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domingo, 22 de julho de 2012

Batobrigado ao Velho Batman Adam West

O tam-nanam-nanam-nanam-nanam-nanam da abertura de Batman funcionava mais que zoada de amolar faca no batente para atrair gato

Por Miguel Rios

Não é o melhor nem o pior Batman. Nem passa perto do Batman de hoje. É, simplesmente, o inesquecível. Adam West, meu velho, nós te agradecemos.

Agradecemos por aquela saudosa espera mais que ansiosa por um início de episódio. E pela frustração quando acabava.

Era por volta do meio-dia que começava. O tam-nanam-nanam-nanam-nanam-nanam da abertura de Batman funcionava mais que zoada de amolar faca no batente para atrair gato.

Se aluno do turno da manhã, tinha de sair rápido da escola, quando a sineta tocava, vexado a chegar em casa no horário certo. Não tirava nem os sapatos, quanto mais a farda ao chegar em casa. Tempo curto. Bastava jogar a mochila na poltrona, sentar no chão e ligar a TV. Se aluno da tarde, saía do banho e de meias nos pés, de calças, camisa ainda no encosto da cadeira, almoçava de prato na mão e olho na tela. Vestido por inteiro de expectativa.

Respeito nulo pelas refeições à mesa, sem ouvir direito as queixas e perguntas da mãe, que, mesmo acostumada, mesmo sabendo não adiantar, resmungava, repetia a pergunta, e repetia, perdia e tirava a paciência.

Agradecemos por aquela rotina nada enfadonha. Pelo compromisso diário nada enjoativo. Por nos ensinar heroísmo, leseira e prazer. Por nos mostrar que heroísmo, leseira e prazer ampliam a mente, ajudam a diferenciar o sério do sem noção e que os combinar e os separar, nos momentos certos, engrandece tanto.

Nossa bobeira necessária. Revigorante. Que em nada reduz. Acentua a sinceridade, bem melhor que uma maturidade de superfície.

Após cada episódio, a sensação de dever cumprido. Não era assistir por assistir. Era debater. Havia senso crítico. Rasteiro, mas havia e se fazia gigante. Quem precisava de sofisticação e apreciação apurada?
Trocar ideias de como Batman e Robin fugiriam das armadilhas mortais, que colocavam todos de volta no dia seguinte no mesmo batlugar, na mesma bathora, no mesmo batcanal, na mesma batvitrificação, era o importante.

Nem aí para a tosqueira. Nem aí para a falta de praticidade dos vilões que não lhes metiam logo tiros na cara. Eles eram presos a uma esteira rolante indo em direção a uma serra elétrica, eram descidos devagar, pendurados em uma corda, dentro de um tonel de ácido sulfúrico. Era suspense, era com requintes de crueldade, surreal e demais.

Passava longe do atual Batman da megatrilogia de Christopher Nolan e Christian Bale. O ar soturno e problemático, cheio de angústia do complexo Batman, dava lugar ao tom bem comportadinho, cheio de discursos e bons costumes. A hoje Gothan City escura e depressiva, era cor, sol e psicodelia 60’s.

Um Batman restart. Canastrão e desengonçado. As brigas convenciam aos puros de coração. Socos e pontapés ensaiados. Vaso na cabeça, chute no estômago, cadeirada nas costas. Coreografia de quadrilha junina improvisada. Sonoplastia legendada de Pows! Pofs! Craws! Mas ninguém reclamava.

Efeito especial mais requintado era caminhar na fachada de um prédio seguros na batcorda. Aí diziam: “Tão andando em um cenário onde o chão foi disfarçado de parede. Aí depois dão um giro na imagem”. Quem queria explicação técnica? Custava nada botar fé.

Tecnologia era dispensável. Bom mesmo eram os apetrechos do velho cinto de utilidades, que pareciam comprados na Ri Happy, projetados pela Fisher Price. Física e química avançadas para quê?

Primor para quê? Os caras lá imaginavam e viam o que dava para fazer e como fariam. Tipo vídeo caseiro do YouTube com um pouquinho mais de técnica no estúdio. Olhar clínico do telespectador para quê? Os critérios eram outros. Bom era o Batmóvel sair e entrar da Batcaverna tendo uma planta meio seca como portão. Era Bruce e Dick escorregarem da biblioteca da Mansão Wayne até o subterrâneo por dois postes de pole dance, ocultos atrás da estante, e chegarem lá embaixo já vestidos. Era o batfone vermelho dentro de um protetor de bolo.

