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sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Europa em crise (III): entre o péssimo e o pior

Publicado em 8 de dezembro de 2011 por Antonio Martins




Reunidos até sexta-feira em novo encontro de cúpula, chefes de Estado parecem limitar-se a duas opções: grave retrocesso antidemocrático ou crise financeira devastadora

Esta manhã (8/12), poucas horas antes de começar em Bruxelas mais uma reunião dos governantes do Velho Continente, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou um conjunto inesperado e dramático de medidas. O objetivo evidente é evitar o risco de uma grande falência financeira, que poderia levar ao naufrágio uma reunião já muito difícil. Nas últimas horas, esta ameaça cresceu de forma inédita (veja porque).

Este fato novo embaralha as perspectivas da cúpula da União Europeia (UE). Nos últimos dias, os governos e correntes mais conservadoras haviam começado a costurar um acordo, que pretendem ver sacramentado na reunião. Ele foi desenhado nesta segunda-feira (5/12), em Paris, numa reunião entre a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Significa obrigar as sociedades europeias a sacrifícios novos e inéditos, para ampliar os ganhos (e manter a “tranquilidade”) dos mercados financeiros. (Veja relatos aqui: 1, 2, 3)


As linhas principais do acordo são as seguintes:

a) Obriga-se os países-membros da UE a mudanças constitucionais. Eles deverão incluir em suas Cartas “cláusulas de ouro” que limitam o direito a definir seu próprio Orçamento. A UE definirá mecanismos que garantam a transferência de recursos aos credores da dívida. Os investimentos sociais, a manutenção do Estado de bem-estar social e dos serviços públicos tornam-se objetivos secundários e subordinados;

b) Assegura-se que os interesses dos credores privados serão inteiramente preservados, caso a UE estabeleça um plano de “resgate” de um país em dificuldades. É uma retrocesso inclusive em relação ao que houve recentemente na Grécia, onde se aplicou uma tímida redução dos ganhos dos credores;

c) Atendidas estas condições, os governos agirão para reforçar o Instrumento Europeu para Estabilização Fiscal (EFSF, em inglês). Ele poderia reunir até 1 trilhão de euros, o que seria suficiente para “isolar” os países sob ataque e impedir que a crise se propague.

Durante três dias, o pré-acordo de Merkel e Sarkozy foi recebido com júbilo pelos mercados. Os juros pagos pela Espanha e Itália cederam ligeiramente. Mas desde ontem à tarde, a situação voltou a turvar-se. Aparentemente, os aplicadores passaram a considerar que é insuficiente mudar a Constituição dos países endividados. A pressão sobre papéis italianos e espanhóis voltou aos antigos patamares e as bolsas de ações estão em forte queda, hoje. As medidas adotadas às pressas pelo BCE parecem indicar emergência: informação de que, se não adotadas, um fato muito grave era iminente.

De qualquer forma, a esta altura, a reunião dos governantes europeus parece ter apenas dois resultados possíveis: ou uma submissão ainda mais profunda dos 99% aos interesses do 1% mais rico; ou a preparação de um terremoto financeiro cujas proporções podem ser bem superiores às da quebra do Goldman Sachs, em setembro de 2008.



Dinheiro não tem cheiro? Tem, e fareja-se


Do Tijolaço (ontem):

Quem acompanha este blog tem visto que, rastreando o depósito de empresas-fantasmas no paraíso fiscal das Ilhas Virgens apontado no livro de Amaury Ribeiro Jr – “A Privataria Tucana” – sabe que começamos encontrando o representante da Citco – aquela famosa PO Box 662 de Tortola – aqui no Brasil.

O senhor José Tavares de Lucena, contador, que abriga a sucursal brasileira da empresa é, ao lado de seu sócio, vizinho de prédio, na Bernardino de Campos, 98, Paraíso ( Paraíso, bairro paulistano, bem entendido) de um senhor, também contador, Jobelino Vitoriano Locateli, o administrador da Rádio Holdings – pertencente a Paulo Henrique Cardoso – que é sócia da Walt Disneu na Rádio Itapema. 
As três empresas situam-se no prédio aí da foto, no 14° andar. Jobelino fica três andares abaixo, no 11°.
Neste prédio estão sediadas dezenas das mais de 250 empresas que a Junta Comercial de São Paulo indica terem Tavares e Jobelino como proprietários, administradores ou procuradores.

