenta um desempenho medíocre em relação a aspectos de estrutura político-administrativa e econômica, de infra-estrutura e de recursos humanos. 

A atividade docente é realizada, predominantemente, por professores auxiliares e assistentes, com menos de dez anos de exercício profissional, em tempo parcial, insatisfeitos com a infra-estrutura da instituição e com os salários que lhe são pagos. De um modo geral, esses profissionais são pouco preparados para o ensino, para a pesquisa e para o exercício de atividades administrativas. Mesmo quando são médicos competentes e conceituados, não possuem, na grande maioria das vezes, a necessária capacitação didática.

Não fosse já suficiente a menção aos trabalhos da referida Comissão, o augusto senador ainda se vale da revista Veja, que em sua edição de 16 de junho de 2004, trouxera sob o título Medicina de alto risco, as principais conclusões de um estudo realizado pela Universidade do Estado de São Paulo (UNESP), nos seguintes termos: 73% de nossos médicos reconhecem que já receitaram medicamentos sem lhes conhecer a exata composição; 71% não se lembram de informar seus pacientes sobre as possíveis reações adversas provenientes da combinação de medicamentos; 72% alegam cumprir dupla jornada de trabalho e justificam assim a precariedade de sua formação acadêmica; 62,5% admitem não participarem de congressos médicos e, por fim, 40% deles declaram que não lêem publicações médicas ou científicas. Seriam dados que falam por si.

Na prática, continua o senador, o que se observa é que boa parte de nossos formandos demonstra deficiência em aspectos elementares do conhecimento aplicado e até mesmo em habilidades médicas, como também não tem o domínio dos princípios básicos do manejo de pacientes e nem os valoriza. Há que se ressaltar, diz-nos o parlamentar, que escolas públicas e privadas vivem atualmente as mesmas agruras, pois foram concedidas autorizações de funcionamento para inúmeras escolas médicas particulares sem critérios rígidos e bem definidos e, o mais grave, sem a devida fiscalização. 

Vale a pena salientar que, a despeito de toda lógica, a pletora de novas escolas e de novos médicos que elas lançam no mercado - mais de oito mil por ano - atua justamente nas regiões em que o número de escolas e médicos já é bastante suficiente, ou seja, nem sequer o critério de utilidade social foi observado no sentido de aplacar as cruéis discrepâncias regionais no atendimento médico. 

Ademais, verifica-se o descompasso das escolas brasileiras de Medicina no processo de incorporação racional da tecnologia disponível, tanto em relação às novas tecnologias como também em relação a procedimentos diagnósticos e terapêuticos tradicionais e de baixo custo, o que é mais preocupante. Encontram-se, portanto, despreparados para a solução de problemas correntes e comuns de saúde de nossa população.

Diante do exposto, conclui o senador, fica evidente que nossas escolas médicas, com raras e boas exceções, não estão formando médicos, mas apenas diplomando-os e, ao fazer isso, agem de maneira irresponsável, porque formam profissionais despreparados, incapazes de lidar com os problemas de saúde mais simples de nossa população. O objetivo de sua proposição, portanto, é o de instituir - a exemplo do que é feito em outros países e, no Brasil, com nossos recém-formados advogados - um filtro entre a diplomação e a prática profissional como forma de impedir que médicos mal formados exerçam a Medicina (grifos nossos). Filtro cuja forma será o do Exame Nacional de Proficiência em Medicina: requisito para a inscrição num conselho de Medicina e, conseqüentemente, a prática legal da profissão.

Preocupado com as relações internacionais, tão ao gosto da idéia de globalização em voga, também alega a introdução, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de dispositivo que permitirá aos médicos formados em escolas de outros países terem seus diplomas convalidados por meio de outro expediente que não aquele previsto em nossa atual legislação, qual seja, o da convalidação por uma universidade pública brasileira que tenha curso do mesmo nível. Ainda segundo o parlamentar, o mecanismo da revalidação tem-se mostrado, no mínimo, insuficiente para atender a demanda, tanto de brasileiros como de estrangeiros, formados em escolas de Medicina localizadas em outros países.

