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terça-feira, 25 de outubro de 2011

GRÉCIA X ARGENTINA: A COMPARAÇÃO INCÔMODA





Em 2003 Argentina era um país em ruínas. Uma espécie de Grécia da América do Sul. A diferença é que Nestor Kirchner, ao contrário de Papandreu, não se dobrou ao receituário ortodoxo. Enquanto as previsões para a Grécia são de mais dez anos de recessão pela frente, a economia argentina foi a que mais cresceu no hemisfério ocidental na última década. As implicações dessa comparação incômoda são espertamente omitidas na análise da mídia conservadora, que hoje desdenha da vitória de Cristina.

(Carta Maior; 3ª feira, 25/10/ 2011)

Boaventura: O desenvolvimento do subdesenvolvimento

Portugal ruma para o subdesenvolvimento. Como é possível que as forças políticas não se perguntem por que é que o FMI, apesar de ter sido criado para regular as contas dos países subdesenvolvidos, tenha sido expulso de quase todos eles e os seus créditos se confinem hoje à Europa.

por Boaventura de Sousa Santos

Está em curso o processo de subdesenvolvimento do país. As medidas que anunciam, longe de serem transitórias, são estruturantes e os seus efeitos vão sentir-se por décadas. As crises criam oportunidades para redistribuir riqueza. Consoante as forças políticas que as controlam, a redistribuição irá num sentido ou noutro. Imaginemos que a redução de 15% do rendimento aplicada aos funcionários públicos, por via do corte dos subsídios de Natal e de férias, era aplicada às grandes fortunas, a Américo Amorim, Alexandre Soares dos Santos, Belmiro de Azevedo, Famílias Mello, etc. Recolher-se-ia muito mais dinheiro e afetar-se-ia imensamente menos o bem-estar dos portugueses. À partida, a invocação de uma emergência nacional aponta para sacrifícios extraordinários que devem ser impostos aos que estão em melhores condições de os suportar.

Por isso se convocam os jovens para a guerra, e não os velhos. Não estariam os super-ricos em melhores condições de responder à emergência nacional?

Esta é uma das perplexidades que leva os indignados a manifestarem-se nas ruas. Mas há muito mais. Perguntam-se muitos cidadãos: as medidas de austeridade vão dar resultado e permitir ver luz ao fundo do túnel daqui a dois anos? Suspeitam que não porque, para além de irem conhecendo a tragédia grega, vão sabendo que as receitas do FMI, agora adotadas pela UE, não deram resultado em nenhum país em que foram aplicadas – do México à Tanzânia, da Indonésia à Argentina, do Brasil ao Equador – e terminaram sempre em desobediência e desastre social e econômico. Quanto mais cedo a desobediência, menor o desastre.

Em todos estes países foi sempre usado o argumento do desvio das contas superior ao previsto para justificar cortes mais drásticos. Como é possível que as forças políticas não saibam isto e não se perguntem por que é que o FMI, apesar de ter sido criado para regular as contas dos países subdesenvolvidos, tenha sido expulso de quase todos eles e os seus créditos se confinem hoje à Europa. Por que a cegueira do FMI e por que é que a UE a segue cegamente? O FMI é um clube de credores dominado por meia dúzia de instituições financeiras, à frente das quais a Goldman Sachs, que pretendem manter os países endividados a fim de poderem extorquir deles as suas riquezas e de fazê-lo nas melhores condições, sob a forma de pagamento de juros extorsionários e das privatizações das empresas públicas vendidas sob pressão a preços de saldo, empresas que acabam por cair nas mãos das multinacionais que atuam na sombra do FMI. Assim, a privatização da água pode cair nas mãos de uma subsidiária da Bechtel (tal como aconteceu em Cochabamba após a intervenção do FMI na Bolívia), e destinos semelhantes terão a privatização da TAP, dos Correios ou da RTP.