Bom era Adam West meio barrigudinho, apertado naquele colante cinza, disfarçando os pneuzinhos com um cinto amarelo-canário e o cuecão de couro beirando o umbigo. A máscara com as sobrancelhas delineadas. O preparo físico de papudinho.

Bom era a dublagem para Burt Ward. Robin com voz de criancinha. Um plus que o Brasil forneceu e deu um magnífico diferencial. Bom foi passarem décadas e décadas dizendo que um cara com timbre fininho de fala não poderia ser um lutador de alto nível e hoje ter Anderson Silva sambando na cara dos dogmas sociais.

Bom era a Batgirl e a Mulher-Gato darem a impressão de ter comprado o macacão de periguete na mesma queima total de preços do Gothan Mall. Bom era o Charada, o Coringa, o Pinguim e o Rei Tut não terem a mínima cara, nem disposição física, para vilões, e posarem como tais, quando deveriam estar no Zorra Total. Bom eram os capangas com uniforme temático, de acordo com o chefe-destaque, como que em ala de escola de samba.

Melhor eram as caras e bocas na interpretação. Os momentos de alta reflexão, quando Robin tinha uma dúvida e, entusiasmado, chamava tudo de “santa...” Era quando Batman se aproximava da câmera, e, compenetrado, nos ensinava sobre a decência, tal qual He-Man e suas dicas, com um pouco mais de batdrama.

Bom era gostar dessa mistureba bronca de tolices. Um batpastelão. Em nada diminuiu a imagem do Batman dolorido, cheio de contradições e peso na alma que cresceu, evoluiu e agora temos.
Bom era o velho Adam West. Agradecemos a ele seu empenho, seus micos, nosso passado. Sem brincadeira, valeu mesmo!


Mario Balotelli, um jogador esculpido a golpes



Seu caráter indomável resulta de uma vida marcada pela rejeição e pelo desejo de melhorar

PAULO ORDAZ

Roma 21 JUL 2012, no El Pais

Seu sonho era vestir a camisa da seleção italiana de futebol, mas no dia em que vestiu e conseguiu uma vitória com a qual sonhava, tirou a camisa. Ninguém sabe porque ele fez isso, nem ele mesmo, mas no gesto poderoso e provocador, ficar nu e imóvel como uma estátua, sabendo que receberia um cartão amarelo, descansam todas as contradições de um africano chamado Mario Balotelli, de um negro italiano, de um rebelde que, quando milhões de espectadores da Eurocopa esperavam um pouco de sua loucura real ou fingida, correu para as arquibancadas para se derreter em um abraço com sua mãe, branca, uma senhora de Brescia, que o adotou quando ele tinha dois anos de idade e era um menino magricela, sem futuro.

A vida de Mario Balotelli, que ainda não completou 22 anos de idade, daria três filmes. O primeiro teria o roteiro de uma dessas séries que passam depois do almoço de Natal. Falaria de um bebê doente nascido no sul da Itália, filho de imigrantes de Gana… Mas, não vamos não antecipar os acontecimentos. O segundo filme poderia ser de ação, de automóveis de luxo, brigas, situações-limite, seria filmado entre Milão e Londres e poderia ser assistido por todos os públicos. O terceiro, este não.

Trataria de festas em Saint Tropez e Ibiza, e seus protagonistas seriam um gigante de 1m88cm de altura e seus amigos famosos, de uma tal de Paris Hilton à modelo italiana Raffaella Fico que, no fim das contas, engravidou, presumivelmente do protagonista.

Todos os filmes, porém, seriam perpassados pelo futebol, porque essa é a paixão louca de Mario Balotelli. E não falta, é claro, o bom muito bom e o ruim muito ruim. O primeiro papel poderia ser de Silvia Balotelli, italiana que, ao adotá-lo, tornou a vida possível. O segundo seria de quem a tornou impossível. Um clássico do gênero. José Mourinho.