A autonomia universitária tem ensejado, aos olhos e ouvidos do senador, tanto a burocratização do processo como a corrupção: ao mesmo tempo em que uma boa parte das universidades mantém procedimentos ágeis e transparentes para conceder ou negar a revalidação de diplomas, existem outras nas quais esse processo e muitíssimo moroso ou mesmo não se dá, sem que existam meios acessíveis aos interessados de intervir ou mesmo de ter informação sobre assunto de seu interesse. A substituição da revalidação do diploma pela aprovação no Exame Nacional de Proficiência propiciará, destarte, em face da nossa atual realidade acadêmica, o aperfeiçoamento dos atuais critérios que balizam as condições mínimas em que se dá o exercício profissional da Medicina no País.

São todos argumentos muito preciosos! Talvez por assim serem, perante os quais só nos podemos colocar com um forte posicionamento crítico. E, para faze-lo de forma imanente vamos fazer a crítica diretamente sobre os argumentos apresentados. 

Podemos agrupa-los, apenas para facilitar o entendimento e não para simplifica-lo, em dois tipos: os de natureza estrutural, que remetem ao diagnóstico da explosão de faculdades médicas, suas deficiências estruturais e funcionais, seus déficits de capacitação docente a que nós somaríamos a crítica de sua irregular distribuição pelo território nacional; os segundos, dizem respeito a características e atributos dos produtos gerados pelo conjunto daquelas instituições, isto é, são médicos mal formados; todos passíveis de cometerem seguidos erros; médicos que não dispõem de competências e habilidades mínimas para o exercício da profissão; médicos que assinam sem ler; médicos que desconhecem farmacologia e outros ensinamentos básicos para o cumprimento de sua missão fundamental, que é cuidar da saúde dos seus pacientes, ou melhor, cuidar da saúde de todos os brasileiros.

A este conjunto de coisas, temos muito mais o que lamentar do que retificar. São diagnósticos legitimados em publicações e relatórios aos quais não cabe praticamente nenhuma ressalva de seus acertos, salvo uma pequena digressão quanto ao caráter generalizador de tais afirmações, e a relativa ênfase na crença de que a racionalidade científica forma produtos numa condição finalística, quando o imperativo para a prática de cuidar da vida humana é estar em contínua educação permanente. Como disse um médico alemão, fundador da homeopatia: - Na arte de cuidar, salvadora da vida, deixar de aprender é crime! Acrescentaríamos que a modernidade acrescentou ao verbo aprender, a condição de permanência: deixar de permanentemente aprender é crime! Se não encontra eco nem sustentação a idéia de que a formação profissional em quaisquer ramos realize-se em condição terminativa, em Medicina, esta necessidade é exponencial!

Aliás, nestes argumentos brandidos em torno dos fantasmas que assolam a precarização da formação médica, nenhuma palavra é dada sobre, o que foi outrora, uma outra solução criada no nosso país: a residência médica. Também ela foi inventada nos anos 70, por assim dizer, como forma de reparar as lacunas de formação que à época já se dizia existir. Foi em nome de um diagnóstico quase igual ao que vem sendo feito, que surgiu a proposta do estágio médico na forma de residência para o aprimoramento e a capacitação do futuro médico naquilo que as escolas já não lhes davam. O que dizer, atualmente, da situação da residência médica em nosso país? Acaso não se transformou num dos caminhos de excelência para a especialização profissional como forma de ingresso qualificado no mercado de trabalho. Porventura, há alguma residência médica neste país que ainda sustente o argumento de estágio de aprimoramento das lacunas da graduação, ou todas, praticamente sem exceção, se estruturam e subsistem enquanto espaço de formação de especialistas?

Nos resta, portanto, adotar uma crítica contundente em relação à solução proposta. Em defesa da integridade da atenção e do zelo pela saúde como direito constitucional, a fim de salvaguardar o bem precioso que é vida humana, dos maus profissionais, ou dos médicos mal preparados, surge a arguta idéia de realizar um exame de habilitação, filtro entre a conclusão do curso médico e o efetivo início do exercício profissional, que nos pouparia a todos dos riscos de encontrar profissionais despreparados para a profissão que escolheram. Com esta singular solução, escamoteiam-se todos os demais problemas estruturais: excesso de escolas médicas, ou melhor, abertura desenfreada de escolas sem quaisquer critérios de qualidade ou racionalidade, despreparo do conjunto de docentes médicos para o exercício do ensino/aprendizagem na medicina etc. Escamoteia-se, inclusive, o fato de que a citada CINAEM esteve muito próxima da mudança na qualidade do ensino médico, desenvolvendo instrumentos de avaliação e, principalmente, de transformação do ensino da Medicina com a participação de um expressivo contingente de Escolas do país, tanto públicas quanto privadas. Pena que foi brutalmente assassinada ao lhe retirarem o apoio político e o adequado respaldo financeiro.