Seria normal, pois são contadores, profissão legítima e que presta inestimável apoio legal a micro e pequenas empresas que não podem ter contadorias próprias, embora existam e possuam sede onde realmente funcionam.
Mas não é o caso desta dupla, descrita pela Istoé como “sócios em uma consultoria especializada em trazer multinacionais para o Brasil”. Dezenas de filiais de empresas estrangeiras representadas pela dupla estão registradas no mesmo prédio e até no andar da Rádio Holding.

As empresas que representam são graúdas, muito graúdas, como as Select Brazil Investimentos Imobiliários I, II e III, que a gente já mostrou aqui, que receberam um aporte de cerca de R$ 130 milhões do JP Morgan, aquele mesmo banco que comprou – embora não apareça isso na Jucesp – a Portal de Documentos S.A. , nomeou dois americanos como conselheiros e fez de Verônica Serra sua procuradora.

Ali, naquele 14° andar, tem sede até uma empresa chamada Ryder do Brasil Ltda.- cujo objeto destacado é “SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO E REPARAÇÃO MECÂNICA DE VEÍCULOS AUTOMOTORES” – e não tem mais filiais, embora tenha um capital social de quase R$ 54 milhões, 96 % deles pertencente a um escritório de investimentos na Holanda, a RSI Holding B.V. Deve ter bons elevadores, o prédio.


Tavares é um homem discreto, que mora modestamente em São Caetano do Sul, conforme consta dos registros da Jucesp. Discreto, mas descuidado, porque aparece com dois CPFs diferente nas empresas Select-JPMorgan-Citibank International. A bagunça é tanta que trocaram os CPFs e forneceram como seu o do moçambicano Décio Golins NG Deep, que é da empresa TMF, ex-Serplac, que montou as pequenas firmas que os dois bancões estrangeiros fizeram elevar o capital de R$ 1.200 para R$ 130 milhões. Por isso, Tavares de Lucena aparece com um CPF incorreto, como aliás aparecem os dois americanos do JP Morgan que Veronica Serra representa na Portal de Documentos SA.

Já Jobelino Locatelli não é tão discreto. Há 12 anos, abriu suas intimidades pessoais para a edição de 2° aniversário da Revista Época, cuja imagem se reproduz acima. Ali, aliás, é identificado como advogado, embora não seja registrado na Ordem, segundo pesquisa no site da OAB-SP.

Mais recentemente tem falado à imprensa como CEO da Grant Thornton Brasil, na verdade quatro empresas que mantém em sociedade com Lucena, sem qualquer participação acionária da Grant Thornton International, depois que o escritório que a representava no Brasil era outro e se juntou à empresa de auditoria Ernst&Young.

Esta Grant Thorthon, que funciona no mesmo escritório da Radio Holdings, da Radio Itapema-Disney, da Citco do Caribe e da oficina mecânica Ryder do Brasil, diz, no seu site, que tem “uma equipe de profissionais competentes, liderada por responsáveis com uma vasta experiência nos mais diversos ramos de atividade”. Deve ser duro fazer consultoria econômica com tanta gente e tanto barulho, não é? Ainda mais que lá no prédio é a sede do Facebook no Brasil, da Netscape (para quem responde pelo registro de dezenas de domínios de internet), da Netflix. Todas, claro, com Jobelino como diretor ou administrador.

Aos 72 anos, realmente, é um homem de grande vigor, dirigindo duas centenas de empresas e, certamente, dezenas de milhares de funcionários naquele prédio.

PS. Não, isso nada tem a ver com a redução do IPI para máquinas de lavar, recentemente adotadas pelo Governo. E espero não estar atrapalhando o pessoal da Polícia Federal. Só usei a consulta pública da Junta Comercial de São Paulo. É só fazer o cadastro, procurar pelo nome e abrir os documentos.


Margot, a ex-sócia de Verônica Serra

Do Tijolaço:

Verônica Sera, na foto publicada no Valor Econômico: compra de empresa pela JP Morgan sem registro na Junta Comercial de SP

Graças ao leitor Ivan, a gente confere que, de fato, a D. Verônica Serra é a representante da OEP, braço do JP Morgan, em seus investimentos no Brasil.

Está lá, no Valor Econômico, que a Portal de Documentos SA foi mesmo comprada pelo banco, por um valor entre US$ 100 e 200 milhões de dólares.Diz o jornal:

De acordo com Verônica, não haverá mudanças na gestão da empresa investida. “A One Equity não entra nas companhias para fazer mudanças no dia a dia. A atuação é feita por meio do conselho de administração”, diz. Dos seis assentos do conselho, a One Equity terá três deles. Além da própria Verônica, estão nele Christian Ahrens e Brad Coppens, diretores do braço de investimentos do J.P. Morgan.”

