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sábado, 17 de março de 2012

Fatos políticos, fatos eleitorais




Marcos Coimbra, Carta Capital

Depois de um janeiro em que, previsivelmente, nada aconteceu, o ano político de 2012 teve até agora dois fatos relevantes: em fevereiro, a entrada de José Serra na corrida sucessória em São Paulo; nos últimos dias, a “crise” na base do governo. Para as oposições, o lançamento da candidatura de Serra trouxe resultados positivos. Pelo amplo noticiário que gerou, levou-as de volta ao primeiro plano da política nacional, após meses de relativo sumiço.

No segundo semestre de 2011, mal haviam conseguido aparecer em meio às seguidas mudanças ministeriais provocadas, quase todas por investigações iniciadas por agências do governo e posteriormente divulgadas – às vezes com mais, às vezes com menos estardalhaço – pela mídia. O máximo que suas lideranças conseguiram foi comentá-las em tom compungido.

A confirmação de Serra como candidato em São Paulo fez com que a maioria das grandes corporações da mídia se rejubilasse. Jornais, revistas e emissoras de televisão antipetistas viram nela a possibilidade de derrotar Fernando Haddad, o candidato de Lula, que marchava, a seus olhos, para a vitória.

Dentro dos partidos de oposição, especialmente no -PSDB, a notícia foi recebida com um misto de alegria e preocupação. Seus quadros e simpatizantes mais à direita ficaram felizes com a perspectiva de ver o velho Serra outra vez no páreo. Mas as correntes menos conservadoras – ainda que contentes com a hipótese de manter sob controle a prefeitura da maior cidade do País – tinham consciência de que, vencendo, Serra seria um fator de instabilidade para seus planos.

Só os mais ingênuos pensariam o contrário. E o próprio Serra encarregou-se de fazer circular que continuava com a obsessão de sempre e que via a prefeitura apenas como baldeação no caminho de seu Shangri-lá, a Presidência da República. Ou seja, os tucanos resolviam seu problema imediato – não ter candidatos competitivos na capital paulista – e criavam um novo para o futuro.

Mas foi um fato político de impacto indiscutível, cujo maior beneficiário, como não poderia deixar de ser, terminou sendo Serra.

Nada garante, no entanto, que tenha consequências eleitorais igualmente relevantes. De acordo com as pesquisas disponíveis, o horizonte para o PSDB continua sombrio com ele – quem sabe, até mais do que se disputasse a eleição com um nome menos desgastado e que logo alcançaria as intenções de voto que tem, turbinado pela rejeição ao PT, sempre expressiva na cidade.

Em todas as pesquisas feitas em 2011, Serra obtinha cerca de 20% ou um pouco mais, de acordo com o cenário, ficando atrás de Marta Suplicy e empatado com Celso Russomano. Na única divulgada depois de se lançar, chegou a 30%.

Trata-se de um resultado desanimador. Quer dizer que a superexposição que recebeu da mídia – durante dez dias toda voltada para ele – fez com que crescesse modestamente. Quer dizer que, apesar disso, 70% dos eleitores da cidade continuam- a não pensar nele. Quer dizer que não tem espaço para crescer – pois é conhecido por 100% do eleitorado – e não vence com o que tem.

Em outras palavras, a eleição permanece promissora para Fernando Haddad e Gabriel Chalita e começa com um grande ponto de interrogação para Serra. Como se vê, um fato pode ser politicamente relevante e inócuo em termos eleitorais.

Algo semelhante aplica-se à recente “crise” na base do governo, que provocou mudanças em seu comando no Congresso. Faz barulho, mas quer dizer pouco para o verdadeiro jogo, a eleição presidencial de 2014.

Para entender a insatisfação dos partidos, é preciso lembrar que as eleições municipais são quase irrelevantes na definição de quem ocupa o Palácio do Planalto, mas são decisivas na renovação dos mandatos no Congresso. Deputados e senadores que “não levam nada” para seus redutos ficam fracos. E se enfurecem quando percebem que um adversário conseguiu nomear um protegido ou fazer com que uma obra saísse do papel.

O pano de fundo da “crise” é a eleição municipal, pois dela depende a parlamentar e o tamanho das bancadas no Congresso e seu peso na Esplanada dos Ministérios. O que está acontecendo é apenas mais um capítulo da antiga pendência entre os partidos que querem crescer e os que não querem diminuir.

Nada que mude muito o panorama da política.


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