Tudo isso não soa como grande erro de análise da situação real? Será justo e adequado que se lance justamente sobre o médico, isto é, sobre o produto do conjunto de escolas mal preparadas e sem condições mínimas de funcionamento a responsabilidade sobre o que lhe é ensinado ou não, sobre os déficits de sua formação ou não, criando um contingente de reprovados que a realidade do mercado nos ensina que não deixarão de ser médicos? Junto com o seu despreparo certificado pela reprovação no exame de ordem, os reprovados não constituirão um exército de subempregados, uma espécie de ghostworkers, a exemplo do que já acontece com os advogados, digo, bacharéis em direito? Ficarão cotados apenas para os serviços menos nobres, menos valorados, ou de baixo poder aquisitivo para os que lhe contratarão como mão de obra oculta? Por tudo isso, a proposta de exame de habilitação, seja oficial, seja experimental, pode não passar de um grande e equivocado esforço perante a opinião pública! Defenderá mesmo o mercado do profissional incapaz ou mal formado? Ou, pelo contrário, acabará se revelando em mais uma pirotecnia política, que mal disfarça seu natureza alienante e sedutora à força de que pareça de uma simplicidade óbvia.

Seu primeiro e fundamental efeito, contudo, será um só: em consonância com as regras mais comezinhas do capitalismo tupiniquim, criará um ranking entre as escolas médicas! Algumas, por melhores, aprovarão um maior número de alunos, e serão saudadas como padrão de excelência! Outras, por piores, aprovarão um baixo número de alunos, mas não se transformarão nem mudarão, muito menos deixarão de existir!

Temos poucas dúvidas, por outro lado, de que logo acontecerão algumas reações, quer isoladas, quer combinadas, que tornarão ainda mais difícil e complexa a verificação dos efeitos apregoados: por iniciativa das próprias escolas, ou por pressão dos seus alunos, ou ambos, logo se criarão cursinhos preparatórios para o exame de habilitação, que deverão se realizar no último ano do curso; nesta eventualidade de distorce a finalidade precípua do chamado internato. A prova, ou a preparação para um desempenho acima da média, se tornará a meta do final do curso, e nada nos assegura que não contamine toda a sua duração. Não se aprofunda outra vez a perda substancial dos aspectos centrais que devem orientar a formação dos médicos? Fora das próprias escolas também poderemos assistir ao surgimento de cursinhos preparatórios. Tudo isso jogará por terra o possível valor classificatório ou avaliativo emprestado ao exame de habilitação, uma vez que tal estrutura paralela certamente configuraria viés importante a contaminar os resultados, e mais cedo ou mais tarde tenderá a nivelar por baixo a qualidade da formação médica como um todo.

O que vai ocorrer, além disso, é a luta pelo poder que terá, ou terão, os elaboradores do exame. Destes sim, dependerá a capacidade de classificar escolas, a partir de um maior ou menor grau de dificuldade nas questões do exame. E quem serão os notáveis avaliadores? Como serão escolhidos? Devem ser profissionais da mais ilibada reputação e de competência irrepreensível. Qual o fórum ou instância social capaz de apontar tais insígnias? As sociedades de especialidades? Os colegiados conselhais? Ora, são todas partes interessadas nos resultados! E a sociedade civil? Que lugar ocuparia neste processo? Não seria ela a instância que mais deveria ser ouvida? Afinal, quem é o cliente? Nestes tempos de direitos do consumidor e de direitos de cidadania, seria afronta considerar que a sociedade deveria ser o tribunal ético que deve definir qual o profissional que quer ver formado? Ou vai lhe ser cobrada a falta de cientificidade ou condições de faze-lo?