Embora a transação seja de 1° de fevereiro deste ano, não há registro dela na Junta Comercial, muito embora Serra, Ahrens e Bradley ( o Brad), estejam desde esta época lá como conselheiros. Donde se pode, despreparados como somos, concluir que foram vendidas três cadeiras no conselho da empresa, não parte da empresa. Ou será que eles mandam na empresa, mas não respondem societariamente por isso?

Bem, mas a matéria nos aponta que o negócio foi feito pela Pacific Investimentos, uma das empresas de Verônica.

Um empresa recente, criada em março do ano passado, com um capital de R$ 268.834,00. Três sócios de R$ 1,00, para constar e R$ 188.181 de Verônica e R$ $ 80.650 para a cidadã americana Margot Alyse Greenman.

Em apenas cinco meses, em agosto, esta eficientíssima empresa consegue lucros de R$172.930 – uma proeza fantástica, pois menos de 30% do capital registrado tinha sido integralizado, ou R$ 82, 6 mil - e estes lucros são distribuídos da seguinte forma: a sócia majoritária, Veronica Serra, fica com menos, R$ 80.650 – pagos à vista – e Margot com R$92.280, sendo R$ 24.280 cash e o resto na forma de um Corolla 2008, flex, pertencente à empresa. Como o carro foi contabilizado como lucro, não deve ter feito parte da integralização do capital.

No mesmo dia 25 de agosto, D. Margot vai embora, a bordo do Corolla, da empresa, que passa a ser toda, exceto por R$ 2, de Verônica Serra.

Com D. Margot, vão embora as ligações formais da Pacific Investimentos com o nome Morgan e com o Caribe.

Porque D. Margot é uma mulher muito presente nestes negócios.

Logo em setembro ela é admitida como diretora da Solfin Securitizadora de Crédito, que muda de nome para Financial Crédito, e que salta de um capital de R$ 10 mil para R$ 65 milhões. Lá, ela tem a companhia, como colegas de diretoria, do ex-presidente do BNDES, José Pio Borges, e o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda de FHC,Winston Fritsch.

Mas, deslocando-se com seu Corolla, ela acha tempo para representar, como diretora financeira, os modestos R$ 200 que a MR Brasil Empreendimentos Imobiliários adquire na Financial 1 Desenvolvimento Imobiliário, criada em 13 de outubro de 2010. E ela já representava esta empresa nas participações de R$ 160 na Abioye Empreendimentos e de ser diretora da Financial ABV, outra empresa modesta, de apenas R$ 1 mil de capital social.

Uma trabalheira, sobretudo para quem, dois dias antes de fundar a empresa em sociedade com Verônica Serra, era admitida como administradora da Acelo Participações, fundada por membros de um escritório de advocacia e que, naquele mesmo dia 3 de março os substituia pela Morgan Rio Interests II, PLC e pela MR (bom abreviar, não é?) Aflilliants II, LLC, ambas sediadas na 9 West 57TH Street, 26 ° andar, em Nova York. Com D. Margot e com as MR, o capital da empresa, que era de R$ 1 mil, foi subindo até chegar aos R$ 20.718.966 de hoje.

Com tudo isso, D. Margot – e participando de outras empresas, que não listo por piedade do leitor – ainda participava de seminários, como representante no Brasil do Morgan Rio Capital Manegement.

Este fundo, dirigido pelo sr. Jacobo Buzali, tem escritório em Nova York e está sediado – adivinhou? – nas Ilhas Cayman, mais precisamente na 27 Hospital Road, 5TH Floor, P.O. BOX 10293, no Citi Hedge Fund Services , no Cayman Corporate Centre, em Georgetown.

Ou o mundo é pequeno ou o Caribe é grande, o que vocês acham?

PS. Os documentos, como sempre aqui, são públicos. Estão na Junta Comercial de São Paulo. Basta fazer o cadastro e acessar.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Dossiê inédito revela abusos rumo à Copa do Mundo




A Pública teve acesso ao relatório feito por organizações populares das 12 cidades-sedes da Copa – e traz o documento para seus leitores. Ele diz que o povo e os seus direitos estão ficando de fora.