Mas as primeiras coisas, primeiro. Mario Balotelli nasceu em Palermo (Sicília) em 12 de agosto de 1990. Seus pais jovens, Thomas e Rose Barwuah, tinham acabado de chegar de Gana. Sua situação não poderia ser pior, de modo que, com Mario ainda bebê, decidiram mudar-se novamente, desta vez para o norte próspero da Itália. Eles se estabeleceram em Bagnolo Mella, Brescia (Lombardia). O menino passou seus dois primeiros anos em um hospital sofrendo de uma grave doença intestinal. Os Barwuah, que viviam com outros imigrantes, decidiram colocar o filho para adoção.

Um dia, no final de 1992, os serviços sociais de Brescia bateram à porta de Francesco e Silvia Balotelli. Eles tiveram três filhos naturais — Corrado, Giovanni e Cristina — e davam apoio a outras famílias em dificuldades. Tanto que em uma ocasião a Sra. Balotelli telefonou para os serviços sociais: “Eu lhes peço, não nos telefonem mais”. Mas voltaram a fazê-lo. Agora, recorda: “Ligaram para eu ver uma criança de cor de dois anos, Mario Barwuah. Já não estava doente. Meu marido levou um carrinho de bebê e a criança pegou na mão dele”. Em 1993 ele se tornou Balotelli, um garoto negro de um bairro branco, um menino travesso que sentiu que seu futuro era ligado à bola. “Enquanto seus irmãos estavam jogando PlayStation”, diz Silvia, “ele sempre estava no corredor, era o seu campo de futebol, e nunca deixou sua bola, nem ao deitar. Jogava jogos intermináveis ​​contra adversários imaginários”.

Não demorou muito até que os rivais imaginários se tornassem reais. Sua carreira tem a velocidade de um de seus piques. Já em seu primeiro time bateu recorde de gols. Depois de rejeitar ofertas de grandes clubes, assinou com a Inter de Milão.

Nunca um jogador de 16 anos tinha assinado um grande contrato. Agora joga no Manchester City, onde ganha quatro milhões de euros por ano. Mas seu sonho sempre foi vestir a camisa azul da seleção italiana. Na verdade, dias antes de completar 17 anos, recebeu uma oferta para jogar na seleção de Gana contra Senegal, mas disse que não. Esperou até completar 18 anos, obteve a cidadania italiana e aguardou a chamada: “Para mim nada é mais fascinante que a camisa da seleção italiana”.

A seção de esportes do El Pais há anos vem contando as danças e andanças de Balotelli, sempre à beira do impedimento, lutando contra seus adversários e contra si mesmo. Massimo Boninsegna, treinador do Lumezzane, primeiro clube de Balotelli, recorda: “O presidente do clube o promoveu de categoria porque os técnicos do infantil tinham dificuldade em controlá-lo. Eu dizia a ele que para ser líder não bastava a qualidade, tinha de conquistar seus companheiros de equipe”. Mas Balotelli era um rebelde. O próprio jogador reconhece que a primeira imagem que se lembra é de sua mãe Silvia gritando. “Depois de cada truque sujo eu dizia: ‘Mãe, me desculpe, eu prometo que este foi o último’”. Mas continuou fazendo. E ainda o faz. E nunca faltam aqueles que argumentam que o pior inimigo de Balotelli é o seu próprio caráter, seu comportamento imprevisível. O técnico Fabio Capello disse, de Cassano e Balotelli: “A Itália tem dois grandes talentos. Mas eles são loucos”.

As loucuras de Balotelli já fazem parte do mito. No Reino Unido existem programas de rádio onde os ouvintes se dedicam a contar as excentricidades do atacante. Eles dizem que o automóvel dele foi rebocado 30 vezes. Embora seu restaurante favorito fique a 100 metros de casa, ele sempre vai em seu Maserati e estaciona na calçada. Diz-se que quase incendiou a própria casa brincando com fogos de artifício, que já encheu o tanque para todos os motoristas em um posto de gasolina, que deu 1.000 libras a um vagabundo e que uma vez entrou na biblioteca de uma universidade e pagou as multas de todos os alunos que não haviam retornado os livros a tempo. Vale tudo para aumentar a lenda de um cara que, aliás, todos têm o prazer de conhecer. Em 2010, quando ganhou o troféu Golden Boy de melhor jogador sub 21, Balotelli disse: “Espero que esse troféu se transforme na Bola de Ouro. Só existe um jogador ligeiramente melhor do que eu: Messi”.

