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sexta-feira, 16 de março de 2012

O alerta de Collor não vale para Dilma


Foto: Agência Brasil

Matheus Pichonelli
CartaCapital


Há sinais por todos os cantos de Brasília de que a ampla aliança em torno de Dilma Rousseff na campanha presidencial de 2010 começa a ruir. Há uma semana, o principal aliado, o PMDB, escancarou em carta-motim a sua insatisfação com o espaço reservado ao partido no governo federal.


O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, foi a público dizer que a situação era tensa. E era.

Outro aliado de primeira hora, o PSB, se afasta da órbita do governo à medida que se aproximam as eleições de 2012 (dizem que até 2014 piora). E até mesmo o PT já espalhou por aí certa irritação com uma suposta desatenção da presidenta aos pleitos da legenda.

Agora é a vez do PR, o Partido da República – resultado da fusão entre o Prona e o PL, sigla do candidato a vice-presidente de Lula em 2002, José Alencar. Pois o antigo aliado, depois de mais de nove anos de serviços prestados, anunciou na quarta-feira 16 que, agora, é oposição.

Por que discorda dos rumos da macroeconomia? Está descontente com a administração dos programas sociais? Por que não se conforma com a política externa?
Não.

O motivo da revolta é um pouco mais nobre: a legenda não se contenta com o espaço deixado por Dilma Rousseff em seu governo. Na divisão do bolo, logo após a eleição, ficou acertado que o PR seguiria à frente do Ministério dos Transportes.

Mas o ministro, Alfredo Nascimento (PR-AM), deixou o cargo sob suspeita de corrupção. Levou junto o chefe do Dnit, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Luiz Antônio Pagot, acusado de comandar um esquema de superfaturamento no órgão. Nascimento é cacique no Amazonas, seu reduto eleitoral, e Pagot, aliado de Blairo Maggi, ex-governador de Mato Grosso e hoje porta-voz dos rebeldes do Senado.

O substituto de Nascimento, Paulo Sérgio Passos, nunca foi o nome preferido dos caciques insatisfeitos. Não tem as costas quentes. Dilma deu de ombros: é ele quem segue no cargo até hoje.

Desde então, os senadores da sigla poderiam votar como quisessem em relação aos interesses do governo na Casa. Levavam a crise em banho-maria e posavam como sigla independente. Até que, durante a semana, cansada das rebeliões protagonizadas pelos aliados no Congresso – o ápice foi o veto a um indicado para um cargo no (adivinha?) Ministério dos Transportes – Dilma limou os antigos líderes do governo nas duas Casas.

No Senado, foi escalado para a liderança do governo o ex-governador do Amazonas Eduardo Braga, do PMDB.
Sai o líder, mas não o partido, e tudo ficava em paz até segunda ordem, certo?
Errado.

Braga é inimigo histórico do ex-ministro e conterrâneo Alfredo Nascimento.

Foi demais para os caciques do PR no Senado, que agora, oficialmente, passarão a defenestrar tudo aquilo que eram favoráveis quando estavam bem acomodados. Esqueça os sorrisos de palanque de dois anos atrás. A guerra agora está declarada.

Tão declarada que muitos adeptos da tese de que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa, começam a comparar a tensão enfrentada por Dilma à caça encampada pelo Congresso contra Fernando Collor de Mello no começo dos anos 1990. Entre eles o próprio ex-presidente.

Hoje senador, Collor (PTB-AL) recorreu à própria história para mandar um alerta à presidenta.

“O diálogo precisa ser reaberto. É fundamental que o Planalto ouça esta Casa e ouça a Casa ao lado. E eu falo como ex-presidente que desconheceu a importância do Senado e da Câmara. O desconhecimento resultou no meu impeachment”, disse o senador alagoano em aparte ao discurso de despedida da liderança do governo feito pelo senador Romero Jucá (PMDB-RR).

Nas palavras de Collor, reproduzidas pelo site da Agência Brasil, a base do governo está sentindo um “certo gosto de azedume” devido à relação desgastada entre Executivo e Legislativo. Para finalizar, disse torcer para que Dilma faça a coisa certa e evite o descarrilamento do trem.

Tivesse confiscado a poupança da população que a elegeu, Dilma talvez devesse levar em conta o alerta do aliado. Até onde se sabe, a presidenta não circula por Brasília com carro pago com sobras da campanha nem tem conta pessoal paga pelo tesoureiro. Também não mostrou talento de jardinagem na Casa da Dinda.

Collor, embora tenha contado com o apoio da maior parte da mídia, foi eleito por um partido inexpressivo. O PT ainda possui a maior bancada da Câmara e Dilma, até onde se sabe, tem o governo aprovado por 59% da população, segundo pesquisa Datafolha publicada em janeiro. Parte da aprovação se dá justamente pela postura em relação aos ministros que caíram por suspeitas.

A história é outra e o Brasil (por sorte), também. Dilma sabe disso e vai esticar a corda até onde conseguir. Até agora, fez as mudanças nos ministérios do seu jeito e reajustou sua interlocução no Congresso sem pedir licença.
Quem não gostou, agora reclama – e Dilma não parecia desconhecer o terreno onde pisava.

Em entrevista ao site Luis Nassif Online, publicada no domingo 11, a presidenta parecia dar o alerta: “os conflitos – que sempre existirão – têm a ver com os processos pelos quais exercemos o nosso presidencialismo. Tem que ser de coalizão, mas não deixa de ser presidencialismo”. E completou: “Ninguém aqui pode durante muito tempo só defender seus interesses específicos sem que haja reação da parte da sociedade.” (Leia mais AQUI)

O recado parece claro. Quem manda, por enquanto, é ela – e a opinião pública, nesse embate, não parece ter muitas dúvidas sobre de que lado está.


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