Por Andrea Dip, Publica

O clipe que propagandeia a Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil, mostra uma mesa de reuniões de um escritório em Nova York. Um grito de gol ecoa de um lugar longinquo e um americano engravatado diz (em inglês): “Você ouviu isso?”.

O vídeo segue mostrando as nossas belezas naturais como as lindas praias do Rio de Janeiro e as cataratas de Foz de Iguaçu. O locutor termina: “O Brasil está te chamando. Celebre a vida aqui”.

Aqui no Brasil, porém, o clamor das ruas parece mais protesto do que comemoração. Apaixonados por futebol, os torcedores dizem ter sua cidadania ameaçada por acordos de gabinete e seus direitos roubados pelas exigências da FIFA e pelas obras faraônicas que rasgam as cidades.

É o que se lê no dossiê “Mega-eventos e violações de Direitos Humanos no Brasil”, preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas, e lançado nesta segunda-feira (12) de forma simultânea pela Pública e em atos de Comitês Populares por todo o país.

No Rio de Janeiro, haverá uma concentração em frente à Prefeitura às 10h30; em Belo Horizonte haverá uma marcha que se concentrará na Praça 7 às 14h; em Curitiba, uma marcha sairá às 10h rumo à Prefeitura de São José dos Pinhais. Em Natal haverá uma audiência pública; em São Paulo e em Porto Alegre, o documento será entregue às devidas prefeituras, enquanto em Brasília o comitê regional irá buscar o governo federal.

Acompanhamento das obras

O lançamento do documento acontece pouco depois da Articulação lançar um site próprio (http://www.portalpopulardacopa.org) que deve acompanhar a situação dos torcedores na contagem dos dias para a Copa do Mundo.

Tanto o site quanto o relatório foram produzidos conjuntamente por comitês populares, que são agremiações de organizações sociais e pessoas que serão atingidas pelas obras em Belo Horizonte, Brasilia, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Além de denúncias de violações de direitos, o documento traz um quadro completo de acompanhamento das obras para a Copa do Mundo, incluindo custos previstos, valores licitados e como está o andamento até o momento.

A reforma do Maracanã, por exemplo, tinha um valor previsto em 600 milhões mas acabou sendo licitada a um valor de 859 milhões, metade pago pelo BNDES segundo o dossiê. Da mesma forma, os píeres do porto do Rio de Janeiro, cujo custo estimado era de 314 milhões, foram licitados a 610 milhões. O mesmo ocorre com dezenas de projetos apontados no levantamento.
2092 despejados. E é só o começo
Os movimentos populares, apoiados por acadêmicos e pesquisadores, estimam que pelo menos 170 mil pessoas têm seu direito à moradia violado ou ameaçado pelos mega-eventos que estão por vir, em especial a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
O dossiê aponta que a realização da Copa do Mundo 2014 em doze cidades e das Olimpíadas 2016 no Rio de Janeiro agrega novos elementos críticos à já grave questão habitacional nessas capitais: grandes projetos urbanos com impactos econômicos, fundiários, urbanísticos, ambientais e sociais. Por exemplo, devem se proliferar os condomínios de luxo e centros empresariais que não “comportam” pobreza em seus arredores, ou que podem atropelar comunidades para se expandir.

Não há dados oficiais sobre os despejos; o documento faz uma estimativa a partir de relatos de quem mora nas cidades.

Até o início de dezembro, havia 21 casos de vilas e favelas nas cidades de Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo que foram desocupadas, segundo o relato de seus moradores, “com estratégias de guerra”. Até o momento 2092 pessoas teriam sido despejadas.

“(São) estratégias de guerra e perseguição, como a marcação de casas a tinta sem esclarecimentos, a invasão de domicílios sem mandados judiciais, a apropriação indevida e destruição de bens móveis, a terceirização da violência verbal contra os moradores, as ameaças à integridade física e aos direitos fundamentais das famílias, o corte dos serviços públicos ou a demolição e o abandono dos escombros de uma em cada três casas subseqüentes, para que toda e qualquer família tenha como vizinho o cenário de terror”, diz o documento.

Um dos casos mais emblemáticos é o do Parque Linear Várzeas do Tietê, na cidade de São Paulo. “Dividida em três etapas, a obra prevê a construção de uma avenida, ‘Via Parque’, para ‘valorizar a região’ [...] que fica às margens da rodovia Ayrton Senna, entre o Aeroporto Internacional de Guarulhos e o futuro estádio do Corinthians, provável sede paulista na Copa do Mundo, em Itaquera. Mais de 4.000 famílias já foram removidas do local sem serem consultadas sobre a implantação do parque e sem saber para onde iriam. Outras 6.000 famílias aguardam, ignorando seu destino. ‘Pegaram nós de surpresa. Com um projeto de tamanha proporção, a comunidade no mínimo tinha que ser consultada. [...] As famílias foram morar ali há mais de 40 anos, quando ainda não era Área de Proteção Ambiental’, diz o líder comunitário Oswaldo Ribeiro”.