O filme sobre Balotelli, qualquer um deles, terá um fotograma inevitável. O momento em que, depois de marcar seu segundo gol contra a Alemanha na Eurocopa, tirou a camisa e, como escreveu Cayetano Ros, “apertou os músculos da parte superior do corpo em um gesto que imitava o Incrível Hulk, o super-herói dos quadrinhos” . Naquela noite, dizem os cronistas, “verificou-se que não há melhor antídoto para a arrogância [da Alemanha] que um cara como Balotelli, descomplexado e brilhante”.

Sua postura desafiadora às vezes complica sua vida, mas em outros casos é a solução. De todas as frases que Silvia disse após o jogo da Eurocopa, houve uma que retratou bem a vida do filho. Ela contou que quando o menino correu para as arquibancadas e abraçou-a e beijou-a e disse coisas bonitas em seu ouvido, também chorou. “É difícil Mario chorar. Talvez a última vez foi por causa do Mourinho”.

E aqui está, chegamos ao bandido da película. O treinador do Real Madrid comandou Balotelli na Inter. Inicialmente, o técnico português foi atraído pela natureza rebelde, mas logo se cansou. Puniu-o com o banco, mostrou-lhe a porta da rua.

Massimo Boninsegna relata o problema: “Mario precisa ser tratado como um filho. Mourinho deveria ser compreensivo”. Não era. Sua falta de tato — vamos ficar por aqui — fez o jogador passar por momentos difíceis.

Apesar de não termos tratado tanto do assunto, Balotelli é negro, um italiano negro e o racismo na Itália encontra sua caixa de ressonância nos campos de futebol. Mourinho e o racismo se juntaram aos 88 minutos da partida de janeiro de 2010, que a Inter jogava no campo de Chievo Verona. Uma parte do público tinha passado o jogo vaiando cada vez que Balotelli pegava na bola. Mourinho poderia ter esperado dois minutos para o jogador sair de campo abraçado por colegas. Mas preferiu substituí-lo. O público aproveitou e reforçou sua vaia racista. O atacante, implacável, respondeu com aplausos de ironia. Um tribunal esportivo multou — não ao público, a ele, Balotelli — em 7.000 euros. Por provocação…

Meses depois, ao jogar contra a Romênia, o atacante foi novamente vaiado e teve de suportar a ladainha absurda: “Não há italianos negros”. Mas desta vez no banco estava o treinador Cesare Prandelli, que depois da partida disse palavras bonitas e sinceras: “Vamos todos abraçar Mario porque é mentira que insultos não deixam marcas”.

Diz sua mãe branca que quando se sente mal Mario se isola, em silêncio. Agora ele deve estar se sentindo fenomenal, porque de todas as praias luxuosas da Europa chegam fotos de Balotelli na companhia de belas garotas, algumas famosas e outras tentando se tornar, acompanhados por Enock Barwuah, seu irmão de sangue, e amigos.

Para trás está ficando uma infância doentia, uma adolescência de criança negra em bairro de brancos, e um momento de sobressalto quando, já como jogador de futebol, sua mãe biológica o procurou — não se sabe se em busca de carinho ou de seu dinheiro. Durante anos, a Sra. Silvia o educou como mais um de seus filhos. Ela contou — e esta é a parte do filme que sempre emociona — que o aconselhou a ser respeitoso, tolerante com os diferentes. Que muitos outros antes dele sofreram o assédio do racismo, do fascismo. Ao fazer isso a Sra. Silvia procurava um maço de cartas escritas à mão, cheias de riscos de tinta azul, e contava uma história. Sua mãe — a avó branca de Mario – era uma judia alemã. Nasceu em Wroclaw, uma cidade polonesa da Baixa Silésia. Durante a Segunda Guerra Mundial, a mãe da Sra. Silvia chegou à Itália por causa do amor de um piloto italiano, mas a família não teve tanta sorte. A irmã mais nova da avó, de 19 anos, e os pais dela foram levados a campos de concentração e ali morreram. Os riscos em azul nas cartas foram resultado da censura dos guardas nazistas…