A quem caberá, portanto, a prerrogativa de se proclamar em condições de decidir o que deve ser o conteúdo mínimo pelo qual devem ser avaliados os novos médicos? Sobre quais habilidades e competências mínimas podemos esperar consenso? Quais são as atitudes a serem consideradas como imprescindíveis? Cientificismo e tecnificismo extremado, conhecimento enciclopédico ou um conjunto generalizado de saberes? Quais saberes? O de cuidar? O de realizar procedimentos tecnicamente incontestes? Qual o grau e o peso que devem ter as áreas para uma correta e adequada avaliação? Não cabe, de per si, as escolas fazerem isso? Não já existe um amplo consenso em torno da Lei de Diretrizes e Bases que colocam responsabilidades e compromissos a serem observados? Essas questões não remetem, mais uma vez, à reiteração de que o melhor lugar para as avaliações é a escola ou a faculdade? Ou seja, que lugar de exame é no espaço de formação!

Outro aspecto bastante ligado a esta questão da habilitação, mas igualmente preocupante, diz respeito ao possível surgimento da indústria do exame, em que poderemos ver repetir-se o fenômeno da venda de respostas, configurando-se a exemplo do que ocorre em outros exames igualmente concorridos a prática corruptora da compra e venda de resultados. Quem nos pode garantir que o exame de habilitação dos médicos estará a salvo de tal desvio ético moral? Quem pode deter o surgimento das práticas de tráfico de influências e outras manobras igualmente corruptoras?

Façamos um esforço de pensar sobre a apregoada explosão de escolas médicas. De fato, conforme dados recentemente divulgados pelo INEP, houve o surgimento de 66 novas escolas no período entre 1998 e 2004. Mas quem as autorizou? Não existe um espaço colegiado junto ao MEC que examina e autoriza pedidos de abertura de qualquer escola ou curso universitário? Quem o compõe? Sob que interesses se organiza? Sob que limites legais, regimentais e normativos funciona? Acaso não falta uma enfática decisão política a respeito da política de regulação e funcionamento do aparelho formador no país?

No começo do século passado, nos EUA, havia um número incontrolável de escolas médicas e, muito pior, faltava uma certa padronização e definição do que ensinar, de como ensinar e do que avaliar no médico. O ensino da Medicina tinha um forte caráter empírico! Qual foi a solução adotada, então? O Relatório Flexner. Esta verdadeira ruptura paradigmática orientou toda uma política de administração do ensino da Medicina, com fechamento de várias escolas e adoção de um currículo padronizado, e que veio a influenciar fortemente toda a organização Médica, pelo menos no continente americano. Ora, atualmente estamos numa situação completamente diferente: há explosão de escolas, mas estamos longe de não ter um referencial ético-político para o ensino superior no país. Por que não se discutem os interesses que movem a abertura de novas escolas? Quem as autoriza? Por que o faz? A serviço de que intenções de movimenta a roda de abertura de novas escolas, não só de Medicina? Queremos resolver a questão? Boa parte das soluções, ou da terapêutica, passa por aí!

Enquanto isso, a divisão em castas - as melhores e as piores escolas - orientará a disputa política em torno dos projetos de política pública de atenção à saúde dos brasileiros? É muito provável que com o exame de ordem, sem que se o perceba ou se afirme, se esteja preparando uma outra e cruel segmentação do mercado profissional: aos aprovados no exame (por suposto, os médicos capazes e bem formados) reservar-se-á a primazia legal de operarem no mercado liberal da produção de procedimentos médicos; aos reprovados, suposto produto inferior do ensino médico, caberá ou o subemprego ou a opção por continuarem tentando e, enquanto sobrevivem, estudar mais e mais! Ou de resto, freqüentar algum curso de especialização qualquer - isso se a reprovação no exame não constituir impedimento legal - para que venham a se tornar profissionais da saúde pública!