Um dos locais mais ameaçados é Fortaleza, que segundo o documento terá mais de 15.000 famílias atingidas por empreendimentos relacionados à Copa do Mundo.
Exploração dos trabalhadores gerou 10 greves pelo país
A Fifa determinou que as obras dos estádios deveriam estar prontas antes de 31 de dezembro de 2012, a tempo de sediar a Copa das Confederações em 2013.

Diversas vezes Jérôme Valcke, secretário-geral da entidade, fez pronunciamentos em que alertava para o atraso das obras e cobrava do país um ritmo mais acelerado. Diante de tanta pressão, alguém tinha que pagar a conta.

Segundo o dossiê, foram os trabalhadores das obras: “Essa pressão parece favorecer também às próprias empreiteiras, uma vez que contribuiu para os atropelos legais, aportes adicionais de recursos públicos, irregularidades nos processos de licenciamento de obras e inconsistência e incompletude de alguns projetos licitados sem qualquer segurança econômica, ambiental e juridical”, afirma o documento.

“Mais do que isso: serviu como pretexto para as violações de direitos dos trabalhadores nas obras dos estádios e dos projetos de infraestrutura. A conjugação entre a magnitude das obras e os cronogramas supostamente apertados para realizar os empreendimentos já tem resultado em más condições de trabalho e na superexploração dos operários, a despeito das cifras milionárias destinadas às obras”.

Em pouco tempo, mobilizações, paralisações e greves começaram a pipocar pelo país.

O dossiê contabiliza que até novembro de 2011, foram registradas pelo menos dez paralisações em seis dos 12 estádios que serão usados para a Copa: no Mineirão em Belo Horizonte, no Mané Garrincha em Brasília, no Arena Verdão em Cuiabá, Arena Castelão em Fortaleza, no Arena Pernambuco em Recife e até no Maracanã, no Rio de Janeiro.

Entre as principais reivindicações das greves estavam desde aumento salarial e concessão de benefícios como plano de saúde, auxílio alimentação e garantia de transporte até melhoria nas condições de trabalho (em especial, os trabalhadores reclamam das condições de segurança, salubridade e alimentação), aumento do pagamento para horas extras e o fim do acúmulo de tarefas e jornadas de trabalho “desumanamente prolongadas”.


O povo, excluído da festa

Enquanto os movimento sociais estão promovendo cada vez mais o debate sobre as obras da Copa, a população em geral não participa dos órgãos e da estrutura de organização de sua preparação. As portas estão fechadas à participação popular, segundo o dossiê.

“Informações sobre os processos de preparação para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 não são apenas negadas à população em geral, mas mantidas secretas até mesmo para os órgãos de controle do próprio Estado, como o Ministério Público” diz o dossiê, e ainda: “Nesse contexto, vemos as populações atingidas fora das instâncias decisórias e mesmo sem ter acesso à informações básicas para a defesa de seus direitos. Enquanto isso, uma diversidade de organismos são instituídos em nível federal, estadual e municipal, tais como grupos gestores, comitês, câmaras temáticas e secretarias especiais da copa”.

Passada a Copa, fica o legado

Em uma carta anexa ao documento, os comitês populares se mostram preocupados com o legado dos mega-eventos.

Dizem que até agora não é evidente que as obras contribuam minimamente para a inclusão social e a ampliação de direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais: “Ao contrário, a falta de diálogo e transparência dos investimentos aponta para a repetição do que ocorreu no período dos Jogos Panamericanos de 2007, quando assistimos ao desperdício de recursos públicos (de acordo com o TCU, mais de R$ 3,4 bilhões foram gastos de forma indevida, mas ninguém foi punido) em obras superfaturadas que se transformaram em elefantes brancos”.