Quando Balotelli, junto com seus companheiros de equipe, visitou Auschwitz, estava usando fones de ouvido; não ouvia música, mas uma gravação dos horrores sofridos pelos prisioneiros. Depois de deixar o local, o atacante contou à mãe Silvia o que tinha visto. Todas estas emoções estão contidas naquela fotografia de Balotelli, nu e calado diante do estádio, mas especialmente naquela outra, em que mãe e filho juntos se abraçam e falam sobre o Sr. Francesco, agora com 83 de idade, que dava chocolate branco — o seu favorito, Goody — ao filho antes de cada partida. Prandelli pode estar certo. Insultos não vão embora sem deixar vestígios. Nem erros. Nem o sucesso. Nem as dores da infância. Balotelli, nu diante de todos, foi esculpido a golpes. A golpes muito duros, de sucessos e fracassos.


sábado, 21 de julho de 2012

Alienação social faz dos EUA terreno fértil para chacinas

"O que mais chamou minha atenção no atirador que matou nesta segunda-feira pelo menos 12 pessoas num cinema do Colorado onde “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” estava sendo exibido foram a máscara de gás, o colete à prova de balas, o capacete e as três armas que ele usou –incluindo um fuzil. ”



MICHAEL KEPP
Plano Brasil

Uma testemunha disse que ele “parecia preparado para ir à guerra.

Alguns podem dizer que o fato de o atirador parecer um soldado é um reflexo de todas as guerras que minha pátria vem travando, do Vietnã ao Iraque e ao Afeganistão, e de quão fortemente armados estão os seus cidadãos.
Mas há fatores menos óbvios que também fazem dos Estados Unidos um terreno fértil para chacinas.

Acho que a alienação social e a pobreza espiritual necessárias para cometer assassinatos em massa são um produto da cultura americana, mais que de qualquer outra.

É uma sociedade altamente competitiva e individualista, com pouco sentimento de comunidade. Cerca de 25% dos americanos vivem sós.

Não surpreende que as chacinas, incluindo a de ontem no Colorado, sejam quase sempre cometidas por homens brancos de classe média, o segmento da população mais pressionado a ter sucesso e que tem o menor senso de comunidade.

Acho que o Brasil é um terreno menos fértil para franco-atiradores devido ao senso maior de comunidade que existe aqui.

Os únicos crimes dessa natureza dos quais me recordo aqui foram o assassinato de três pessoas e ferimentos em quatro às mãos de um estudante de medicina em um cinema de São Paulo, em 1999, e a morte de 12 crianças e ferimentos em outras 11 numa escola no Rio em 2011, por um ex-aluno de 24 anos.

O atirador de São Paulo era um fanático da internet, solitário, perturbado e de alta classe média, o perfil do atirador americano típico.

O atirador do Rio tinha mais semelhanças com os dois estudantes que mataram 12 de seus colegas e um professor no colégio Columbine, de classe média, em 1999, também no Colorado.

O que esses massacres todos têm em comum: aconteceram em lugares onde as pessoas estavam reunidas. Normalmente nos sentimos mais vulneráveis quando estamos sozinhos.

Mas, em lugares como cinemas, estamos mais vulneráveis juntos. É isso o que é tão assustador nesses crimes todos. É por isso que os americanos podem pensar duas vezes na próxima vez em que quiserem assistir, não apenas a um filme de Batman, mas a qualquer filme.


MICHAEL KEPP, jornalista americano radicado há 29 anos no Brasil, é autor do livro “Tropeços nos Trópicos – crônicas de um gringo brasileiro”.



sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quebrar o Sigilo da Dilma pode?


por Mino Carta

O sigilo fiscal de Dilma Rousseff foi violado durante a campanha eleitoral de 2010. A revelação é do deputado Miro Teixeira, que denuncia também a quebra do sigilo telefônico de 20 parlamentares, vítimas mais recentes porque envolvidos na CPI do Cachoeira. Há duas semanas Teixeira entregou a lista dos grampeados, e os documentos que comprovam a quebra sofrida pela presidenta há dois anos, ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. A operação anti-Dilma malogrou porque, fácil a dedução, nada foi encontrado que comprometesse a candidata. Para desapontamento tucano.

