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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Venha ser cínico você também




Estaríamos vivendo uma época de cinismo? Pesquisador afirma que sim e que a fronteira entre a tolerância e a intolerância é mais tênue do que imaginamos

Você pode reconhecer alguém ou mesmo se ver nessas aspas.

“Plena igualdade de direito, tanto pros homens quanto pra nós, mulheres, não tem que ter distinção. É, mas acho que o papel de chefe de casa ainda é do homem, é uma coisa de tradição…”.

“Gays? Não tenho nada contra, aliás, tenho até amigos gays. Nada contra mesmo, sei respeitar as diferenças, desde que não mexam comigo, não mexo com ninguém. Mas agora querer colocar beijo gay em novela e cartilha contra a homofobia nas escolas, aí já demais. Não precisa incentivar…”.

“A mulher deve se libertar sexualmente: nada de medo, garotas, vocês são donas dos seus desejos. Que? É… não, quer dizer, sim, sim, claro que eu quero me casar é com uma mulher direita, que seja correta”.

A necessidade do sistema em se legitimar tem revelado certas práticas sociais e discursos irônicos justamente em seus pressupostos legitimadores. Discursos como esses aí de cima rolam em qualquer boteco, roda de amigo ou mesa de jantar do país. E o diagnostico parece ser esse: há um cinismo movendo a sociedade.

“O cinismo é a marca de uma época em que os aspectos de nossa vida nos parecem desconectados, fragmentados. O cínico é aquele que desvincula discurso de prática. Quando vemos que o cinismo tem se generalizado, isso indica que vivemos cada vez mais a experiência dessa desvinculação”, aponta o pesquisador Paulo Gajanigo.

Quando se fala em sexualidade esse caminho – da tolerância à intolerância – é suave, quase sem nenhuma crise de consciência. Isso porque a tolerância finca uma estaca bem clara: “eu aceito o outro até certo ponto; passou da minha margem de conveniência, não”. Porque, claro, deve-se aceitar a homossexualidade, a luta contra o sexismo, direitos de travestis, transexuais e prostitutas, mas há UM LIMITE, bem fixado, em caixa-alta e que não se deve passar. Mas por quê?

Gajanigo tem uma resposta. “Essa posição se contrapõe a uma ética de solidariedade. A tolerância não se guia pela compreensão do outro, por se colocar no lugar do outro, mas por meio de abstrata posição de respeito. Essa posição abstrata é insuficiente para um humanismo de fato, por ser um respeito formal, pode-se usar de formalidades para justificar que certo comportamento passou do tolerável. A ética é fruto da prática, é produto histórico da sociedade”.

Para ele, uma ética de fato solidária não brota de um ambiente que estimula a concorrência e discutir a intolerância implica em não ter medo de ligar essa discussão a outros aspectos da vida, como a forma de produção, o mundo do trabalho e o mercado.

Então, vamos lá.

Curto-circuito

Está tudo flexível. Relativo. O lance é anular paradoxos e contradições, amaciar conflitos. E nessa ótica de flexibilização rola um curto-circuito na passagem da essência para a aparência e vice-versa.

Em seus trabalhos, o filósofo esloveno Slavoj Zizek afirma que a identificação dos “sem-parte” como parte da sociedade, mesmo desprovidos de lugar verdadeiramente justo, é um gesto elementar da politização. Ao contrário, a identificação com o particular, característica de despolitização da economia, ajuda a perpetuar a condição de excluídos.

Assim, respeitamos o outro o concebendo como uma comunidade “autentica” fechada sobre si mesma, e a pessoa adepta do discurso da tolerância mantém, pelo seu lado, uma distancia que torna possível a sua posição universal privilegiada. Tolerância, portanto, seria uma construção do capitalismo para reduzir os significados do plural ao simples e fundamental, apropriando de conceitos para esvazia-los de conteúdo, mapeando algumas tendências.

“Ao mesmo tempo em que temos cada vez mais instrumentos técnicos de participação, os espaços são cada vez mais controlados, assistidos. Pesquisas de opinião, que de um lado podem parecer formas do governo se adequar ao que as pessoas querem, são meios de identificar tendências, antecipar respostas e assim aumentar a segurança dos governos em relação aos governados”, diz Gajanigo. E acrescenta: “o cinismo, como forma de desvincular discurso e prática, serve a uma democracia formal, pois fornece liberdade discursiva para articular divergências políticas e de modo de vida”.

Pergunto para ele se esse discurso cínico de tolerância pode agravar as formas de dominação.

“Não sei”, responde. “No âmbito discursivo, estabelece-se um cabo de força. De um lado, o oprimido encontrará mais legitimidade em reivindicar direitos, de outro, os opressores acabam por dominar o discurso da tolerância, de forma que podem usar o discurso do politicamente correto para despistar seu comportamento opressor”.



Sobre as fotos: No filme Dogville (2003, Lars von Trier), a protagonista (Nicole Kidman) é uma moça rica e que expressa tolerância frente aos moradores de uma vila. Injustiçada e violentada pelos moradores ela alterou seu comportamento da tolerancia à total intolerância quando os mafiosos liderados por seu pai aparecem para libertá-la. Uma ilustração do cinismo na sociedade?



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