Rompendo a lei

Os movimentos sociais também alertam para medidas e normas que atravessam as leis do Brasil e procedimentos de exceção usados para simular a existência de estudos ambientais e processos de licenciamento ambiental, em regime “de urgência”. Confira o box abaixo:


Box 1.1 – Cidade de Exceção

“O totalitarismo moderno pode ser definido, nesse sentido, como a instauração, por meio do estado de exceção, de uma guerra civil legal que permite a eliminação física não dos adversários políticos, mas também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam não integráveis ao sistema político” (Giorgio Agambem; Estado de exceção. São Paulo, Boitempo, 2004, p. 13)

Conhecida como “Ato Olímpico”, a Lei n. 12.035, de 1/10/2009 é a primeira de uma longa lista de medidas legais e dispositivos normativos que instauram as bases de um ordenamento e institucionalidade que não podem ser compreendidos senão como uma infração ao estado de direito vigente.

Nesta lei, entre outras coisas, são asseguradas condições excepcionais e privilégios para a obtenção de vistos, exercício profissional de pessoal credenciado pelo COI e empresas que o patrocinam, cessão de patrimônio público imobiliário, proteção de marcas e símbolos relacionados aos Jogos Rio 2016, concessão de exclusividade para o uso (e venda) de espaços publicitários e prestação de serviços vários sem qualquer custo para o Comitê Organizador. Ademais, num capitalismo do qual o risco teria sido totalmente banido, a lei genericamente “destinação de recursos para cobrir eventuais défices operacionais do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016”.

Segue-se, a partir daí, a nível federal, estadual e municipal, uma interminável lista de leis, medidas provisórias, decretos, resoluções, portarias e atos administrativos de vários tipos que instauram o que vem sendo chamado de “cidade de exceção”. Todas as isenções fiscais e tributárias são oferecidas às entidades organizadoras, mas também a uma infinidade de “cidadãos mais iguais”, que não precisam pagar impostos sobre serviços, tributos territoriais urbanos, taxas alfandegárias.

Planos diretores e outros diplomas, muitos deles resultado de longos e ricos debates na sociedade, caducam em ritmo vertiginoso diante do apetite de empreiteiras, especuladores imobiliários, capitais do setor hoteleiro e turístico e, evidentemente, os patrocinadores dos mega-eventos. Assim, por exemplo, o projeto de Lei Geral da Copa – PL n.2330/2011, em apreciação pela Câmara dos Deputados – pretende, entre outros desmandos, responsabilizar a União por danos e prejuízos da FIFA e suspender a proibição da venda de bebidas alcoólicas em estádios para atender aos reclamos de uma entidade esportiva comprometida com grande empresa internacional do ramo de cerveja.

Ao mesmo tempo, enormes extensões de bem localizadas terras públicas são entregues, quase de mão beijada, a grandes empresas, quando a Lei Federal n. 11.124, de 16/06/2005, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, determina claramente a “utilização prioritária de terrenos de propriedade do Poder Público para a implantação de projetos habitacionais de interesse social”.

Em aberta violação à legislação federal, e às próprias constituições estaduais e leis orgânicas dos municípios, são aprovadas doações, concessões e operações urbanas que têm a ver com o interesse público ou prioridades sociais. No Rio de Janeiro, por exemplo, embora a lei determine a destinação prioritária de terras públicas para a habitação social, o Decreto Municipal n. 30.379, de 1/01/2009, estabelece que o Poder Executivo “envidará todos os esforços necessários no sentido de possibilitar a utilização de bens pertencentes à administração pública municipal, ainda que ocupados por terceiros, indispensáveis à realização dos Jogos Rio 2016”.

Assim, vê-se o poder publico mobilizado para “limpar” terras públicas de habitação popular e entregar estas áreas à especulação imobiliária, em nome, claro, da viabilização dos eventos, como acontece na Vila Autódromo, no Rio de Janeiro.

Em triste evocação do que foram os tempos cinzentos da ditadura militar, o poder pública criar um aparato de segurança especial (a nova Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos, conforme o Decreto n. 7.536, de 1/08/2011). E para completar o cenário de exceção, uma nova tipificação penal e justiças especiais são previstos no projeto da chamada Lei Geral da Copa.

Também procedimentos de exceção são utilizados para simular a existência de estudos ambientais
e processos de licenciamento ambiental, em regime “de urgência”.

Estamos diante da imposição da “forma legal daquilo que não pode ter forma legal” (Giorgio Agambem;
Estado de exceção. São Paulo, Boitempo, 2004, p. 12).

Para um país que há menos de 30 anos estava submetido à ditadura, a violação sistemática de nossa legalidade e aparato institucional e a implantação da cidade de exceção constituem legados inaceitáveis.