O deputado pedetista recebeu o material de duas pessoas, em separado. Não lhes revela os nomes, bem como aqueles de 18 dos 20 grampeados. Exceções, dois de destino já selado: Demóstenes Torres e o deputado tucano Carlos Leréia. Quem está por trás das operações criminosas? O próprio Cachoeira e sua gangue? Talvez, mas há outros grupos de, digamos assim, profissionais. Aqui Teixeira fecha-se em copas. É possível entender, mesmo assim, que nem todos agem movidos por meros interesses políticos. Agem sem prévia encomenda, para comercializar o resultado dos seus serviços junto aos prováveis interessados, procurados depois de cumprida a tarefa.

Coisas nossas, coisas do Brasil. O mister de grampeador clandestino no País está oficializado pelo menos há quatro décadas. Estamos habilitados a uma singularidade e a um pioneirismo que nos distinguem mundo afora. Por exemplo. Uma lei da anistia imposta pela ditadura civil-militar continua em vigor. Não se queixem se os argentinos nos olham com ares de superioridade. Diga-se que a Corte Interamericana de Direitos Humanos, vinculada à OEA, acaba de pedir explicações ao Brasil sobre a demora na localização e identificação dos restos mortais dos participantes da guerrilha do Araguaia.

A própria Corte há dois anos pediu pela execução desse doloroso resgate, mas em abril passado as famílias dos desaparecidos queixaram-se pela falta de cumprimento da solicitação. Sem contar que 19 ossadas ainda aguardam por identificação, embora já desenterradas e entregues às autoridades em Brasília. Nada de surpresas, uma dita Comissão da Verdade foi composta para trazer à tona a própria. E qual seria a verdade?

Coisas do Brasil, coisas nossas, como cantava um samba, disposto a evocar outras bossas em nada aparentadas com as situações acima levantadas. Há compensações, contudo. A Unesco atribuiu um dos seus cobiçados prêmios à Paisagem Carioca. As letras maiúsculas­ se justificam. Premiadas as paisagens, elas somente, em lugar da Cidade Maravilhosa e de quem manda nela. Atente-se para o detalhe, a despeito dos esforços da retórica oficial. Premiadas, especificamente, a Floresta da Tijuca, o Corcovado, as calçadas desenhadas por Burle Marx e a entrada da Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar.

Mas há outros detalhes, não de todo desprezíveis. Primeiro, houve esforço concentrado para emplacar a premiação por parte do governo federal, convencido de que as autoridades cariocas não se preocupam com a beleza da sua cidade. Bem-sucedida operação de marketing com nobres propósitos. Dedução: se depender dos graúdos do lugar, na visão do governo federal, as maravilhas do Rio acabam logo.
Tem mais. A motivação do prêmio fala da interferência positiva do homem na preservação dos encantos cariocas. Ora, ora, se há algo negativo neste enredo é exatamente a interferência do homem. 

Houve tentativas recentes e louváveis para recupe­rar algo da velha Rio, e vários bairros ao longo da orla mantiveram padrão, módulo, uma certa dignidade arquitetônica. A prepotência, a empáfia, a irresponsabilidade dos herdeiros da casa-grande ergueram, no entanto, em substituição da senzala um cenário de favelas que está muito longe de ser uma beleza, conforme outro samba. O que sobrou do centro evidencia apenas tudo quanto perdemos, ao passo que a Barra se tornou apêndice do inferno.

Hoje mesmo, de tarde, vinha eu pela Alameda Santos, paralela da Avenida Paulista, a Fifth Avenue de São Paulo. E eis que, ao longo da calçada do quarteirão que precede a Rua Augusta, de trânsito pesado, corre em sentido oposto ao meu um moço de revólver em punho e camisa cheia de vento. Ninguém vai atrás dele, seguem-no apenas os gritos de um grupo denso e revoltado de pedestres, estacionado na esquina. Um assaltante, obviamente, às 4 da tarde. Ao considerar a velocidade do fugitivo, pensei que poderia ter sido treinado para participar das Olimpíadas e ameaçar o reinado de Usain Bolt.