O back-office do FMI são os representantes de multinacionais que, quais abutres, esperam que as presas lhes caiam nas mãos. Como há que tirar lições mesmo do mais lúgubre evento, os europeus do sul suspeitam hoje, por dura experiência, quanta pilhagem não terão sofrido os países ditos do Terceiro Mundo sob a cruel fachada da ajuda ao desenvolvimento.

Mas a maior perplexidade dos cidadãos indignados reside na pergunta: que democracia é esta que transforma um ato de rendição numa afirmação dramática de coragem em nome do bem comum? É uma democracia pós-institucional, quer porque quem controla as instituições as subverte (instituições criadas para obedecer aos cidadãos passam a obedecer a banqueiros e mercados), quer porque os cidadãos vão reconhecendo, à medida que passam da resignação e do choque à indignação e à revolta, que esta forma de democracia partidocrática está esgotada e deve ser substituída por uma outra mais deliberativa e participativa, com partidos mas pós-partidária, que blinde o Estado contra os mercados, e os cidadãos, contra o autoritarismo estatal e não estatal. Está aberto um novo processo constituinte. A reivindicação de uma nova Assembléia Constituinte, com forte participação popular, não deverá tardar.




Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Porque Dilma aqui e Cristina lá


I feel good, ou “A mi, me gusta Cristina”
do blog Tijolaço.com

O Globo chiou outro dia contra Dilma e Cristina Kirchner, dizendo que ambas eram beneficiárias de um tal“feel good factor”, ou a sensação de bem estar, como se fosse um crime abjeto um governante propiciar uma sensação de bem-estar e proteção a seu povo.

Hoje, reeleita Cristina Kirchner, a BBC publica uma matéria que lhes faria sentir, se tivessem coração, uma dor profunda por tanta crueldade, por tanta indiferença por uma gente que quer pouco, tão pouco, para ser feliz. E que, ao contrário deles, que usam os governantes como produtos descartáveis – já santificaram Sarney, Collor e FHC, e só não o jogaram de todo fora porque ainda lhes serve como pavão -, pessoas simples que amam aqueles que, finalmente, depois de décadas e séculos de exclusão, passaram a colocar o povão como cidadão e a lhe dar, pelo menos, o direito de trabalhar e se sustentar honestamente.

Leiam que maravilha a história de D. Silvia Sosa, que nunca vai ser personagem do Clarín, a Globo de lá, mas é capaz de dizer muita coisa sobre economia aos estúpidos.
O voto de D. Silvia


A argentina Silvia Susana Sosa, de 50 anos, mãe de quatro filhos, disse que votou na presidente Cristina Kirchner porque quer a “continuidade” da gestão que começou em 2003 quando o ex-presidente Nestor Kirchner assumiu a Presidência.

Cristina foi reeleita na Argentina no domingo para mais um mandato de quatro anos.

“Com eles (os Kirchner) eu pude comprar um terreno para construir, pela primeira vez, uma casa para mim e para meus filhos. Eu tenho dois empregos. Trabalho numa casa de família e faço limpeza no hospital Rivadavia, aqui da capital”, disse Silvia.

Os filhos mais velhos, gêmeos de 23 anos, também votaram pela reeleição da presidente.

“Os dois também estão trabalhando e é por isso que votaram nela”, disse.

Ela afirmou que ficou desempregada na histórica crise de 2001 e 2002, pouco antes da posse de Kirchner.

“Na crise, meus patrões ficaram com o dinheiro preso no banco (numa espécie de congelamento dos depósitos) e não tinham como me pagar. Fiquei sem trabalho naquela época. Agora não”, disse.

Ela afirmou lamentar que a mãe, de 78 anos, tenha morrido antes da medida lançada pelo atual governo que incluiu na cobertura da previdência estatal aquelas pessoas que não trabalharam com carteira assinada.

“Já pensou, ela estaria muito feliz com esta medida social do governo”, diz.