Consolida-se, assim, um naufrágio iminente: diante do vazio de uma política efetiva de transformação da formação profissional em Medicina; diante da recusa das entidades médicas em dialogar com as iniciativas do Ministério da Educação e da Saúde com relação às políticas de formação e de educação permanente na área da saúde, que dizem respeito aos médicos e também aos demais profissionais de saúde. Defender, pois, o exame de habilitação só se justifica se incorrermos numa postura autofágica que transforma um problema social numa questão interna corporis. No centro de tudo isto só estará se transferido ao médico a responsabilidade por ter sido formado nesta ou naquela Escola de Medicina. Escamoteia-se de uma só penada todo um processo muito mais complexo, mais facetado, e nem por isso apenas insolúvel, sob a égide das soluções fenomênicas que tratam os sintomas sem atingir as causas, que medicam torto transformando o ambiente propício à soluções político-terapêuticas num mercado de placebos: esse supremo pastiche que degrada ainda mais o efeito fetichista atraído pelo narciso deus Asclépios.

Cabe enfim, uma última pergunta: o que vai ser ofertado aos que só tiverem uma opção de Escola no lugar onde vivem? E se esta única opção for uma das escolas que, infelizmente, mereçam ser fechadas? Vai se lhes sugerir que façam Filosofia? Ou Engenharia? Estão candidatos a desistirem de ser médicos no nascedouro? Nem todos, infelizmente, nasceram com o dom do Paulinho da Viola, que fez um samba em que canta a história daquele que, contrariando a vontade paterna, ao invés de doutor foi ser sambista na vida!


 Giovanni Gurgel Aciole é médico, doutor em Saúde Coletiva e foi presidente do Sindimed Campinas (gestão 2002-2006)

Pela extinção da PM

PM: Um exército em guerra com a sociedade?
 Vladimir Safatle

No final do mês de maio, o Conselho de Direitos Humanos da ONU sugeriu a pura e simples extinção da Polícia Militar no Brasil. Para vários membros do conselho (como Dinamarca, Espanha e Coreia do Sul), estava claro que a própria existência de uma polícia militar era uma aberração só explicável pela dificuldade crônica do Brasil de livrar-se das amarras institucionais produzidas pela ditadura.

No resto do mundo, uma polícia militar é, normalmente, a corporação que exerce a função de polícia no interior das Forças Armadas. Nesse sentido, seu espaço de ação costuma restringir-se às instalações militares, aos prédios públicos e aos seus membros.

Apenas em situações de guerra e exceção, a Polícia Militar pode ampliar o escopo de sua atuação para fora dos quartéis e da segurança de prédios públicos.

No Brasil, principalmente depois da ditadura militar, a Polícia Militar paulatinamente consolidou sua posição de responsável pela completa extensão do policiamento urbano. Com isso, as portas estavam abertas para impor, à política de segurança interna, uma lógica militar.

Assim, quando a sociedade acorda periodicamente e se descobre vítima de violência da polícia em ações de mediação de conflitos sociais (como em Pinheirinho, na cracolândia ou na USP) e em ações triviais de policiamento, de nada adianta pedir melhor "formação" da Polícia Militar.

Dentro da lógica militar, as ações são plenamente justificadas. O único detalhe é que a população não equivale a um inimigo externo.

Isto talvez explique por que, segundo pesquisa divulgada pelo Ipea, 62% dos entrevistados afirmaram não confiar ou confiar pouco na Polícia Militar. Da mesma forma, 51,5% dos entrevistados afirmaram que as abordagens de PMs são desrespeitosas e inadequadas.

Como se não bastasse, essa Folha mostrou no domingo que, em cinco anos, a Polícia Militar de São Paulo matou nove vezes mais do que toda a polícia norte-americana ("PM de SP mata mais que a polícia dos EUA", "Cotidiano").

Ou seja, temos uma polícia que mata de maneira assustadora, que age de maneira truculenta e, mesmo assim (ou melhor, por isso mesmo), não é capaz de dar sensação de segurança à maioria da população.

É fato que há aqueles que não querem ouvir falar de extinção da PM por acreditar que a insegurança social pode ser diminuída com manifestações teatrais de força.

São pessoas que não se sentem tocadas com o fato de nossa polícia torturar mais do que se torturava na ditadura militar. Tais pessoas continuarão a aplaudir todas as vezes em que a polícia brandir histericamente seu porrete. Até o dia em que o porrete acertar seus filhos.



A Volta da Rota 66 (Ou deveria se chamar ROTA 45?)


A morte deplorável do jovem empresário Aquino na madrugada fria de uma quarta feira não teve testemunhas. Nem precisava. O carro cravejado de balas e um filme de câmera de prédio dizem tudo. Aquino foi cercado e fuzilado. Sem chances de dizer quem era. Nove homens armados até os dentes contra um profissional das ideias, um publicitário.


E apenas alguém liberto pelas idéias poderia praticar o gesto ousado de fazer aquilo que está na cabeça de qualquer paulistano: ignorar os agentes homicidas de Estado que fecham com barricadas ruas em São Paulo apenas para fazer crer à população que a cidade não se tornou um pátio de presídio comandado pelo “primeiro comando da capital”, o PCC.

Como as periferias de há muito, agora também os bairros em que se reúnem os jovens em São Paulo estão cercados por gendarmes que intimidam os que frequentam bares e restaurantes.

Ao invés de guardarem os locais onde pulsa a vida paulistana, assediados por arrastões, a polícia coloca-se à espreita nas vias de saída para importunar quem tomou um ou dois copos de cerveja. Numa espécie de volta aos tempos da expressão “documento vagabundo” da época da ditadura, lembrada pelo episódio emblemático da fuzilaria da Rota 66, em que 5 jovens foram sumariamente assassinados por não atenderem a ordem de parada de uma guarnição militar.

Mas por que os cães foram soltos? Por que a volta da política de tolerância zero que encheu de presos, primeiro as delegacias e depois os cadeiões, dando ensejo ao surgimento do PCC? Porque é época de eleições e até agora a polícia está perdendo de 3 a zero o embate com o crime organizado em São Paulo. Pensam que uma política de segurança pública do tipo daquela adotada na cidade de Nova Iorque, poderia constituir-se numa grande oportunidade eleitoral.

Eis o que está por trás do assassinato do publicitário Aquino: a percepção das autoridades de que polícia que atira antes e pergunta depois rende votos. Ignoram, por pendão autoritário, a pregação da “oculta compensatio” que outro Aquino, São Tomás, entendeu devesse regular a ação do Estado frente a cidadania e que inspira hoje em dia, na maioria das democracias ocidentais, o princípio jurídico da bagatela.

Por esse princípio o aparelho repressivo do Estado não deveria ser utilizado para ações de mínima gravidade, em que estariam configuradas a baixa ofensividade, a inexistência de periculosidade social e o ínfimo grau de reprobabilidade da conduta, além de inexpressividade da lesão jurídica provocada.

No caso de Aquino não apenas a ação que se buscou coibir foi banal como também desproporcional foi a reação estatal, expressa pela imposição sumária da pena capital mediante o uso indiscriminado de força letal pela corporação militar contra pessoa considerada suspeita, a simples juizo da soldadesca.

Que o governador venha a público num gesto de contrição afirmar que o Estado irá prontamente indenizar a família não surpreende, mas que o comandante interino da polícia militar diga em entrevista coletiva que o assassinato do homem que não parou numa blitz foi ato tecnicamente perfeito, comparável a um acidente de trabalho, enoja e mostra o quanto nossas vidas estão à mercê de gente despreparada.

Por tudo isso é que Ricardo Prudente de Aquino, 39 anos, deve ser considerado por todos os paulistanos um mártir da liberdade de ir vir, sem render-se a ação repressiva do Estado em qualquer esquina. Enquanto sua morte, em outro passo, bem pode ser tomada por um lembrete do governador e de sua polícia de que o sinal está fechado para os que são jovens, como bradou no tempo da Rota 66 o cantor Belchior.