Segundo Silvia, que é da província de Santiago del Estero, mas atualmente mora em Buenos Aires, ela, a mãe e os filhos quase passaram fome na crise de 2001.

“Ninguém queria assumir a Presidência porque o país estava quebrado. Mas veio o Kirchner, as coisas melhoraram e agora surgiram vários candidatos da oposição. Estava claro que iam perder”, disse.

Ela afirmou ainda que graças ao acesso ao crédito já comprou eletrodomésticos para a casa que está construindo.

E a inflação?

“Existe inflação sim. Mas ela é culpa dos empresários que aumentam os preços porque querem prejudicar o governo”, respondeu.


Comentário do Senhor C.:

- Casa para morar com os filhos, emprego e renda....Huuuummnm, deve ser isso que a direita e as elites entreguistas do PIG e da oposição ainda não entenderam. I fell good!!!!!

Ciência & Sociedade: o debate sobre velocidade do conhecimento

E quando a ciência não tiver respostas  prontas?
Durante simpósio Brasíl-Índia sobre divulgação científica, professor da USP sugere debate do curioso manifesto “Slow Science”

Por Daniela Frabasile

Passou despercebido nos jornais diários, mas merece atenção um evento realizada na USP, na semana passada: o Simpósio Brasil-Índia sobre Divulgação Científica (vejaprograma). Expressão dos novos laços que começam a unir os países do Sul diretamente, sem intermediação da Europa e Estados Unidos, ele pretendeu “discutir, construir e consolidar uma rede acadêmica nos campos da ciência, tecnologia e cultura, para a compreensão geral da sociedade).

Na extensa grade de atividades, destacaram-se falas como a de Marcos Barbosa de Oliveira, professor da Faculdade de Educação, que discorreu sobre a responsabilidade social da ciência – e destacou, entre outros pontos, a aparição do movimento Slow Science. Seu manifesto fundador pode ser encontrado aqui.

Nos últimos anos, alertou Barbosa, avançou, por um lado a mercantilização da ciência. As pesquisas com aplicações rentáveis encontram farto financiamento, enquanto outras – indispensáveis para fins sociais ou para a própria expansão do conhecimento – são desaceleradas por falta de recursos. Pouco importam, nessa lógica, os impactos dos trabalhos na sociedade, saúde pública ou ambiente.

Até há pouco, considerava-se natural esta primazia do mercado. Mas a crise financeira deixou claro que a lógica mercantil não é eficiente sequer organizar a economia. Se nem na organização do capital o mercado é o mais eficiente, é preciso refletir sobre se a ciência deveria ser regulada por esse mesmo mecanismo.

Para Marcos Barbosa de Oliveira, houve, ao longo da história da ciência, altos e baixos na preocupação com a responsabilidade social. O professor acredita que hoje passamos por uma revitalização da responsabilidade social na ciência, nas pesquisas, nas teses e nos trabalhos.

Outro obstáculo a ser vencido, segundo Barbosa, é a expansão da proteção à propriedade intelectual. Também está ligada ao acúmulo de capital: ao patenteardescobertas, grandes corporações querem ter acesso exclusivo a certos conhecimentos, e explorá-los comercialmente. Mas, para para o professor, é uma tenência contrária à tradição de tornar a ciência disponível a todos – e permitir que muitos participem de seu desenvolvimento.

Vale ler (em inglês) o manifesto do Slow Science. Breve e elegante, ele não se refere diretamente à mercantilização da ciência. Mas fustiga a acomodação, a crença num conhecimento mágico que resolva, como ensinamento divino, problemas que cabe às sociedades, coletivamente, enfrentar. Num de seus trechos, ele frisa: “Precisamos de tempo para pensar. Precisamos de tempo para processar. Precisamos de tempo para nos desentenderemos uns aos outros, especialmente ao estimular o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não podemos dizer-lhe incessantemente o que nossa ciência significa; para quê ela será útil: porque simplesmente não sabemos. A Ciência precisa de tempo”.