Comentário do Senhor C.:

- Tudo bem! Declaremos, de antemão, deploráveis todas as mortes. Mas vamos logo tratando também de corrigir algumas injustiças, para não dizer distorções sociais. Por que não se choram em público também as mortes dos anônimos assassinados pela polícia paulista nas ruas da periferia? Em todas elas, o mesmo motivo: resistência à prisão e porte ilegal de armas e drogas. Todos os dias, ou melhor, todas as noites, dezenas de mães aflitas sabem que podem ser surpreendidas com a má notícia: - Boa noite, senhora, seu filho esbarrou numa patrulha, e por ter comportamento suspeito é mais um boi abatido a tiros.
Por fim, não sei se é a volta da Rota 66, pois só volta o que teria ido. No caso, a Rota nunca foi embora. Quando muito, poderia ter seu nome mudado para ROTA 45!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Obrigação de assistir a Globo



Levei meus dois filhos pequenos para um passeio cultural: atravessar o Guaíba, de catamarã, uma vez que o caçula comentou que nunca havia andado de barco. Minha alegria foi por água abaixo quando embarcamos e nos deparamos com quatro telas imensas exibindo a programação da Globo, em volume alto. Era o Vídeo Show, e estavam a comentar sobre as brigas e baixarias de uma novela que é desapropriada para menores de 12 anos. O meu caçula tem quatro anos e não conseguiu tirar os olhos da tela, sem apreciar a beleza do rio e do passeio.

Devido ao incidente, pretendo lançar uma campanha (abaixo-assinado) e até procurar o Ministério Público para mudar essa prática nefasta, que acho ser possível e que venha a ter o apoio tanto do governo quanto da população.

Por que somos obrigados a assistir à TV Globo em repartições públicas?

Quem já não se indignou por ter sido obrigado a assistir à TV Globo enquanto aguardava o atendimento em alguma repartição pública?

Ter que aturar Ana Maria Braga dentro do prédio da Receita Federal, ou VALE “A PENA” VER DE NOVO em fila da Caixa Econômica Federal, ou Vídeo Show dentro de uma prefeitura, pode não ser ilegal, mas é imoral, pois pagamos A PENA por assistir a toda aquela chatice alienante.

De acordo com o art. 5, inc LXXIII da Constituição Federal, “qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência”.

É IMORAL o benefício que o governo federal (ou estadual, ou municipal, que também se utilizam dessa prática) concede à Rede Globo pela exclusividade de exibição de seus programas em repartições públicas. A audiência que os governos garantem à Rede Globo é indecorosa e antidemocrática, pois deveriam, então, exibir todos os canais de televisão. São milhões de espectadores. Sem dúvida alguma, dezenas de milhões.

A desculpa esfarrapada para que 99% dos aparelhos das repartições públicas estejam automaticamente sintonizadas na TV Globo é “por causa do sinal”. Ora, isso não nos convence há mais de 10 anos; pois, com o avanço tecnológico do setor das comunicações, em geral, e, especificamente, com a internet, aquilo que ainda existe de melhor (ou menos pior) pode e deveria ser oferecido.

Nosso tempo é valioso, e, enquanto somos obrigados a ficar parados, esperando atendimento, deveríamos ser contemplados com coisas que nos compensem a perda de tempo de espera; ou seja, pagar A PENA pelo que “se deve”, assistindo a programas educativos e verdadeiramente informativos, adequados ao ambiente, e não sendo obrigado a acompanhar reprises de cenas de baixaria de uma novela, na qual duas mulheres se esbofeteiam e se ameaçam de morte.

Provavelmente você, leitor, já assistiu à TV Globo dentro de uma repartição pública, mas já imaginou que, em cada canto desse enorme Brasil, há uma repartição pública com aparelho(s) ligado(s), exibindo a programação da Globo? Eu suponho que a soma de todos os aparelhos de tevê que existem dentro de repartições públicas chega a milhões. É fácil supor essa quantidade, se imaginarmos todas as repartições públicas do Brasil. Em cada canto deste país há uma repartição pública com um televisor ligado exibindo programas da TV Globo. Seja numa delegacia de polícia ou num hospital.

Em relação ao atual índice de audiência da Globo, quanto, dessa fatia nacional, os aparelhos de repartições públicas, oferecidos pelos governos, representam no contexto? Pra quanto iria o índice de audiência da Globo se o governo fosse justo e cortasse esse privilégio concedido por não sei quem?

Eu quero levar ao conhecimento do Ministério Público e solicitar que tomem as devidas providências. Mas, provavelmente, também no Ministério Público deve haver uma sala de espera com uma tv ligada no Globo.

Colaboração de Kais Ismail, publicitário. Texto publicado originalmente no site Agência Assaz Atroz.